[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 43 - Símbolo de Resistência
Capítulo
43 – Símbolo de Resistência
Qual
o preço de um ser humano? Pergunta descabível. Pergunta indigesta. Pergunta que
teve sua resposta em períodos tão bárbaros e grotescos na história da
humanidade. Resposta miserável, dada por sujeitos arrogantes e soberbos que não
se preocupavam com a saúde de seus escravos por serem bondosos ou prestativos,
preocupavam-se com o dinheiro investido – um escravo morto representava
prejuízo no injusto mercado humano.
—
Como isso aconteceu?! — ao receber a notícia do falecimento de um dos negros,
Frederico levantou-se rispidamente atrás de sua mesa, exigiu explicações —. É
pago para que evite imprevistos como esse!
—
Não me culpe, não teria conseguido evitar — Sebastião se justificou —.
Encontrei-o estendido sobre o chão rodeado pelos escravos, perguntei quem o
ferira, disseram que se sentia cansado pela lida e que almejava voltar para
casa. Matou-se.
—
Quer dizer que esses desgraçados acreditam que a morte os levará de volta para
o buraco de onde saíram? — o barão riu desacreditado, tornou a se sentar,
julgou ter assuntos mais sérios a tratar —. Deixe que o enterrem, quem sabe dão
sossego...
—
O senhor não agirá com energia? — o capanga indagou —. Ele era o mais
experiente de todos!
—
Acha mesmo que estou preocupado com a vida de um negro velho? Mais cedo ou
tarde isso aconteceria, já não rendia o necessário para permanecer vivo, fez um
favor.
—
Não vejo como um favor, mas como gesto de resistência — Sebastião alarmou —.
Todos o respeitavam, dispunham-se a me confrontar por sua causa, agora choram
copiosamente sobre ele como se fosse um mártir, far-lhe-ão de personagem
heroico e começarão a imitar o seu gesto na esperança de voltarem para casa e
reencontrá-lo. Ainda acha que é um favor?
Envenenado
pelo astuto discurso, Frederico exigiu que trouxessem o corpo, teria que agir
se quisesse evitar perdas significativas, seus prisioneiros custaram dinheiro,
um dinheiro que precisava de reposição através da perniciosa labuta.
Titubeantes,
os escravos se reuniram em frente à casa grande, formavam um grande grupo,
entre eles era possível ouvir murmúrios, cochichos de preocupação sobre o que
estava para acontecer, sussurros que questionavam o que fizeram com o corpo do
falecido.
Na
sacada de sua esbelta construção, Frederico apareceu acompanhado por sua esposa
e pela filha, encarou os negros com seriedade, com ira, tinha certeza de que os
assustaria, de que ninguém jamais ousaria contra a própria vida.
—
Bando de ignorantes medíocres! — começou o discurso com forte agressão —.
Deveriam agradecer por terem tido a oportunidade de conhecerem o verdadeiro
mundo, de conviverem com pessoas de verdade que possuem a verdadeira cultura, o
que as fazem serem dignas de se chamarem seres humanos, mas, ao invés de
gratidão, preferem pela tolice, agem na sombra da ilusão. Querem retornar à
África? Seria mais inteligente que nadassem sobre o mar, não que tirassem a
própria vida esquecendo para trás os próprios membros — virou o caixote de
cinzas sobre os escravos, viu o pó ser dominado pela dança do vento —. Para
voltar para casa precisam do corpo inteiro — lançou uma piscadela ao capanga
posicionado ao seu lado, o gesto com a cabeça autorizou que Sebastião lançasse
no meio da multidão o crânio do velho tão amado —. Precisam, mais ainda, que a
cabeça esteja presa ao pescoço! — ignorou as lágrimas de assombro, de amargura
e ira —. Pensem bem nos atos que praticam! — esbravejou para que tivesse
clareza —. Das minhas mãos ninguém alcançará misericórdia! — finalizou.
A
revolta ganhou proporção nos corações daquelas que foram capazes de se
conectarem aos oprimidos e provarem do fel ao qual todos os dias eram
obrigados. Não conseguiram manter o silêncio. Não era possível manter a
neutralidade diante um ato tão ordinário.
—
O que foi aquilo? — dentro de casa, antes que o pai saísse da presença de sua
família e prosseguisse em seus negócios, Ana o confrontou destemidamente —.
Consegue definir o que foi esse comportamento nojento, diabólico e doentio?
Essa falta de respeito já foi longe demais, tornou-se insuportável apenas para
quem a assiste, fico imaginando o que representa para quem a vive!
—
O que essa negrada insolente sente ou deixa de sentir não é problema seu, não
venha defendê-los, não se compare a essa escória! — Frederico se aproximou da
jovem mulher, fuzilou-a pelo olhar penetrante.
—
Escória? Eles que construíram todo esse império, eles que possibilitam o seu
enriquecimento, e é capaz de chamá-los de escória? — Laís defrontou o
detestável marido —. Você! Você é o miserável! Você é o desgraçado! Desrespeita
até mesmo a morte dessa gente que lhe entrega o sangue, não passa de um monstro
desprezível! — estava descontrolada, não conseguia acreditar na feitura do
sujeito desalmado, não acreditava na ameaça que dirigia ao povo tiranizado.
—
Vagabunda dissimulada! — agrediu a face da esposa com força o bastante para
propulsá-la sobre o chão —. Como se não bastasse agir como uma prostituta
indecente traindo a mim ainda se coloca na posição de me enfrentar?! — a voz
potente chamou a atenção daqueles que trabalhavam na casa, daqueles que tinham
apreço pela amável mulher, daqueles que em suas preces pediram misericórdia à
baronesa —. Essa será a última vez que me desrespeita, garanto que pensará
infinitas vezes antes de me contestar! — embrutecido, levantou a baronesa do
chão, pouco se importou com suas lágrimas desesperadas, passou a arrastá-la com
violenta força.
—
Deixe-a em paz! — apavorada pelo que aconteceria à mãe, Ana agarrou o homem
cruel pelo braço, mas acabou arremessada contra a parede, sentiu a dor do
impacto.
—
Não se meta! — o barão dirigiu-se à moça —. Se não quiser ver essa ingrata no
tronco é bom que fique onde está, que não me importune, que siga o meu
conselho!
Ninguém
pôde conter o sujeito desgovernado.
Perceber
que perdiam o temor sobre sua autoridade o atemorizou.
Precisava
reassumir o medo que ofertava.
—
Para onde está me levando? — pranteando enquanto era forçada a descer as
escadas que eram engolidas pela escuridão, Laís implorou por esclarecimento, as
lágrimas não cessavam, a angústia era ardente.
—
Cala a boca! — Frederico não suportava mais ouvir os clamores desesperados da
esposa que a cada dia se rebelava mais, interrompeu os passos, forçou-a contra
a parede, bradou a plenos pulmões: — Não quero ouvir nem uma palavra! —
prosseguiu no ato covarde, agressivo, assustador.
O
barão abriu a porta de metal.
Lançou
a mulher apavorada para dentro do apertado compartimento.
Trancou
a passagem da solitária.
—
Já que se comove tanto por aqueles negros, veja se é capaz de suportar as
mesmas experiências, não hesitarei em lançá-la entre eles, aproveite esse tempo
para refletir!
Ignorou
as altivas súplicas por compaixão.
Trancafiou
a própria esposa na masmorra.
¤
Além
de fúnebre e sombrio, o clima na senzala era de revolta e desforra. Os negros,
cabisbaixos, elevavam pensamentos à alma do velho companheiro, suplicavam para
que seus deuses o recebessem de alguma forma. Vacilavam na própria crença.
Davam ouvidos às ameaças do opressor e enchiam-se de temor pelo que poderia
lhes acontecer após a própria morte.
Foi
durante o estrondoso silêncio que Artur se levantou.
Desprezou
o aviso do barão. Perpassou as lembranças do castigo.
Atraiu
a atenção de seus irmãos mais uma vez.
—
Foram longe demais, romperam os limites e desrespeitaram até mesmo o nosso
descanso. Acham que são donos da vida? Acham que podem nos controlar até mesmo
depois da morte? Não! — alçou a voz —. Talvez morramos, talvez percamos o
fôlego e deixemos de respirar, mas antes lutaremos, os aniquilaremos e faremos
com que temam os nossos nomes, a nossa história, mesmo após nossa partida! —
alvoroçou os companheiros ansiosos pela liberdade —. Lutar! É o que faremos!
Naquela
noite decidiram trazer a própria música, aprendida com os antepassados, para
dentro da senzala. Misturaram o ritmo dos tambores aos gestos de dança. A quem
visse era dança. A quem presenciasse era luta.
Misturaram
música com luta.
Os
treinos seriam camuflados.
Em
memória à morte do companheiro, trouxeram à vida a capoeira.
Símbolo
de resistência.
No próximo capítulo:
— Se não aguenta um simples
relato será capaz de aguentar a dor de ter um dente arrancado? Aguentaria ficar
presa por horas em um pau-de-arara? Suportaria a ardência de salientes vergões
que as chicotadas no tronco causariam às suas costas? — violento, virou o rosto
da mulher para si —. Responda-me!
— Não! — o pavor motivou o
pranto.
— Então aproveite essa
oportunidade, não queria se fazer de criança mimada, não costumo ser um pai tão
paciente — seu conselho era, na verdade, uma séria ameaça.
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