[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 39 - Olhares Cruzados


Capítulo 39 – Olhares Cruzados

Era mais que um simples sarau, muito além de singelas apresentações, era o espaço e o momento perfeitos para que artistas conquistassem alguma oportunidade e fazendeiros poderosos usassem o dom de seus subordinados a fim de lucrarem como nunca antes conseguido. No salão de formato circular que tinha os assentos confortáveis dispostos em círculo, pessoas de diferentes regiões e até mesmo nações enchiam o local, todas com algo em comum: tinham poder, tinham riquezas e tinham gananciosas ambições. O lugar estava cheio. Repleto. Silencioso.
O espetáculo teve início com o posicionamento do maestro conhecido diante sua orquestra, era um sujeito de baixa estatura, cabelos compridos e face robusta, seus gestos eram ágeis, a batuta era uma antiga aliada de seus dedos. Fez o movimento de preparação. Os músicos posicionados ao centro do salão se alinharam como os corpos celestes se alinham no romper do eclipse. A música teve início.

Ao lado de seu marido, um dos homens mais poderosos que ali se fazia presente, Laís não se sentia confortável no ambiente de exibicionismos e bajulações, seus olhos vagueavam pelo lugar enquanto a mente se distanciava da realidade, era guiada pelas tantas preocupações, era levada a altitudes desconhecidas.
Mas a consciência retornou.
Ao cruzar de olhares já conhecidos.
Heitor, um homem que procurava manter boa relação até mesmo com aqueles cujos atos repudiava, foi gentilmente convidado a participar do evento que de tempo em tempo movimentava a província de São Pedro, não pensou duas vezes, não perderia a oportunidade de contemplar a face de sua amada, de respirar o mesmo ar que ela, mesmo que tal ação fosse perigosa, pudesse ser tida por loucura.
A música de pouco lhe importava, seus olhos estavam cravados na meiga mulher distante de si no comprimento do diâmetro entre ele e ela.
Estavam frente a frente.
A distância não evitou que as almas se excitassem.
Dominada pela eterna saudade que sentia por aquele que demasiadamente amava, a baronesa não pôde evitar o tímido sorriso ao vislumbrar o amante, seu peito se aqueceu, o coração se agitou, como quis naquele intenso momento ter o poder de encurtar as distâncias e tocar o rosto de seu grande amor.
Desde que fora ameaçado por não saber controlar uma paixão infindável, o nobre cavalheiro tentava esquecer a mulher a qual se lançara sem receio algum, tentava expulsá-la de sua alma, porém, quanto mais tentava vencer os próprios afetos, mais sucumbido a eles ficava, perdia a batalha, o fascínio avultava.
Frederico, um homem astutamente observador, repousou a mão pesada sobre o joelho da esposa, pressionou a região expondo que de sua percepção nada escapava, levou os olhos severos à direção que enfeitiçara Laís, não foi capaz de descobrir quem ali estava, Heitor abaixou a cabeça, a aba do chapéu escondeu sua face.
— É ali — direcionou o rosto da mulher para o centro do salão —. É ali onde os músicos estão.
— Eu sei... — abaixou os olhos —. Ainda tenho plena visão.
— Se aprecia enxergar as paisagens à sua volta sugiro que se contente em ter olhos para o que determino, pode custar caro almejar outros horizontes, o preço de suas adoráveis íris!

Ao lado da mãe, fixando a atenção sobre os músicos que, atentos ao seu mestre, executavam cada nota das partituras que examinavam, Ana pensou em Artur, no dia que ao seu lado estaria diante o olhar de todo o mundo, no dia que a liberdade os abrasaria com força. Contudo, enquanto esse desejoso futuro não chegava, teria que se acalmar e se conformar com a presença de Pedro, o rapaz ao seu lado, alguém que, como ela, sentia-se sentenciado a um vindouro tormento.
Eram admirados por aqueles que os contemplavam.
Eram julgados como o casal perfeito pela sociedade estagnada em sua intolerante hipocrisia.
— Tocam perfeitamente bem... — o escritor por prazer, conformado pelo destino, tentou um diálogo, procuraria ao menos criar uma amizade, talvez os dias fossem mais suportáveis, com maior otimismo até mesmo o amor poderia nascer.
— Realizam um sonho, por isso todo o prazer exposto... — a donzela, acorrentada sentimentalmente a um rapaz que lhe despertava tantas inspirações, permitir-se-ia à conversa, quem sabe conseguisse mudar uma mente apavorada —. O prazer da realização... Será que um algum dia concretizaremos nossos verdadeiros sonhos?
Pedro, que também desejava por reviravoltas, retornou ao silêncio, não poderia ser conquistado por discursos rebeldes, não poderia ser incentivado por palavras de guerra, tinha pessoas a proteger, gente que já sofria, que poderia sofrer dores piores.
— Sabe quem eu amo? — Ana reconheceu tal mudez, era a quietude do medo, a angústia do desafiar, o receio de guerrear e fracassar, ao seu lado estava um aliado em potencial, guerrilheiro importante, só precisava despertar a coragem naquele espírito. Encarou o semblante surpreso. Revelaria seu segredo —. Um escravo — em voz baixa, apenas para que entre eles a conversa fosse compreendida, a confissão aconteceu —. Sim, um escravo, ele é o amor da minha vida, por quem lutarei enquanto houver tempo!
O rapaz surpreso encarou os próprios dedos por alguns segundos, procurou pelas palavras certas, procurou forças para se abrir, mas faltou a valentia.
— Você não precisa aceitar o que pessoas arrogantes determinam, não precisa aceitar uma vida que não lhe pertence, ao contrário, tem todo o direito de ser quem verdadeiramente é, só precisa acreditar nesse poder — querendo convencer, disposta a conquistar o jovem moço com palavras amistosas, Ana enlaçou os dedos, transmitiu segurança, gesto assistido pelo barão que sorriu satisfeito, não imaginava que o diálogo desenrolado dava volume à uma conspiração contra o seu reinado —. Sei que ama ou que ainda amará alguém, mas essa pessoa não sou eu, nunca seria, meu coração já foi conquistado e não posso negar isso, é impossível, é inútil, causa dor...
— Se você soubesse o estrondo que meu segredo causaria se um dia revelado, se soubesse as tragédias que poderiam acontecer, não estaria me falando essas coisas, sentiria pena, sentiria pavor... — encarou o doce olhar da dama que o observava com cuidado, desejosa por auxiliá-lo —. Muito me espanta que não sinta esse mesmo assombro, nossas histórias em muito se assemelham!
— Não sinto medo, sinto amor... — sorriu gentilmente —. Disponha-se a lutar, não estará sozinho, tenha certeza disso!

Estava ansioso, entusiasmado, mal conseguia se conter aguardando que seu nome fosse anunciado no palco, para que, enfim, pudesse tocar diante a multidão que o assistiria. Suas mãos suavam, os olhos reluziam.
Foi apresentado ao público como João.
Mais um escravo que julgaram estar à venda.
Deslizou o arco sobre as cordas para verificar a afinação do instrumento, estava tudo perfeito, mas ficou ainda melhor quando seus olhos flagraram o sorridente semblante de Sara e o beijo a ele destinado, sentiu-se ainda mais confiante recebendo os olhares motivadores de Rute e Victor, aquele era o seu momento, a realização de um grande sonho, a concretização de antigos anseios.
Silêncio.
A melodia começou.
O adolescente que ao entrar causou murmúrios, agora era prestigiado por homens cobiçosos. O negro um dia silenciado, agora tinha todos os ouvidos voltados a si. Fechou os próprios olhos. Não precisava da regência que achou desengonçada. Desprezou a partitura lhe apresentada, a música era algo que pertencia à sua alma, era o que respirava dia e noite.
Tocava bem.
O som gostoso emocionava.
Som cuja sutileza Ana reconheceu.
Reconheceu seu autor.


Continua...


##
No próximo capítulo:

— Por esse negrinho darei a quantia que desejar, basta que dê os números — fez a oferta.
A atenção de pessoas próximas se voltaram à negociação, também queriam o mesmo violinista, mas não ousavam competir com o afortunado barão, perderiam.
Em um momento tão nefasto, Felipe voltou a se sentir como uma simples mercadoria, objeto que deveria garantir lucros a quem o possuísse, sentiu a dignidade conquistada ser lançada ao pó.

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