[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 42 - Boas Novas
Capítulo
42 – Boas Novas
E mais uma vez, em um momento que
me garantiu enorme fastio, acompanhei de perto a nojeira da ganância, a soberba
da avareza e a prepotência dos miseráveis de espírito que, pelos tesouros que
possuem e pelo grandioso número de seres humanos que escravizam, acham-se
perfeitos, consideram-se imbatíveis, mas não passam de medíocres que se
contentam com uma vida cujo único propósito é enriquecer derramando o sangue
alheio, que recebam o meu pesar, a minha misericórdia, são dignos de pena pela
mente mesquinha que os domina erroneamente.
Mas, o que nunca deixei de
acreditar embora não houvesse contemplado com meus próprios olhos, aconteceu e
me maravilhou, animou minha alma e me encheu de orgulho: no nosso meio, no meio
daqueles que se comportam com imensa altiveza, há nobres e valentes intentos,
há pessoas dispostas à mudança, os chamados rebeldes se mostraram verdadeiros
reacionários, reagirão contra a ignorância e farão acontecer a tão sonhada e
libertadora revolução!
Que noite, caros cidadãos, que
concerto magnífico, repleto de artistas admiráveis, envoltos pelo melhor que a
música pode ofertar. A música, essa arte que manifesta os muitos sentimentos da
nossa alma, tão bem executada por aqueles que são desprezados, condenados por
uma razão tão simplória e injustificável, desacreditados por uma civilização
que se mostra a cada dia involuída. Os negros, nobres sujeitos, cheios de dom e
talento, merecedores da mesma dignidade dos brancos, seus opressores, aqueles
que lhes devem um pedido de perdão. Foram aplaudidos. Foram disputados. Foram
cobiçados por homens tolos, insensíveis, homens que deveriam saber que a glória
do ouro não é de seu dono se não do próprio ouro: o dono morre, desaparece, o
ouro irradia, prevalece.
Sociedade suja e maldita. Até
quando permanecerá nessa covarde posição? Até quando se alegrará pelo título de
atrasados no intelecto? Liberdade aos nossos irmãos!
Tão
logo o dia amanheceu, as pessoas possuíam nas mãos a carta escrita pelo
misterioso autor que alvoroçava os que compactuavam com seus dizeres e irava os
que se usavam da opressão para conquistarem mais e mais privilégios.
Queriam
conhecer quem era o ousado escritor.
Não
para venerá-lo.
Mas
destruí-lo.
¤
Na
fazenda de Frederico o dia amanheceu gelado, o outono se apresentava com maior
força, os dias quentes de verão dava lugar aos primores do inverno, o clima
ameno fazia corações desejarem pelo calor um do outro.
Como
se há tanto tempo não se viram, como se estivessem separados por longínquas
distâncias, o casal apaixonado, sentado na beira do rio cujas águas estavam
mais frias a cada amanhecer, beijava-se como se nada fosse mais importante do
que a íntima e intensa aproximação dos lábios que tão perfeitamente se
encaixavam, aquele beijo precedeu qualquer palavra, antes de qualquer coisa as
almas precisavam se comunicar.
—
Bom dia! — como um garoto arteiro, mantendo a testa encostada na da namorada,
Artur exibia o largo sorriso, as curvas que faziam da jovem mulher uma boba
apaixonada.
—
Bom dia! — igualmente radiante, passeando o sutil dedilhar pela face que tão
bem conhecia, cuja textura era de longe sentida, Ana retribuiu ao cumprimento.
—
Arrisco dizer que sentiu saudades...
—
E como não sentiria? Daria tudo pela nossa liberdade...
—
Um dia ela chegará... — o rapaz se deitou sobre a relva, trouxe a amada para
si, gostava de ser o seu apoio, alguém em quem ela sempre poderia se abrigar —.
Muitos bons músicos ontem? — interessou-se pelo sarau, desejou tê-la
acompanhado, não deixou de confiar que um dia o faria.
—
Teria gostado de participar, ou melhor, teria festejado se lá estivesse, a
começar pelo prazer da minha companhia, mas também por um motivo maior —
entrelaçou os dedos sobre os corpos, encarou o sereno olhar de seu amante.
—
É claro que sim, sua companhia é um dos melhores e mais especiais prazeres que
qualquer um sentiria, agradeço por prová-lo em manhãs como essa... — beijou a
face de Ana em um gesto romântico, não perdia as oportunidades de exaltar sua
presença, sua existência —. Mas fiquei curioso por esse outro motivo...
Sentando-se
ao lado do jovem rapaz, a filha do barão de São Pedro o observou com ternura e
afinco, revelaria uma agradável surpresa, seria a responsável pela notícia que
traria euforia.
—
Não podemos vacilar na nossa fé, não podemos deixar de acreditar no melhor dos
futuros, sempre haverá boas novas àqueles que destilam amabilidade ao mundo...
Coloque um sorriso ainda maior nesse rosto agradável de se ver, seu irmão está
bem, seguro e foi um dos talentosos artistas que se apresentaram, foi o melhor
a pisar naquele palco!
Torceu
tanto, depositou tanta confiança e no mesmo tanto encorajou aquele que amava a
acreditar no próprio sonho e combater quaisquer objeções por ele. Custou
acreditar. Precisou ouvir a confirmação. Regozijou-se.
—
Ele merece! — não conteve as lágrimas de contentamento, a forte emoção do
júbilo, desfrutava de grande alegria pela conquista do estimado irmão —. Sonhou
tanto com essa chance, desejou tanto por mostrar às pessoas o que tão bem sabia
fazer. Quantas vezes tocou para que eu o ouvisse? Quantas vezes o aplaudi cheio
de orgulho? Finalmente alcançou o prazer que tanto ansiou!
—
Foi aplaudido, até mesmo meu pai, que não o reconheceu, procurou negociar para
trazê-lo! Ele está muito feliz, realizado, acompanhado por pessoas como nós,
que querem o seu bem e não medem esforços por isso.
—
Era tudo o que eu queria, tudo que precisava acontecer.
—
Pediu para dizer que os ama e que sonha com o reencontro. Imagino que a saudade
esteja grande, mas agora podem dormir convictos de que tornarão a se abraçar, a
família estará reunida!
Artur
abraçou sua amada, um abraço de gratidão pelas boas novas, um abraço de
triunfo.
¤
A
injusta escravidão oprimia até a alma, fazia os negros aprisionados desejarem
ardentemente pelo retorno à África, de onde eram, onde possuíam raízes, onde
estava o seu povo, a sua cultura, a sua história.
Mas
como voltariam ao lar?
Atravessariam
o oceano? Desbravariam o violento mar?
O
que parecia um sonho impossível de realizar foi alimentado por uma esperança
desesperada, o único caminho que tinham por viável, a última solução na qual
buscariam confiar. Viam na morte uma maneira de libertação, viam na morte o
caminho que os levaria de volta aonde nunca pediram para sair, de onde foram
brutalmente arrancados.
O
velho escravo, o mesmo que apanhara de Sebastião e fora defendido por Ana, não
aguentava mais a lida, não suportava mais o sacrilégio, olhava para o céu como
se quisesse render o espírito, não conseguiria resistir por mais tempo, sua
alma clamava por descanso.
Escondido
no meio do cafezal onde trabalhava, procurou pela erva cujos efeitos tão bem
conhecia, os olhos embaraçados finalmente a acharam, as mãos trêmulas a tiraram
da terra e os dentes enfraquecidos mastigaram o veneno.
Minutos
depois a canseira envolveu seu corpo.
Os
membros convulsionaram em desespero.
A
boca espumou.
Os
órgãos já não funcionavam.
A
vida se esvaiu do exausto pela opressão.
Continua...
##
No próximo capítulo:
— Escória? Eles que construíram
todo esse império, eles que possibilitam o seu enriquecimento, e é capaz de
chamá-los de escória? — Laís defrontou o detestável marido —. Você! Você é o
miserável! Você é o desgraçado! Desrespeita até mesmo a morte dessa gente que
lhe entrega o sangue, não passa de um monstro desprezível! — estava
descontrolada, não conseguia acreditar na feitura do sujeito desalmado, não
acreditava na ameaça que dirigia ao povo tiranizado.
De segunda a sexta, aqui no blog!
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