[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 28 - Alguém em quem confiar


Capítulo 28 – Alguém em quem confiar

A raiva desperta dentro de nós tempestades furiosas, tormentas grandiosas, anuncia ruínas que não conseguimos evitar, provoca dores amargas e intensas, sensação de desordem, de inquietude, momentos nos quais falta a clareza, a direção, a raiva é capaz de nos engolir vivos e se não fosse momentânea é o que faria.
Heitor sentia a alma queimar em impiedosas chamas de raiva, a mente confusa era tomada pelo acesso de ira que despertava, seu desejo era em se vestir de ousadia, percorrer as estradas que o separavam de seu maior amor e cobrar do opositor tudo o que devia. A raiva estava ao ponto de comandar suas decisões, controlar suas pernas e levá-lo a um embate que perderia. Fizessem contra ele, mas não ferissem a quem amava.
— Vim até aqui porque não tenho com quem desabafar, se contasse à minha filha poderia provocar uma tragédia, se soubesse que reagiria dessa forma imprudente teria optado pelo silêncio, por reunir forças e suportar a sós essa dor tão desumana — aflita pela reação do amante, Laís se colocou diante da porta, encarou os olhos que lacrimejavam pela revolta que dominava o ser do nobre homem, suplicou a ele que fosse sensato.
Heitor, desesperado pelos pensamentos que o dominavam, angustiado pelas imaginações que subiam à sua mente e representavam toda a dor sentida por Laís, suspirou profundamente, passou as mãos pelo rosto como se quisesse se livrar das incômodas imagens, como se naquele gesto tudo deixaria de existir, tudo se revelaria uma grande ilusão, um almejável equívoco.
Controlando as intensas emoções, voltando ao seu estado de domínio e sobriedade, o homem de apreciáveis virtudes fitou o olhar nas íris castanhas, nos olhos desesperançosos, contristados, que revelavam uma alma abatida e consternada. Acariciou o rosto sereno, o rosto que nunca seria capaz de agredir, levou os dedos aos cabelos longos, cabelos que adorava sentir a maciez. Trouxe a amada contra si, ofereceu-lhe o seu terno abraço, permitiu que sobre seu peito as lágrimas fossem derramadas, era incapaz de erguer a voz contra aquela mulher, como alguém pôde molestá-la de forma tão baixa, mesquinha, bruta e hostil?
— Foi horrível! — a baronesa, sentindo-se segura naquela benquista aproximação, encontrou forças para verbalizar o próprio sofrimento, para expor em palavras sufocantes os pensamentos, aquilo que precisava dizer —. Nunca imaginei que passaria por tamanha mácula, que seria brutalmente ferida, não soube como reagir enquanto era resumida a um insignificante meio de satisfação — as palavras saíam abafadas, precisavam lutar contra o choro —. Como se não bastasse, como se não tivesse sido o suficiente, aquele monstro me obrigou a dormir ao relento, descartou-me como se faz com coisas que perderam sua utilidade...
Era sofredor demais ouvir tal revelação, era em extremo revoltante escutar o desabafo, conhecer o que se passou pela mente da mulher que amava enquanto ela era perversamente dominada por um sujeito ordinário, mas Heitor permaneceu firme, obstinado a ser um ajudador, decidido a colher cada discreta lágrima, evitar que o choro fosse derramado em vão. O que ele não conseguiu vencer foi o próprio pranto, as lágrimas rolaram em um misto de indignação e culpa.
— Se eu tivesse sido um pouco mais valente, se eu tivesse sido um pouco mais persistente e corajoso, insistido no nosso amor, no nosso sonho, hoje não estaríamos passando por um capítulo tão amargo, você não precisaria provar da mais devastadora dor que uma mulher pode suportar, estaria tranquila e em paz como merece... — precisou dizer, demonstrar mais uma vez o quanto a amava e o quanto almejava fazê-la a mais realizada das mulheres.
— Eu sei... Eu sei o quanto me ama, o quanto deseja pelo meu bem, o quanto preza pela minha felicidade, mas nada disso é sua culpa, nada disso poderia ser evitado, é injusto que se condene... — sorrindo ligeiramente, confrontando o desânimo para ofertar ao amado o sorriso que ele sempre adorava contemplar, Laís afastou-se um pouco, ergueu os olhos de encontro ao eterno namorado, levou as mãos frágeis ao rosto macio, disse as palavras que moravam em sua apaixonada alma —. Sempre foi corajoso, tantas vezes sugeriu que fugíssemos, que fôssemos para longe, mas também sempre soube que era arriscado, perigoso. Meu pai era um homem poderoso, Frederico de igual forma, estaríamos cercados até mesmo onde imaginássemos ser os únicos moradores, seríamos descobertos e a dor assumiria uma forma insuportável que jamais cicatrizaria... Saber que apesar de tudo sou amada e tenho com quem contar, compensa todo o sofrimento, todo o sangue, toda a lástima...
Serena em seu gesto, Laís buscou pelos lábios de Heitor, procurou pelo beijo que confortava seu coração, que lhe ofertava o sabor do amor, o calor da paixão e o alívio dos sublimes afetos. Dali em diante teria condições de prosseguir, de avançar, mas com uma certeza ainda maior: estava farta da arrogância de um sujeito cruel, exausta de temer ao que ele poderia fazer e em nome desse cansaço traçava o mais ambicioso objetivo, combateria, entraria na batalha a fim de se ver livre para desfrutar do que sempre almejou, do amor antigo que nunca acabava.

¤

As estrelas reinavam sobre o céu escuro e a lua imperava com sua majestosa grandeza quando os escravos retornavam à senzala, cada um ao seu canto, buscando pelo descanso de um dia pesado, descanso para que antes mesmo do sol nascer tudo recomeçasse.
No entanto, aquela visão costumeira dos oprimidos voltando cabisbaixos aos seus lugares, mais uma vez incomodou o rebelde coração de Artur, até quando viveriam daquela maneira? Até quando precisariam se conformar com uma vida de constante servidão? O que mais estava lhe incomodando era o estranho silêncio da mãe e seu semblante de derrota.
— Sentindo a falta de Felipe? — colocando-se ao seu lado na esteira disposta sobre o solo, o jovem rapaz procurou por respostas.
— Não ter a certeza de como um filho está é angustiante demais para uma mãe, preferiria eu estar perdida por aí, não alguém que gerei...
— Precisa se acalmar e alimentar esperanças, algo me diz que meu irmão está seguro, protegido, até que provem o contrário é nisso que buscarei confiar para que os dias não se tornem ainda mais insuportáveis...
— Se eles ficarem ainda mais dolorosos não sei se suportarei, não aguento mais tanta injustiça sem explicação, não aguento mais ser condenada pelas minhas origens, é frustrante... — a pobre escrava, dolorida pelas muitas humilhações sofridas, começava se render ao desânimo, à falta de crença em dias melhores.
Artur nunca conseguiu amar pela metade, nem se esquivou de provar do fel daqueles que estimava, com a mãe, a mulher que mais respeitava e admirava, jamais seria diferente. Vê-la daquela maneira, decepcionada, amargurada, querendo desistir de tudo, fomentou sua raiva e seu desejo perigoso de transformar a realidade.
— Ouçam-me! — pôs-se em pé no meio da senzala, atraiu os olhares cansados e curiosos para si, conseguiu a preciosa atenção de todos —. Sei que já tentamos e falhamos, sei que não alcançamos êxito quando nos dispusemos a lutar contra essa indigna realidade e a fim de alcançar nossa liberdade. Mas as falhas não querem dizer que é o fim, que não nos resta nenhuma outra tentativa, elas apenas indicam que não fomos felizes em nossos passos, que precisamos redefini-los, a cada nova tentativa alcançamos maior força! Por isso convoco-os a levantarem suas cabeças, erguerem os seus olhos e combaterem em nome dos próprios sonhos, dos próprios desejos. Se não lutarmos pelo que almejamos, ninguém o fará!
Foi aplaudido.
Concordaram com seu discurso.
Compartilhavam da mesma insatisfação.
— Mas dessa vez nos prepararemos para a guerra! — alçou a voz —. Eles possuem armas, artefatos pesados, mas nós possuímos a força de nossos ancestrais e a arte de luta dos nossos pais! Eles se esconderão atrás de escudos, nós os atacaremos com a força do nosso braço e a garra de nossos espíritos!
A senzala se alvoroçou.
Soava a liberdade.


Continua...


##
No próximo capítulo:

— Não ache que sou um homem cruel, se aceitei essa proposta foi pensando no seu futuro, procurando valorizar seu talento para os negócios, a inteligência que possui, estar próximo ao barão é a garantia de ascensão!
— E acha justo usar as pessoas dessa forma? Acha justo mexer em seus sentimentos por uma razão tão simplória? É melhor ser miserável, mas feliz, do que ser o mais poderoso dos homens, mas submerso em lastimável melancolia!

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