[WebLivro] Ambições - Capítulo 43 - Desânimo


Capítulo 43 – Desânimo

O cansaço chega para todos.
Em algum momento nos sentimos exaustos por tanto enfrentar os dias pesados que a nós são ofertados. Porém, recuperamos as energias em momentos de paz e sossego, quando nos afastamos da realidade nem que seja por alguns instantes e nos reconectamos às coisas que nos mantém vivos, as motivações que contribuem para que a chama da vida não se apague.
Mas e quando essas coisas não existem?
E quando as motivações não passam de obrigações que já não suportamos?
É quando mesmo distantes do enfado não conseguimos sorrir, não encontramos nada que possa despertar em nosso ser o desejo pela vida, é quando muitos de nós não resistem à fatal reflexão: o que estou fazendo aqui?
Para essa pergunta Sofia não tinha resposta.
Acreditava mesmo que viver era um fardo.

[Samuel]: Não pode falar algo como isso. Há pessoas que te amam, que querem o seu bem e sofreriam muito se desaparecesse de suas vidas, são pessoas especiais.
[Sofia]: Não seriam especiais se não compreendessem os meus motivos, seriam totalmente egoístas e egocêntricas, pensariam apenas nos próprios sentimentos e nem se perguntariam sobre o tamanho da minha dor para que eu desistisse de viver.
[Samuel]: Acha justo desprezar o amor daqueles que lhe querem bem?
[Sofia]: Que amor?
[Samuel]: O meu significa alguma coisa?

Deveria ter feito tal declaração há bastante tempo, deveria ter confessado seus sentimentos tão logo os sentira, mas Samuel nunca teve certeza, possuía dúvidas, talvez fosse apenas admiração ou um carinho diferente por uma amiga maravilhosa, mas percebeu que não era apenas isso, estava apaixonado, as tantas mensagens trocadas eram cercadas por sentimentos nobres, pensar na hipótese de perder uma pessoa que ganhara espaço no seu coração despertou um certeza: não suportaria porque sentia amor.
Em meio a muitos questionamentos, a um desânimo que a consumia ferozmente, a uma descrença que dominava sua alma e a lançava contra depressões traiçoeiras, Sofia abriu um sorriso discreto, sentiu um agradável calor no peito, experimentou a prazerosa sensação que pessoas amadas todos os dias vivenciavam.
Mas não era o bastante para tirá-la do abismo.
Para iluminar seu caminho.

[Sofia]: Quando atender ao meu pedido poderei responder...

Ninguém disse nada.

[Sofia]: Tomara que não seja tarde...

A esmorecida garota empurrou o computador para o lado, levantou-se da cama como se o corpo não a obedecesse, como se precisasse de muita energia para o simples ato. Caminhou até o banheiro. Ligou o chuveiro. Precisava ordenar os pensamentos.
Ao voltar para casa e não encontrar a filha em canto algum, Sílvia decidiu procurá-la em seu quarto, ouviu o barulho da água, percebeu que estava tudo bem, percebeu também o notebook ligado.
Aproximou-se para abaixar a tela.
Não pôde se conter e nem evitar a descoberta sobre o desabafo de Sofia.

[Samuel]: Sabe que não é tão simples como pensa. É claro que tenho vontade de estar ao seu lado, oferecer meu apoio e ajudá-la nesses momentos difíceis, preciso um pouco da sua compreensão, preciso que demonstre o que diz sentir, preciso que se mantenha firme por mim.

Os olhos da arrependida mãe se encharcaram.
Precisava fazer alguma coisa.
Precisava salvar aquela que amava.


Samara, trabalhando no laboratório em novos bloqueadores de sinal, não deixou de notar o estranho silêncio de Felipe, o olhar ofuscado, o semblante temeroso, a postura inquieta. Chegou-se até ele, descansou a mão sobre a dele, sentia carinho.
— O que está acontecendo?
— Nada demais... — o rapaz forçou um sorriso, forçou a esperança que não tinha.
— Pensa que me engana? Foi quase como um irmão, eu o recrutei, conheço seu olhar — a Capitã confessou —. Sempre pôde confiar em mim e sempre poderá, sente a falta de Acsa, não é?
— Sinto-me como um inútil incapaz, enquanto estou aqui, relativamente seguro, ela pode estar passando por tormentos que nem quero imaginar — desabafou —. Quando esse pesadelo terminará?
— Espero que logo — ela não daria datas, nem certezas, não contribuiria para que futuras decepções fossem saboreadas, só uma coisa estava ao seu alcance: oferecer conforto —. Mas prometo que lutaremos, prometo que daremos o nosso melhor para que cada um de nós tenha o direito de ser feliz vivendo livremente os sonhos que possuem — encarou os olhos castanhos, precisava ser convincente —. Mas precisa se lembrar de que o nosso propósito não é combater apenas por nós ou quem amamos, estamos aqui para defender quem não tem condições de o fazer, nossa missão é garantir que todas as pessoas tenham o direito de amar mesmo que para tal devamos entregar nossas vidas — acariciou o ombro do mais novo —. É por isso que lutamos.
Felipe ouvira tal discurso antes, recordou-se de que jurara defendê-lo com a própria vida e era o que fazia.
— Uma agência de modelos em Lobato trabalha para o Sistema mandando jovens reféns, foi assim que Acsa terminou encarcerada — revelou a importante pista, lembrou-se da relevante informação.
— Agência de modelos? Sabe qual?
— Ela nunca falou, apenas disse isso e quem a procurou.
— Sabe o nome?
— Rodolfo. Um homem chamado Rodolfo.
— Ótimo! — pegou o celular —. Amanda fará bom uso desse rastro!


Atrás do caixa, observando os clientes escolher os produtos que levariam, Diva se recordou da alegria contagiante de Rute que não dispensava uma boa e longa conversa com os consumidores, ao contrário, compartilhava alegrias e construtivos conselhos, todos a admiravam, apreciavam sua presença e sentiam sua falta.
Mas Diva era quem mais sentia saudade, quando os pais morreram cuidou da irmã com imenso carinho, fez questão de trabalhar o quanto conseguia para garantir o melhor àquela que tão nova já experimentava as dores que a vida pode proporcionar.
O telefone tocou.
Atendeu.
— Diva? É você?
A voz inconfundível soou do outro lado, encheu a comerciante de espanto, motivou as lágrimas que encharcaram seus olhos.
— Rute? — precisava ter certeza.
— Graças a Deus! — a mulher exclamou contente —. Não imagina o quanto tentei por isso, mas nunca foi possível, finalmente posso ouvi-la!
— Segui seu conselho, não mudei de telefone nem de endereço, nunca deixei de acreditar que pudéssemos conversar outra vez! — Diva se enchia de emoção, era recompensada pela muita espera —. Como você está, minha irmã?
— Agora muito melhor, coisas aconteceram, mas ficaram no passado, o que importa é que estamos bem. E o meu filho?
— Um belo rapaz, ficará orgulhosa quando vir-lo.
— Quero que venham para Lobato, aqui é seguro, aqui estaremos protegidos.
— Por que não volta para casa?
— Porque aí posso morrer!
Diva percebeu que as coisas não estavam tão boas.
Algo acontecia.


Fora traído em outros momentos, trapaceado de tantas formas, quem garantia que não sofreria novas traições? As palavras de Rodolfo denunciaram o desapontamento do Líder, um sujeito vingativo que jogava sujo, Cícero não correria o risco de cair no esquecimento sem antes garantir aos inimigos incômodas preocupações.
Disse que daria um depoimento.
Falaria apenas na presença da imprensa.
Se quisessem ouvir o que tinha a declarar era melhor que atendessem ao seu pedido.
Algemado, apareceu na porta da delegacia.
Câmeras o filmavam.
Celulares eram posicionados em sua direção.
Jornalistas o encaravam perplexos e curiosos.
Ele sorria,
— Caros cidadãos, homens e mulheres, filhos da pátria, indivíduos dominados, vocês são enganados e por certo para sempre o serão, mas merecem saber a causa de vossa morte, possuem o direito de conhecer as forças ocultas que trabalham incansavelmente enquanto suas famílias dormem tranquilas. Essas forças levaram aqueles que misteriosamente desapareceram e nunca mais voltaram, essas forças buscam dominar suas mentes e seus corpos, pode parecer loucura, mas há um sistema que tem por objetivo dominar todas as pessoas e eles já começaram a agir.
Não sabia se os olhares eram de espanto ou chacota.
Sabia apenas que declarava a absurda verdade.


Continua...

No próximo capítulo:

— Fotos é uma boa maneira de saber como alguém se sente, mas ter quem tanto estimamos ao nosso lado é incalculavelmente melhor, até quando terei que me contentar com fotografias? — encarou o sobrinho, não esperava que dele viesse a resposta, contava apenas com sua atenção para desabafar o que sentia —. Ainda acredita que ela se importa conosco?

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