[WebLivro] Ambições - Capítulo 21 - Solidão


Capítulo 21 – Solidão

Ambiciosos, chegamos a colocar nossas vidas em risco, fazemos sacrifícios inimagináveis e buscamos pela nossa conquista a qualquer preço mesmo que isso signifique padecer fatalmente, perder a vida após uma dura vitória por conta da árdua batalha que travamos.
Amanda foi extremamente ambiciosa.
Em prol dos interesses da organização que tinha por objetivo interromper o Sistema, arriscou a própria integridade, colocou a saúde em jogo e colhia os resultados de um cultivo perigoso.
Desacordada, descansava sobre a maca hospitalar que existia no laboratório de Samara.
Através dos aparelhos conectados ao seu corpo era monitorada.

— Quando disse que seria uma surpresa não imaginei que me espantaria tanto, como pôde sobreviver? — Adrian questionou, conhecia os perigos da missão que a detetive se prontificou a cumprir, invadir o Sistema era como andar às cegas numa selva traiçoeira.
— Milagres acontecem para aqueles que acreditam — Samara sorriu, conferiu se o soro seguia o fluxo livremente, apresentou ao parceiro o dispositivo aparentemente inofensivo —. Estava com ela, sujo de sangue, é com isso que ele controla as pessoas — virou o rosto da vítima —. Precisei costurar, estava aberto. Como pôde vencer a dominação e tirar de si o microchip? — muitas eram as perguntas cujas respostas contribuiriam para o propósito do grupo.
— Por que não pergunta a ela?
Estonteada, enfraquecida pelos últimos intensos conflitos que vivera, sentindo a cabeça latejar incomodamente, Amanda abriu os olhos, reconheceu onde estava, reconheceu também aqueles que a encaravam curiosos, era um bom sinal, dominava a própria mente.
— Fique tranquila, está segura — a enfermeira por disfarce lançou um sorriso simpático.
— Preciso falar o que aconteceu...
— Tudo o que precisa é descansar, teremos muito tempo ainda — Adrian recomendou.
— Não, não temos tempo a perder e se o pior acontecer ao menos saberão a verdade — insistiu —. O que eu vivi foi a pior experiência de toda a minha vida.
A detetive relatou os eventos pelos quais passara, como foi fácil penetrar no Sistema e como foi ainda mais fácil descobrirem quem ela era e o que queria. Percebia a preocupação, o medo e a revolta em seus ouvintes, sentimentos que também experimentara a cada tenebroso dia. Não deixou de descrever o poder intimidador do Líder, confessou que a simples presença do sujeito já era capaz de afastar a sobriedade.
Vivera o terror.
Uma simples amostra do que era preparado para o mundo.
— Foi corajosa, devo admitir, mas espero que tenha aprendido a lição, por mais desejosos que estejamos por colocar fim às forças opressoras, não podemos perder o controle e assumir posições ameaçadoras, é o que ele quer, que percamos a razão e cometamos loucuras! — Samara aconselhou, acreditava que suas palavras serviam para todos, não poderiam permitir que o desespero arruinasse a direção.
— Ele é praticamente invencível e intocável. Está sempre rodeado por homens impiedosos que parecem venerá-lo, todos que trabalham com ele parecem completamente alienados, programados para que cumpram ordens.
— E Felipe? Conseguiu escapar? Há tempos não entra em contato.
— Foi capturado.
— Sobrevive? — Adrian se preocupou.
— Eu não sei. Não consegui vê-lo. Mas seja lá o que tenha acontecido, por boa coisa não podemos esperar.
— Nós vamos descobrir — Samara assegurou —. Com esse tesouro em mãos seremos capazes de descobrir a frequência exata das ondas do Sistema, finalmente teremos um bloqueador.
— E qual será o próximo passo? — perguntou o empresário.
— Ambição! — sorriu enigmática, construía planos perigosos, sorrateiros, necessários em uma guerra silenciosa.


A solidão é um estado de espírito que nos empurra impiedosa e covardemente a uma escuridão sem fim, atormentante, que suga de nós qualquer esperança, qualquer gota de fé e nos sucumbe aos pensamentos de insignificância, desvalor, obscuros sentimentos. Na solidão, ainda que rodeados por milhares, sentimo-nos sozinhos, esquecidos e desprezados.
Sofia se sentia solitária.
A própria companhia a enojava.
Já não tinha prazer de viver.
No meio da noite, no silêncio ensurdecedor da madrugada, quando o menor dos ruídos é comparado ao estrondo do dia, a garota se levantou. Descalça, caminhou pelos corredores da mansão, depois de tantos dias abriu a porta do ateliê onde costumava dar asas à imaginação, vida aos papéis em branco, cor às paisagens apagadas.
Sentiu o cheiro de tinta, ao acender a luz contemplou os quadros finalizados espalhados pelo chão e pendurados na parede; também viu os inacabados, aqueles que só possuíam traços desconexos, resultado de uma mente desmotivada, cansada, sem qualquer desejo ou contentamento pelo privilégio do existir.
Caminhando pelo espaço que a remetia aos tempos tranquilos, quando ainda não compreendia a verdadeira realidade de sua vida, a jovem adolescente analisou os desenhos, recordou-se das inspirações que tivera, ora um dia especial com o irmão, outrora a aparente felicidade de estar com seus pais. Gostava de retratar seu dia-a-dia como gostava de criar histórias através dos pincéis, inventava cenas, registrava o que seus pensamentos ditavam, desenhava o que gostaria de viver.
Lembrou-se de Samuel ao ter em mãos uma gravura especial, desenhara ali o querido amigo virtual, desejava tê-lo por perto em seu convívio, ao seu lado, compartilhando tantos momentos, dividindo um pouco das angústias.
Mas o que realmente chamou sua atenção foi a figura mascarada que não se lembrava de conhecer, de algum dia ter conversado, não entendia o porquê de uma personagem misteriosa se manifestar daquela forma, uma personagem que acelerava seu coração, fazia as mãos suadas se agitarem ansiosas e a respiração ofegar. Dava-lhe a sensação de vazio.
Um vazio compensado por apenas uma coisa.
Rendição aos momentos de insanidade.
A passos cautelosos, iluminando o caminho com a ajuda da lanterna, Sofia saiu da mansão na calada da noite, correu pelas ruas desertas despertando e atiçando os cachorros que desesperados saltavam nas grades dos portões e latiam incansáveis. Adentrou a mata e correu o quanto pôde.
Tão logo avistou no meio do mato a fogueira irradiante rodeada por um grupo de jovens, sentiu-se melhor, como se os sintomas desaparecessem pelo simples fato de ali estar.
Aproximou-se em silêncio.
Todos mantinham os olhos fechados, davam as mãos, pareciam meditar.
Seu lugar estava vazio.
Sentou-se ali completando o círculo.
Fechou os olhos.
— Pensamos que não viria mais, que se esquecera de nossa existência — o único mais velho, com a cabeça coberta por capuz, mantendo os olhos fechados e o semblante suave, percebeu a aparição da jovem garota.
— Sabe que não.
— Então por que se ausentou? Por que não deu um jeito de nos comunicar sobre o ocorrido? Por que se recusou a falar com o enviado enquanto esteve internada?
— Não tinha certeza...
— Se era ele? — o homem a interrompeu —. Conhece nosso código, sabe exatamente em quem pode confiar, mas eu explico sobre o que não tinha certeza, está cheia de dúvidas, está se permitindo aos sentimentos lá de fora e não sabe se permanecerá conosco — abriu os olhos e encarou o rosto preocupado de sua ouvinte —. É capaz de mentir olhando para mim?
Sofia se envolvera com aquele grupo em um momento de atordoante solidão, quando pensava não ter propósito algum e se permitira à sedução de palavras tão bem postas. Mas pôde compreender o propósito daquele ajuntamento, não se resumia ao consumo de substâncias alucinógenas para melhor meditação, o que acontecia era maior, mais poderoso, uma verdadeira lavagem cerebral para que desacreditassem nos sentimentos humanos, no amor à humanidade e se preocupassem apenas com quem fazia parte de quem eles eram.
Não queria mais aquilo.
Em um momento de inconsciência proclamou que queria sair.
Foi induzida ao consumo excessivo de drogas.
O que causou a overdose sofrida.
E agora, encarando o severo olhar do sujeito que ditava as regras, não conseguiria mentir, esconder seus intentos, não poderia se arriscar tanto.
— Está certo – disse firme, soltou as mãos que segurava e atraiu a atenção de todos para si —. Isso não passa de uma mentira, grande ilusão, instrumento de alienação — usou as palavras certas —. O que você quer levando-nos a desacreditar no lado bom das pessoas? — questionou, atitude que ninguém praticava.
— Não deveria ser tão rebelde, o Líder não tolera perguntas, odeia que o contestem e não concede novas chances aos opositores, antes os persegue até que sejam aniquilados!


Continua...

No próximo capítulo:

— Sugiro que se sente e me ouça, não queira experimentar métodos mais inibidores — o indivíduo misterioso impôs sua ordem de forma firme e severa, incontestável e irrecusável —. Acha que é fácil? Acha que pode fazer o que bem entende e todos devem aceitar seus caprichos? Aqui as coisas funcionam de maneira oposta ao que sempre viveu, aqui são as minhas vontades que prevalecem!

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