[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 45 - Sujeito Cortês


Capítulo 45 – Sujeito Cortês

Anoitecia quando os olhos surpresos e curiosos dos escravos acompanhavam as dezenas de carruagens que estacionavam nos termos do barão, aguardavam os bem arrumados passageiros descerem e seguiam para o espaço reservado. Eram pessoas de fina presença, marcante elegância, que davam as mãos aos seus cônjuges, chamavam a atenção das enérgicas crianças para que se comportassem ou simplesmente eram acompanhadas por amigos.
Dirigiam-se à casa grande, onde Frederico, com toda a sutileza e satisfação de um anfitrião, recebia seus convidados com apertos de mãos, tapinhas nas costas, abraços nunca vistos e piadinhas internas. Parecia outra pessoa. Tramava. Seu humor agradável levantava suspeitas nos mais atentos observadores.
A casa se encheu.
Conversa por todos os cantos.
Música para embalar a noite.
— É uma pena que não tenha conseguido aquele ordinário, faltou ele aqui para que alcançasse a perfeição, mas não podemos ter tudo o que queremos, nem os mais poderosos homens, não concorda? — um dos parceiros econômicos de Frederico, um sujeito careca que insistia no semblante malicioso, já embriagado pelos incontáveis goles de vinho, cedeu ao abalo da sobriedade, fez a provocação.
— Não posso acreditar no que tenho ouvido — o barão tomou das mãos do amigo a taça cheia, aproveitou o escravo que passava e repousou sobre a bandeja o cálice, encarou o indivíduo frustrado —. Está mesmo cobiçando um negro? Conheço suas preferências, mas não imaginava que pudesse vê-los como talentosos, responsáveis por embelezarem nossas noites, precisa se afastar da bebida.
— Não me entenda mal — as palavras soavam arrastadas, resultado do esforço que o sujeito fazia a fim de conciliar os pensamentos com a verbalização —. Vá me dizer que não o considerou bom? Mas que valentia a do seu proprietário, recusar à oferta do mais rico fazendeiro da região! — mostrava-se indignado —. Sua negociação, pela primeira vez, foi um fracasso! — não escondeu o ar sarcástico, se tivesse total domínio sobre a mente nunca agiria assim, os efeitos da bebida libertavam as palavras que de fato sempre quis declarar.
— Sim, meu caro, eu fracassei — o barão apalpou o ombro de seu ouvinte, começou a andar com ele pela luxuosa construção, dava-lhe atenção por ter interesses altivos —. Mas não sou de me entregar às preocupações, antes procuro pelas novas oportunidades a fim de esquecer as antigas.
— Isso é verdade! — exclamou aplaudindo —. Sua persistência é exemplar, nunca desiste do que traça!
— Não, não desisto, e isso me faz lembrar de algo que está queimando em suas mãos, mas que pode aliviá-lo do fardo — já no exterior da casa grande, distantes do agito da festa, os homens pararam de caminhar.
— Está brincando — riu divertido —. Há muitas coisas queimando em minhas mãos — suspirou como se a vida não passasse de sucessivas dificuldades.
— Uma delas é a dívida que possui comigo, uma dívida que negociamos inúmeras vezes, que esgotou minha paciência e que me deixou apenas uma opção para que seja livre dela — encarou o apreensivo indivíduo com olhos severos enquanto tirava do paletó um papel dobrado —. Passe para mim todas as suas propriedades. Nesse contrato asseguro que não ficará desamparado, terá o suficiente para viver. Está a um passo do refrigério. Apenas assine.
Gargalhando, visivelmente descontrolado, o sujeito não aceitou de imediato a proposta, chamou o barão de mentiroso, lançou em sua face que ele era um grande trapaceiro, e se aquele contrato não passasse de armadilha? Frederico, por sua vez, procurando paz onde já não existia, destrancou o quartinho que atrás deles existia, revelou com o auxílio do luar o escravo amarrado em uma cadeira com a boca amordaçada.
— Se assinar esse acordo ainda terá uma bonificação, como disse anteriormente, sei quais são as suas preferências — ignorou as acusações, no momento importava-se mais em aumentar o seu domínio do que defender a própria honra perante um homem que se destruía a cada dia, que rendia-se aos vícios de uma vida conturbada, que entregava-se à desgraça de seus fracassos.
Entrando no cômodo de pouco espaço, exalando o cheiro de bebida que arrastava consigo, o perverso tocou a face do jovem escravo, adolescente ainda, condenado ao sofrimento que tantos passaram naquele mesmo lugar, dado à humilhação que muitos precisaram suportar.
— Vale o sacrifício — disse —. Onde assino?
Repousando o contrato sobre a pequena mesa, Frederico ofereceu a pena ao sujeito que, seduzido pelos seus carnais e insanos desejos, não hesitou em uma simples assinatura transferir seus bens ao homem que se enriquecia a cada amanhecer.
— Fez um ótimo negócio — o barão sorriu vitorioso.
— Mantemos segredo? — dirigiu o olhar ao escravo assustado.
— Conhecer seus interesses ocultos têm me rendido altos valores — saiu do cômodo —. É claro que mantemos segredo.
Fechou a porta.
Deu às costas ao lugar onde a perversão dos tiranos fazia horrores.

¤

Para a noite especial, como não poderia ser diferente, Pedro e seu pai eram os convidados de honra, os mais importantes, a razão para que a casa estivesse cheia dos mais íntimos ao barão de São Pedro.
Construída a amizade, o diálogo entre Ana e o marido arranjado fluía melhor, conseguiam fingir obediência às ordens impostas, fingiam conformismo frente ao que a sociedade julgava como imutável, mas no baixo tom das palavras disfarçadas por sorrisos a revolução era pensada, nutrida e planejada.
— Não pensei que pudesse ser tão sortudo dessa forma, imaginei que teria uma vida de lástimas, mas a sua força e os seus intentos me encheram de esperança, ainda posso acreditar que não serei acorrentado por decisões alheias à minha vontade — Pedro, acompanhando a que todos acreditavam ser sua futura esposa, mostrando-se bem disposto, revelou a crença que retornava.
— É cômodo demais se conformar, muitos optaram por essa passividade e vivem vidas infelizes. Olhe ao redor. Veja os casais. Trocam olhares sutis? Dirigem-se um ao outro com carinho? A maioria chegou, afastou-se de seus pares, buscou refúgio em seus amigos, nas conversas paralelas, por alguns instantes se esquecem da dureza que carregam nas costas por terem se conformado, mas tão logo essa noite chegue ao fim e os casais precisem se encarar, os semblantes cairão e o fardo ressurgirá. Poucos tiveram a sorte de amar — encarou o admirado ouvinte —. Acha que eu não lutaria pela única sorte que podemos garantir com nossas próprias mãos?
— Não apenas lutaria como tem lutado e encorajado outros a lutar... Mas fico me perguntando como nos esquivaremos disso tudo, não consigo imaginar nenhum caminho.
— Mas ele existe. Há pessoas que pensam como nós, que repudiam a servidão, que desprezam a falta de liberdade. Essas pessoas serão nosso auxílio, ajudar-nos-ão nessa batalha, não estamos sozinhos.
— E por quem seria que está convicta a lutar dessa maneira?
— Pelo mais especial dos seres humanos — com discrição levou os olhos ao escravo bem vestido, aprumado para a noite na qual trabalharia na casa grande sob a recomendação de evitar ao máximo se aproximar de Ana —. Ele é o meu amor!
Pedro se atentou ao sujeito que abrilhantava o ser de Ana, dirigiu a ele um tímido cumprimento, Artur retribuiu com cautela, encarou os olhos da namorada, abriu o singelo sorriso.
Mas ao grito de Frederico os olhares se dissiparam.
Voltaram-se ao barão que exigiu a atenção de todos.
— Caros amigos, a festa ainda não acabou, mas para quê fique ainda melhor farei uma revelação, a que me enche de orgulho e prazer por compartilhá-la com pessoas queridas para mim — também tinha bebido, estava um pouco mais cortês —. Hoje está acontecendo o noivado entre Pedro e minha filha — surpreendeu —, o casamento se aproxima! — mas cortesia não é o mesmo que compreensão ou humildade.
Os corações se agitaram.
Ana, Artur, Pedro e Laís.
Os olhares se cruzaram.
Apavorados.


Continua...


##
No próximo capítulo:

— Não, não sou uma lenda, muito menos desculpa de gente incompetente, sou a esperança de seres humanos humilhados por vermes como você! — aproximou-se do homem que cambaleava, desferiu-lhe um golpe contra a face —. Sou a resistência frente à perversão que miseráveis feito você exercem! — outro golpe, na barriga —. Sou o pesadelo de medíocres vagabundos que se inspiram nos seus gestos, seu desgraçado! — mais outro golpe, quebrou-lhe o nariz, derrubou-o no chão, ensanguentado —. Se soubesse como desejo a morte de demônios como você — levantou Frederico pelo colarinho, encarou-o nos olhos —, desistiria hoje mesmo de toda a sua malignidade! — cerrou os punhos, mas interrompeu a agressão ao ouvir gente se aproximando.

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