[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 40 - Celebração


Capítulo 40 – Celebração

Aquele mesmo som, melodioso, sublime, capaz de emocionar, era o que soava na fazenda do barão de São Pedro, o que tornava os árduos dias de lida dos escravos um pouco mais suportáveis, o mesmo som que garantia paz e tranquilidade aos corações que sofriam por amar, que eram penalizados por desejarem o romantismo.
Ana, tocada pela música que encantava a todos os presentes, prestou maior atenção no violinista habilidoso, conhecia-o bem, soube reconhecer os traços que ele e Artur compartilhavam, confessou que o disfarce caíra bem, apenas queria saber como tiveram a proeza de esconder sua dificuldade no caminhar. Agradeceu aos céus, teria a chance de cumprir sua promessa, levaria a Artur uma grande notícia, algo que o alegraria, que traria conforto, que ofertaria sossego.
Frederico nunca apreciou o som de Felipe, nem mesmo dedicou algum tempo para ouvi-lo, não pôde identificar o escravo fugido, mas, imitando os gestos dos demais, aplaudiu aquele que sempre humilhou.
O jovem adolescente, finalizado sua apresentação, emocionou-se ao receber tantos aplausos, ao ser gratulado pelo maravilhoso dom que possuía, mas sabia de um triste fato: aplaudiam-no por respeito ao seu senhor, ao que supostamente o tinha por propriedade, com quem precisariam negociar se quisessem embelezar suas propriedades com um artista tão bom.
— O que achou? — o barão se dirigiu à esposa.
— É um grande violinista!
— Bastante jovem, se bem treinado melhorará ainda mais e garantirá às minhas festas o título de melhores por muito tempo — denunciou suas intenções —. Vamos levar! — quem resistiria às suas ofertas, quem recusaria negociar com um dos mais ricos sujeitos? Frederico estava convicto de que aquela peça já lhe pertencia.
Ao sair do palco, Felipe deixou a todos curiosos por saberem a quem ele pertencia, mas o tal senhor não se apresentou, por enquanto permanecia no anonimato.

Outros talentosos escravos se apresentaram, emocionaram e foram aplaudidos, quanto mais venerado fosse um artista, mais caro era o seu preço, mais cobiçado ele era, conquistá-lo não passava de um gesto egoísta, disputa entre grandezas.
O evento se encerrou após duas horas de duração.
As negociações começaram a acontecer.
Enojado pelo que acontecia, disposto a livrar Felipe de tais incômodos, Victor dirigiu-se aos bastidores do espetáculo, onde tantos artistas aguardaram pelo momento de suas apresentações, onde o adolescente esperava nervoso pela companhia de seu amigo.
— Foi o melhor da noite! — discreto, mantendo as aparências, o nobre homem elogiou aquele que dependia da sua bravura, queria abraçá-lo, celebrar a conquista, mas olhos perversos existiam por todos os lados.
— Mas precisamos ir — o violinista falou com apreensão —. Meu antigo senhor está aqui, temo que me reconheça...
— Não há o que temer, ele está distraído! — Ana surgiu de repente assustando os companheiros que ansiavam por serem imperceptíveis no meio da multidão —. Acalmem-se, um amigo está nos encobertando... Felipe, senti saudades!
Abraçaram-se emocionados.
Há muito tempo não se viam, gostavam um do outro, formavam uma família que era construída em oculto, uma família que se defendia e protegia.
— Não imagina o quanto estou feliz por ter presenciado a realização de um sonho, se eu pudesse sairia gritando o quanto me sinto orgulhosa por ter um amigo que tira lágrimas da plateia quando encosta em seu instrumento, você merece as melhores considerações!
— Já eu fico tão contente por vê-la aqui, comemorando uma importante conquista que fiz, sabe que outros em seu lugar não agiriam com o mesmo ímpeto... Como me reconheceu?
— Você e seu irmão possuem semelhanças, a começar pelo coração que possuem.
— Como eles estão? — recordou-se de seus amados familiares, daqueles que o inspiraram a prosseguir na jornada —. Se soubessem a falta que fazem...
— Eles estão bem apesar de todos os infortúnios que conhece, mas se angustiaram quando souberam que você não chegara ao quilombo, essa saudade que oprime é sentida por eles também — revelou.
— Não tive a sorte de encontrar o quilombo, mas fui agraciado pela sorte de conhecer um grande amigo, alguém que me ajudou a tornar tudo isso possível: Victor! — apontou ao parceiro.
— Não é capaz de imaginar o quanto é bom para mim descobrir que há mais um nobre ser humano lutando por aqueles que todos os dias são injustiçados, largados à própria sorte — Ana se virou ao guerrilheiro, agradecia-o pelo honrado gesto —. Esse garoto tem um grande valor na vida daqueles que tiveram o prazer de conhecê-lo, tudo que lhe desejamos é a eterna felicidade — lançou o sorriso radiante ao querido adolescente.
— Ele é mesmo especial, como tantos outros que esperam ansiosos pelo dia de sua liberdade — o Protetor não se julgava um herói ou alguém magnífico, achava apenas que fazia o que qualquer um deveria fazer, o que era aceitável ao verdadeiro ser humano fazer.
— Não deixe de dizer à minha mãe e ao meu irmão o quanto os amo, que estou bem e a cada dia mais feliz, e que sonho com nosso reencontro num lugar de regozijo!
— E ele acontecerá, acredite nisso em todos os amanheceres!
Discreta, recompondo-se após a muita satisfação por ter descoberto o paradeiro de Felipe, Ana voltou ao encontro da mãe que a aguardava ansiosa por saber se o garoto era mesmo o antigo escravo, a baronesa se contentou com a revelação, desejava toda a dignidade ao povo negro.
Mãe e filha dirigiram-se ao encontro de Frederico que, embora no meio de amistoso diálogo com Victor e Egídio, movia os olhos em variadas direções no interesse de encontrar o violinista que tanta admiração causou. Precisava de tal aquisição, precisava manter os títulos que o engrandeciam.
— Vejo que já não há o que fazer aqui, podemos partir? — Laís sugeriu ao marido.
— É. Tem razão... — esticava o pescoço, mas nada de encontrar o tal músico —. Rapazes — dirigiu-se aos companheiros —, até breve! — ergueu o chapéu que usava, virou-se de costas em hora inoportuna, flagrou a causa de suas ambições —. Você! — avançando por entre homens e mulheres, conteve Felipe pelo braço, trouxe seus olhos aos dele —. É você mesmo! — à sua dianteira duas mulheres se angustiaram.
— Algum problema? — Victor se colocou ao lado do músico, mostrou que era o presumido senhor.
— Pelo contrário, acredito que hoje será o dia de sua maior sorte! — o barão reconheceu a própria invasão, largou o violinista, tomou alguns centímetros de distância.
— E por que eu deveria ouvir isso? — Victor falava com firmeza, mostrava-se um sujeito sério, obstinado.
— Por esse negrinho darei a quantia que desejar, basta que dê os números — fez a oferta.
A atenção de pessoas próximas se voltaram à negociação, também queriam o mesmo violinista, mas não ousavam competir com o afortunado barão, perderiam.
Em um momento tão nefasto, Felipe voltou a se sentir como uma simples mercadoria, objeto que deveria garantir lucros a quem o possuísse, sentiu a dignidade conquistada ser lançada ao pó. Encarou seu amigo, gesto imitado por Sara e Rute, seguido por Laís e Ana.
— Importune outros, este não está a venda — Victor pegou o adolescente pelo braço e deu às costas.
— Não pode recusar à minha oferta — incrédulo, Frederico interrompeu os passos do Protetor com sua voz grave e impostora, atraiu seus olhos para si.
— Sou seu escravo? — Victor questionou com ousadia.
— Não... — o barão respondeu confuso.
— Então eu posso recusar a sua oferta.
Felipe seguiu livre.
O aglomerado se dissipou.

Além de perplexo, Frederico ficou exasperado, nunca negaram aos seus pedidos que soavam como ultimatos.



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No próximo capítulo:

— Acredita que a tenho como piada? Não percebe que quero me dispor a lhe garantir a vida que foram incapazes de oferecer? — vestiu-se de seriedade, assumiria o que sentia, arriscar-se-ia —. Nunca me apaixonei, nunca despertaram em mim o que você desperta, nunca acreditei que me entregaria completamente a uma mulher até você aparecer — acariciou a face delicada, viu os olhos de Rute se fecharem, uma lágrima correu pelo rosto feminino —. Sim, eu estou apaixonado por você e anseio por uma chance de fazê-la feliz!

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