[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 33 - Desperta o Ódio
Capítulo 33 – Desperta o Ódio
O
ódio, extremo oposto do amor, é um sentimento tão devastador quanto aquele que
aquece corações e semeia a esperança, mas ao contrário do sutil, esse ardente
sentimento esfria as almas e planta a inimizade, atrai fúrias tenebrosas, firma
adversidades calorosas, intensas e fatais.
Se
o amor cura, o ódio adoece.
Se
o amor cicatriza, o ódio expõe a ferida.
Quem
é mais forte? Depende da escolha de cada um.
Os
homens se encaravam como se há anos travassem uma exaustiva batalha, como se há
anos compactuassem um pelo outro o ódio que naquele momento impregnava em seus
corações. O ódio de Heitor se dava pelo sofrimento oferecido à mulher que não
deixava seus mais afetuosos desejos. O ódio de Frederico se dava pela crença de
que junto ao sujeito que o encarava, Laís tivesse se entregado à torpeza de sua
carne.
O
ódio estava adormecido.
Bastava
um encontro como aquele para que, enfim, despertasse.
—
Não é porque leva o título de barão que tenha o direito de invadir a
propriedade dos outros no meio da madrugada — o comerciante irrompeu o silêncio
—. Aposto que não veria com bons olhos se fosse o contrário — se a intenção
fosse intimidá-lo, Heitor se mostrou bastante valente diante o potencial
inimigo.
—
Se fosse o contrário você nem teria tempo para dirigir a menor das palavras a
mim, deve conhecer minha fama, deveria acreditar nela — o barão de São Pedro,
sempre montado na constante prepotência, acompanhado por homens que exibiam
semblantes tão obscuros quanto ao do líder que fielmente seguiam, não desviou
os olhos severos daquele que tinha por rival, o tom de voz denunciava a
seriedade de sua fala, a gravidade de sua estadia naquela casa.
—
Não, senhor barão, não sou tolo para dar ouvidos a mitos e lendas como a
maioria das pessoas que são alienadas pelo medo, pelo pavor, por receios
emocionais — falou com desdém, ironizando o aviso do tão temido indivíduo —.
Agora, se me der licença, como vejo que essa conversa não chegará a lugar algum
como nem você aqui deveria estar, voltarei a dormir, tenho que garantir meu
sustento com os meus próprios braços! — era uma crítica indireta ao
escravocrata.
—
Quem pensa que é para me dar às costas? — Frederico, percebendo o quão
desprezado era, puxou Heitor pelo braço, voltou a encará-lo, dessa vez com
fúria maior —. Não deveria agir como um idiota, sei que não tem nada de
imbecil, use a sensatez ao menos uma vez e ouça o que tenho a dizer.
—
É bom que seja mesmo importante — embrutecido, o comerciante se livrou das mãos
do opositor, do sujeito que odiava inteiramente —. Não tenho tempo a perder com
bobagens!
—
É isso o que pensa de mim? Que minhas falas são verdadeiras bobagens?
—
Não consigo encontrar outra definição para os discursos intolerantes que
professa, para as ordens insanas que distribui, para essa presença desprezível
que muitos veneram, mas que eu não suporto! — deixou-se levar pelos desafetos
exacerbados que cultivava pela figura violenta, esqueceu-se de que estava
perante um sujeito imprevisível, que tinha razão para confrontá-lo,
persegui-lo, almejar por sua destruição.
Um
soco.
Contra
o rosto do rebelde.
—
Imprestável! — o barão esbravejou dirigindo o olhar raivoso ao homem que perdeu
o equilíbrio e buscou apoio na cadeira que o poupou da queda —. Como se já não
bastasse bancar o imbatível, o garanhão, ainda tem a capacidade de me afrontar
dessa forma suicida? Se conseguisse mensurar o tamanho do desprezo que tenho
pela sua existência pensaria mil vezes antes de se colocar no meu caminho,
saberia que a morte é o único destino!
—
Sou eu o insano? — levando os dedos aos lábios, recolhendo o sangue que verteu
pelo corte profundo, Heitor se firmou sobre os pés, não se deixou abater,
confrontou —. Nem nos conhecemos, nunca nos trombamos e é assim que invade a
minha casa? Agindo como um histérico?! — provocou.
—
Afirmo categoricamente que desejará nunca ter cruzado o meu trajeto, mas como o
fez, terá que pisar sobre pedregulhos robustos e espinhos afiados! Eu sei de
tudo, sei que minha esposa não passa de uma vagabunda e sei que você a leva
para o leito do pecado! — revelou a certeza que tinha, o motivo que o levara
àquele estarrecedor encontro entre dois homens ligados por uma mesma mulher,
mas enquanto um lhe oferecia horas de tormenta, o outro lhe garantia instantes
irrecusáveis de um suave prazer.
—
Com que autoridade faz essa acusação?
—
Não é mais tempo de se esquivar, de negar, de almejar pela fuga, deveria ter
pensado nessas inteligentes possibilidades antes de se flagrado pelos olhos que
tenho espalhados nesse lugar, olhos que tudo enxergam, que nada perdem!
Era
inútil negar.
Heitor
se rendeu.
—
Mas não se preocupe, caro companheiro, não darei razão para que me chame de um
tirano sem misericórdia, não o ferirei apesar de considerá-lo digno da mais
bruta morte, concederei uma chance, uma preciosa oportunidade para que salve
não a sua, mas a vida de quem pode pagar caro em seu lugar!
O
comerciante não compreendeu o enigma, ao menos não queria entendê-lo, não
queria dar razão aos pensamentos preocupados que o atingiram perante tão
incômodo diálogo, tão indesejável descoberta.
—
Acha mesmo que toda a minha violência seria dirigida a você? — percebeu o
semblante confuso, desapontado —. Laís é uma mulher sensível, sonhadora, cheia
de sutilezas e romantismo, não se entregaria a alguém voluntariamente se não
existisse amor da sua parte, não se arriscaria tanto se não amasse. É o que
digo e repito, o maior conselho que posso dar, o amor não serve para outro fim
se não o de entorpecer mentes antes sóbrias — aproximou-se do oponente, relaxou
a mão pesada em seu ombro —. Algo me diz que você também a ama, adoraria
acordar todas as manhãs tocando seus lábios, contemplando o seu sorriso,
acariciando seu corpo, porém, como nunca pôde, contentou-se em ser um amante
enlouquecido, permitiu-se a uma vulnerabilidade perigosa, o que seria isso se
não paixão? Se não um amor avassalador como gostam de dizer os poetas? — sorriu
maliciosamente —. Agora imagine ver quem ama agonizar até a morte sem ter a
chance de livrá-lo da nefasta morte. Imagine ser o responsável pelo amargo fim
de quem deveria proteger em nome de um amor inútil e falido. É o que
acontecerá! — afastou-se contemplando com satisfação os olhos espantados —.
Afaste-se de Laís, dê um jeito para fazê-la acreditar que viveram uma mentira,
mostre a ela que o sentimento acabou, ou melhor, que nunca existiu! — não
permitiu que Heitor protestasse —. Obedeça-me e, assim, assegure vida longa ao
seu objeto de prazer, desobedeça-me e seja o responsável pelos gritos
desesperados de dores que levarão à morte alguém que não hesitarei em sufocar
com minhas próprias mãos!
Frederico
partiu.
Ficou
o pavor.
Angustiado,
tão logo o poderoso e maligno inimigo deixara sua casa, Heitor trancou portas e
janelas, isolou-se em seu quarto, onde derramou o choro apavorado. Nunca
acreditou que pudessem ser descobertos mesmo com toda a cautela que tomavam.
Nunca ousou pensar que de fato pagariam um alto preço pelo amor perigoso e
invencível que se dispunham a viver em segredo. Nunca se permitiu ao
indesejável pensamento de que chegaria o dia no qual precisaria se afastar de
Laís, fazê-la esquecê-lo, superá-lo, desistir daquela agradável loucura. O ódio
o feria, mas o amor, naquele momento de desespero, o sufocava impiedosamente.
Como viver sem tê-lo no peito? Como prosseguir sem a sua companhia? Qual razão
teria para viver se não tivesse entre os dedos o mais precioso dos tesouros?
Mas não haveria solução diferente. Era melhor das às costas ao amor e manter
viva quem amava do que insistir no fatal sentimento e ter Laís apenas na
memória.
##
No próximo capítulo:
— Não precisa agradecer, o que
fazemos a você é o mais natural dos gestos humanos: ajudar — mais uma vez
tocado pelo discurso que possuía respingos de uma servidão ingrata, Victor
abraçou amistosamente aquele que admirava pela força e pela história.
De segunda a sexta, aqui no blog!
Livros
gratuitos:
Encontre
o blog pelas redes sociais:
Obrigado
pela companhia, um forte abraço e até logo!

Comentários
Enviar um comentário
Não deixe de expressar sua opinião, ela é muito importante!