[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 36 - Insistência


Capítulo 36 – Insistência

As famílias ricas de São Pedro, pessoas poderosas e proprietárias de invejáveis valores, receberam o convite para a noite de gala que aconteceria em poucos dias, uma noite que para muitos poderia representar um marco, uma reviravolta, o impacto da novidade. Desconhecidos poderiam construir amizades, negócios poderiam ser feitos e, como não poderia deixar de ser, a comercialização de seres humanos aconteceria descaradamente, por isso a presença de escravos muito bem treinados à arte musical, seriam capazes de render grandes lucros aos seus avarentos senhores.
As famílias se animavam.
Entusiasmavam-se.
Quando os poderosos se reuniam a história mudava.

— Vejam só! — durante o jantar, deliciando-se com a fartura aos seus olhos exposta, Frederico exclamou —. Teremos uma noite para confraternizações e diversão — lia o convite recebido —. Será uma ótima oportunidade para que possamos formalizar o noivado de Ana!
Aquele maldito evento irritava a moça de coração rebelde, sabia como se davam as festas que participava, era um verdadeiro espetáculo de exibicionismos, pessoas já ricas preocupando-se em se enriquecerem ainda mais, em alimentarem a própria vaidade, em inflar o próprio erro a partir de contratos grandiosos e aquisições egoístas.
— Vamos mesmo insistir nesse casamento? — a jovem mulher interrompeu a refeição, levou o olhar rígido ao surpreso pai —. Cansei de dizer que essa não é a minha vontade, está longe de ser o meu desejo, sou tão incompreensível assim?
— Sua teimosia é irritante! — o barão disse com voz grave —. Acha mesmo que pode mudar minha decisão com seus protestos descabidos? Acredita de verdade que a sua opinião importa em alguma coisa? Não seja ingênua se julga ter o poder de mudar meu pensamento, já está decidido, poupe-se de raivas inúteis e de discussões que não chegarão a lugar algum, aceite de uma vez!
— Depois não reclame quando ouvir por aí que tem uma filha divorciada, uma filha topetuda que desprezou a sua ordem como se faz com piadas! — achou que ameaçando conseguiria alguma voz, mas agiu completamente equivocada.
— Isso é uma ameaça?! — o homem impiedoso golpeou a mesa, os talheres saltaram, soaram seu ruído —. Antes que jogue o meu nome aos porcos eu tiro a sua vida! — aquela sim era uma ameaça perigosa, certeira, algo que inquestionavelmente poderia acontecer.
— Frederico... — Laís, até então calada, compartilhando das angústias da pobre filha, levou a mão ao braço do marido em vã tentativa de acalmá-lo.
— Chega! — o sujeito descontrolado se levantou rispidamente, os escravos que a tudo assistiam se assustaram, conheciam bem até onde chegavam os limites daquele homem, eles eram assombrosamente profundos —. Estou farto de ser desrespeitado dentro da minha própria casa! — esbravejou —. Esse assunto se encerra aqui, não quero ouvir nem mais uma reclamação, nem a menor oposição, esse casamento acontecerá queiram ou não, gostem ou não, é o que eu quero!
Assustada pela raiva que tomava o barão, Ana se recolheu à mudez, mas não significava que rendera-se ao conformismo, que aceitara o que parecia imutável, permaneceria na luta, uma sorrateira, discreta e silenciosa luta.

¤

Inscrito ao concerto com seu suposto escravo, Victor teve o direito a convidar duas pessoas, em sua mente não poderiam ter surgido companhias que não fossem as adoráveis vizinhas que, além de toda a boa ajuda concedida, ofertavam também uma agradável amizade.
O que o nobre cavalheiro não sabia era que convencer Rute a uma exposição em público não seria tarefa simples, mas ele não se dava por derrotado tão facilmente, acostumado a batalhar insistiu em seu desejo.
— Você não entendeu, apesar de esse papel ser um convite, a minha fala não é menos que uma convocação! — na casa da mascarada mulher, sendo sua companhia na bem ornamentada sala de estar, Victor encarava-a desejoso por ter seu pedido atendido —. Foi muito importante para que Felipe participasse desse evento, sua presença é fundamental, precisa estar conosco!
— Sei o quanto são honrados e gentis, já percebi o quanto são sinceros na amizade que nos oferecem, mas não precisa me convidar tão assiduamente por gratidão, vê-los contentes e animados por essa noite tão importante já é altamente gratificante! — Rute, também dominada por persistência, teimou em sua decisão, dificilmente mudaria de ideia, não se sentia preparada para encarar os olhos do mundo.
— E se eu disser que não é por gratidão? — o homem galanteador, sentindo afetos diferentes por aquela que se mostrava tão irredutível, assumiu como maior objetivo vencer a discussão.
— Por qual outro motivo seria? — a mulher descrente, esquivando-se dos perigosos pensamentos que invadiam sua mente também se propôs a não ceder às tentadoras investidas.
— Por admiração? Por companheirismo? Por que gostei de conhecê-la e adoraria passar mais tempo ao seu lado? — não se desconectava dos olhos castanhos que refletiam o brilho dos lampiões, olhos que ao conhecê-los eram sombrios, mas que agora recebiam de volta o brilho que tinham —. Todas essas razões são verdadeiras e você pode escolher a que melhor agradá-la, ao menos me dê o prazer de sua querida companhia! — seu coração o incentivava ao incansável clamor, começava a se apaixonar.
— Eu não posso, caro Victor, eu não posso... — abaixou os olhos, se não parasse de encarar a figura atraente corria o risco de se permitir ao que temia, percebia que seu ser era tomado pelas mesmas sensações de tempos atrás, de quando apaixonou-se pelo sujeito errado —. Sara terá toda a liberdade, representará a mim como sempre tem feito...
— Mas eu não quero sua representante, estimo sua pessoal presença! — desesperado por ouvir um singelo e doce “sim”, Victor tocou o queixo da mulher receosa, ergueu seu semblante, tornou a encarar o olhar que o encantava —. Se me der um bom motivo prometo não insistir.
— Sou uma aberração, alguém que afasta os outros de perto, alguém condenado à solidão — levou as mãos ao próprio rosto, onde estava a máscara que escondia as cicatrizes de um passado injusto —. Teria um motivo irrecusável para me fazer acreditar que sair de onde estou segura e protegida é uma ideia sensata?
— Ao contrário do que pensa, você é bela... — Victor, cheio de sentimentos por Rute, acolheu suas mãos, aproximou-se levemente daquela que começou a despertar um interesse diferente, algo mais íntimo, que só o coração conhece —. Sim, muitas pessoas lá estarão, mas o que isso importa? Talvez elas te julguem, isso não é um problema seu, talvez elas nem percebam sua presença e aí você verá o quanto foi inútil se esconder todos esses anos, mas o principal, o que não é um talvez, é a certeza de que estarei ao seu lado, serei seu companheiro, não permitirei que seja machucada, não mais, não a partir do momento que aceitar o que tenho a oferecer.
O toque singelo entre as mãos fez Rute se sentir acolhida, aceita, compreendida apesar de todos os medos, de todas as desculpas, de todos os receios que a impediam de andar, de tudo aquilo que usava para se esconder do mundo. Mas recolheu as próprias mãos, interrompeu a agradável sensação proporcionada pelo toque, não queria sofrer outra vez o que um dia a destruiu.
— Você é insistente — lançou o tímido e alegre sorriso, gesto que há muito não fazia, não tinha razões para fazê-lo —. Tudo bem, serei sua companhia mesmo acreditando que seja loucura, mesmo tendo a convicção de que deverei estar preparada para qualquer adversidade!

— Fará a mim o mais feliz dos homens! — beijou as delicadas mãos em um gesto cordial —. Ainda que algum inconveniente aconteça não se esqueça de que haverá alguém que a admira bem ao seu lado! — firmou a promessa.


##
No próximo capítulo:

— Cada um tem uma maneira de sentir o amor, de experimentá-lo, sempre sabemos quando estamos nos apaixonando porque os sentimentos são intensos e profundos, percebemos que não se resumem ao que compactuamos por um amigo, vão além disso, despertam em nós a vontade de sempre ouvir aquela voz, encarar aqueles olhos e sentir aqueles toques... — também ansiava pelo próximo encontro que teria com Victor, agradara-se de ouvir sua voz, contemplar os seus olhos, possuía discreto desejo de tocá-lo, o que era aquilo se não o retorno da paixão? — Felipe é um moço galanteador, não concorda? — usando da experiência que tinha, causou o desconcerto de Sara.

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