[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 35 - Árdua História
Capítulo
35 – Árdua História
Anos antes...
Foi quando a
vida parecia incrível e sonhar era a certeza de que o futuro aconteceria, que a
página virou, o capítulo mudou e o que parecia incrível se tornou infernal, o
que era a certeza se desfez em dúvidas cujas respostas pareciam inexistentes.
Foi quando o sorriso era constante que o estrondo o silenciou, o grito apavorou
e a guerra dizimou a muitos.
Foi quando
Adelaide tinha dezessete anos que seu pesadelo começou.
Estava em casa,
com sua tribo, protegida por aqueles que compartilhavam do seu sangue, da sua
língua, dos seus costumes e de sua cultura, quando os pássaros se dispersaram
apavorados das copas de volumes árvores ao som de disparos seguidos e
impiedosos. Os homens negros se colocaram em posição de batalha, acreditavam
que enfrentariam o invasão de tribo inimiga, mas portadores de armas leves
tiveram que levar as mãos aos céus em um gesto de rendição, homens brancos se
apresentavam portando armamentos poderosos e imbatíveis.
Como se não
tivessem nenhum valor, como se não tivessem liberdade alguma, tendo arrancado
de suas mãos o direito de escolha, homens e mulheres, algemados, amarrados uns
nos outros e encaminhados pela mata até o destino que nada mais era do que o
início de grande infortúnio. Aqueles que reagiam eram violentamente domados,
outros, amedrontados com o que viam, silenciavam-se passivamente. Ali começava
a servidão, uma injustificável escravidão.
— Corra! — a mãe
de Adelaide, colocando sobre o pescoço da filha o colar que deveria lhe passar
no seu casamento, ordenou que a adolescente fugisse pela mata, adentrasse a
floresta que tão bem conhecia, que cegamente dominava —. Precisa se proteger e
assegurar a continuidade dos nossos ancestrais! Vá!
Relutante, com
os olhos avermelhados pela angústia que em seu peito crescia, Adelaide não
moveu nem um passo, amava a mãe, a família, se aqueles que amava sofressem, ela
se ofereceria ao mesmo sacrifício.
— Não pode me
ordenar algo assim, não posso viver sem a sua presença, é de quem retiro forças
e admiração! — confessou os verdadeiros sentimentos que cultivava pela figura
materna.
— Continuarei em
sua vida em seu caminho, levar-me-á contigo dentro do seu coração, nas memórias
que carrega — a mulher insistiu —. Sei que é forte, sei o quanto é capaz de
vencer árduas batalhas, saberá enfrentar a saudade! Dê-me essa alegria, faça-me
orgulhosa, salve-se!
A fim de
contentar a quem amava, Adelaide decidiu obedecer, antes de partir abraçou a
mulher que lhe trouxera ao mundo, um abraço que despertou a imediata saudade,
um abraço que foi concedido como se fosse o derradeiro.
Apavorada pelo
cumprimento da profecia, a adolescente correu, colocou toda a força possível
sobre as pernas, subiu os montes cobertos por árvores e demais vegetações,
deles observou a tribo lá embaixo, viu a guerra instaurada, viu o horror chegar
para o seu povo. Lembrou-se de algo importante, lembrou-se de um alguém
especial: Joaquim. Estavam preparados para aquele dia de tormento, seus
antepassados anunciaram que a servidão chegaria e não pouparia dores, foram
instruídos para que fugissem, escondessem-se na mata e assegurassem a
permanência da tribo. Foram predestinados à união, concordaram com isso,
amavam-se.
Mas o rapaz não
estava no monte combinado.
Aquilo
representava preocupante realidade.
Angustiada,
confrontando o próprio cansaço, a adolescente tornou em sua corrida, avançou
por entre árvores e arbustos na esperança de encontrar pelo caminho o futuro
esposo.
Encontrou-o.
Acorrentado num
tronco.
— O que
aconteceu? — ignorando os perigos iminentes, esquecendo-se das muitas ameaças
que rondavam o lugar, Adelaide se chegou ao namorado, mas este apenas a
encarava com olhos assustados, a boca amarrada não permitia que as palavras
fossem expostas, que o grito soasse —. Não é possível que isso esteja
acontecendo! — tentou encontrar meios para libertar o jovem rapaz, mas parecia
impossível.
— Parada! — o
europeu, apontando a arma de fogo contra sua vítima em potencial, surgiu por
entre as árvores, já escurecia, Adelaide não fora capaz de previamente notar
sua presença —. Nem mais um passo! — falava em português, idioma confuso aos
africanos da região, mas pela frieza da voz e pelo instrumento ameaçador entre
os dedos, qualquer um compreenderia suas intenções.
Rapaz e moça
foram ligados por correntes.
Rapaz e moça
foram encaminhados ao tormento.
Homens e
mulheres, crianças e idosos, tratados com desprezo, forjados de dignidade, eram
aos montes amontoados em navios imensos, desconfortáveis, que cheiravam à
morte, que anunciavam o inferno. Tinham que tirar suas roupas, tinham que
aceitar a injusta e desumana acomodação, tinham que ser passivos e obedientes
se quisessem manter a única liberdade que possuíam: respirar.
Rapaz e moça,
distantes de seus pais, separados de seus familiares, sem nem ao menos terem
notícias de como estavam, tiveram a sorte de estarem um ao lado do outro,
cumprindo uma promessa antiga feita em nome do amor que compartilhavam, a
promessa de nunca se afastarem, jamais se separarem, estarem sempre juntos.
Em condições
deploráveis, em uma situação lastimável, a viagem durou meses infindáveis,
meses de choro, de lágrimas, de desespero. Meses nos quais mortes aconteceram e
corpos foram lançados ao mar sem qualquer digna cerimônia. Meses nos quais a
fome se apresentou, uma fome que ameaçava matar quem a sentisse, uma fome que
tirava dos sujeitos destinados a um futuro obscuro toda sua sobriedade e
motivava guerra pelas migalhas que eram lançadas. Meses de podridão. Meses sem
respirar ar puro, sentindo o cheiro putrefato dos dejetos humanos naquele
ambiente mesmo lançados. Meses de escuridão e sustos intermináveis. Meses de
pavor ao estrondar de tempestades altivas. Meses cruéis. Meses excruciantes.
Após meses de
tortura os navios encalharam nos portos, deles saíram milhares de negros
assustados, que sentiam os olhos arderem pelo retorno da luz, muitos dos quais
acabaram cegados, sem o direito de enxergarem o mundo. Olhavam ao redor,
pisavam em terra estranha, eram colocados num lugar que não o deles, eram
lançados em território indesejável.
Rapaz e moça, de
mãos dadas, oferecendo um ao outro a segurança de que precisavam,
angustiaram-se ao perceber que homens e mulheres eram separados, dirigidos a
lugares opostos, surpreendidos pela incerteza do reencontro.
Tiveram que
romper a ligação entre as mãos.
Tiveram que se
despedir através da fala do olhar.
Feita de mera
mercadoria, colocada para ser comercializada como um simples objeto, Adelaide
foi posicionada junto a outras negras para que ficasse exposta aos sórdidos
olhos de fazendeiros perversos interessados na compra. Não demorou para ser
escolhida pelo cliente que tinha preferência: foi comprada pelo antigo barão de
São Pedro, um homem terrível, pai de Frederico, tão maligno quanto o filho.
Separada de sua
família, tirada de suas origens como se não valesse nada, como se tivesse
nascido para servir, a adolescente chegou a seu novo lar, à sua nova realidade,
ao ambiente que lhe traria tormentos duradouros. Mas o semblante apavorado deu
lugar ao sorriso quando seus olhos cruzaram com os de Joaquim: estariam juntos
como um dia prometeram, como um dia sonharam.
— Essa é a história desse amuleto, a mais triste que
poderia contar — Adelaide, sentada junto ao filho sobre o toco seco no lado de
fora da senzala, contou um pouco sobre o passado, revelou a importância do
acessório que carregava no pescoço —. Ao menos cumpri o desejo de minha mãe,
tenho dois filhos, assegurei a continuidade da nossa tribo...
— Ouvir tudo isso traz revoltas ainda maiores, não
entendo como são tão frios, como conseguem usar de tanta perversidade, chego a
pensar que nunca se libertarão dessas mentes desprezíveis — Artur, atento a
cada vírgula, esbanjou a ira.
— Não se incomode por isso, já foi e eu consegui
sobreviver — repousou o colar sobre as mãos do filho —. Agora ele é seu —
encarou-o nos olhos —. O amor que há entre você e Ana é grandioso e poderoso,
não há outro fim que os aguarda se não a eterna união. Leve esse símbolo com
vocês, mostre-o aos seus filhos, aos seus netos, faça a história do seu povo
conhecida!
— É claro que farei, mas não acha cedo para me dar
isso?
— Gostaria que fosse cedo, gostaria de ter a certeza
de que os veria desfrutando da liberdade, mas essa é uma dúvida que tenho, é um
medo que não me deixa... É claro, procuro alimentar a fé, mas não poderia ser
imprudente e adiar o meu pedido, talvez falte tempo, o futuro sempre será um
emaranhado de surpresas...
##
No próximo capítulo:
— Por admiração?
Por companheirismo? Por que gostei de conhecê-la e adoraria passar mais tempo
ao seu lado? — não se desconectava dos olhos castanhos que refletiam o brilho
dos lampiões, olhos que ao conhecê-los eram sombrios, mas que agora recebiam de
volta o brilho que tinham —. Todas essas razões são verdadeiras e você pode
escolher a que melhor agradá-la, ao menos me dê o prazer de sua querida
companhia! — seu coração o incentivava ao incansável clamor, começava a se
apaixonar.
De segunda a sexta, aqui no blog!
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pela companhia, um forte abraço e até logo!

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