[WebLivro] Ambições - Capítulo 29 - Entre Inimigos


Capítulo 29 – Entre Inimigos

Temos inimigos, talvez não com a intensidade literal da palavra, ao menos todos nós possuímos alguém que não se simpatiza conosco e quando o sentimento é recíproco a atmosfera entre ambos fica sufocadoramente densa.
Sempre imaginamos como será o nosso encontro quando ele precisar acontecer, planejamos as falas, os argumentos e até pensamos em possíveis agressões mais enérgicas, mas na verdade nunca sabemos qual será nossa reação quando os olhares se cruzarem e toda a motivação para tão abismal distância reverberarem sobre nossas mentes.

Samara enxergou o pai cometendo o próprio assassinato.
Recordou-se do quão frágeis podemos ser ante forças perversas.
— Recebemos sua mensagem, como soube que ela chegaria?
— Aonde vai alguém que é atropelado?
— Quem lhe contou?
— O que fazemos isso sabemos, ninguém precisa nos contar — vestido pela capa preta cujo capuz ocultava sua cabeça, o Líder permaneceu com a atenção voltada à Lua, parecia não se importar com a sorrateira aproximação de sua opositora.
— O que quer ferindo aos inocentes? O que intenciona colocando entre nós pessoas que nada têm a ver com seus planos? Deveria ser corajoso o bastante para nos enfrentar sem intermediações! — a enfermeira destemida lançou a provocação, embora armada não usaria as munições, pelo menos por enquanto, tinha a consciência de que batalhava contra alguém inteligente.
— E o que estou fazendo? — exibindo o sorriso enigmático, única expressão que a máscara permitia que fosse manifesta, o sujeito se virou para a mulher, revelou os olhos flamejantes, fez o passado pressionar a alma de Samara —. Primeiro enviamos a convocação e então esperamos para que nosso adversário nos procure certo de que sempre há uma chance.
— Não se iluda achando que me aliarei a você, nem uma promessa que faça será convincente o suficiente para que eu me entregue às suas podres mãos!
— É uma pena que esteja do outro lado da disputa, o lado da derrota, poderia ser muito melhor aproveitada se abrisse os olhos e enxergasse que é inútil lutar contra alguém que governa mentes, é preferível e inteligente se juntar a mim — tentou convencer —. Mas, como parece com o fraco Matheus, aposto que se negará a isso, no entanto, meu bom humor nos permite a um acordo no qual todos sairemos ganhando: eu e aqueles com os quais vive.
— Nem tente me impedir de destruí-lo!
— Calma, precisa aprender a ouvir — colocou-se em pé e caminhou tranquilo em direção à inimiga —. Seu pai morreu diante os seus olhos sem que eu precisasse disparar se quer uma bala, fez exatamente o que ordenei e nunca mais abriu os olhos. Qual foi o tamanho da sua dor quando viu quem amava perder o controle e, encarando-a como se implorasse por ajuda, tirar a própria vida? O quanto se sentiu incapaz quando o acolheu nos braços? Qual é o tamanho da saudade que ainda sente? Pode mensurar todo o sofrimento que aquele terrível dia causou?
O rosto de Samara se abaixou, seus olhos estáticos observavam o chão pouco iluminado pelo luar, mas seus pensamentos estavam sobre o pai, sobre o quanto se achava incapaz: se não pôde salvar o próprio pai, como salvaria todo um mundo? Sentia falta do homem que admirava, aquele que lhe ensinou tantos truques, tantas filosofias para que se tornasse uma mulher de firmes propósitos, aquele que lhe instruiu a lutar, a ser forte e a vencer.
— A culpa é toda sua! — alçou a voz como se libertasse toda a raiva acumulada —. Enquanto sua vida não for aniquilada não descansarei, minha maior ambição é vê-lo agonizar até o último suspiro! — não parecia a dócil mulher que possuía palavras de conforto a quem precisasse, parecia cheia de ódio, rancores insuperáveis.
— Sabe o que mais amo em mim? A capacidade de revelar às pessoas quem elas realmente são — o Líder ironizou.
— Vai para o inferno! — estavam pertos o bastante para que Samara erguesse a mão e dirigisse a desejada agressão ao rosto do perverso indivíduo.
O Líder foi mais rápido.
Conteve o braço da mulher segurando-a fortemente.
— Já estamos nele! — jogou a adversária com facilidade surpreendente, a fez rolar sobre as folhas mortas espalhadas ao redor das muitas árvores —. Sugiro que agradeça eternamente por ser necessária aos meus planos, caso contrário não pouparia esforços para extirpá-la como se fosse um verme! — a voz soava irritada —. Já que não podemos ir pelo caminho da paz, economizarei meu tempo. Se não quiser que você e os seus sofram a mesma dor que até hoje a perturba deixará meu caminho ser trilhado livremente, irá para longe e assistirá minha ascensão sem se incomodar, sabendo que é a coisa certa a se fazer.
— Você é um desgraçado miserável! — agarrou o opressor pelas pernas, derrubou-o no chão e subiu em cima dele procurando imobilizá-lo, combatendo contra alguém de força descomunal. Com muito esforço colocou a mão na máscara cobiçada, não hesitou em puxá-la.
Parecia presa ao rosto.
O Líder não arriscaria ter a identidade revelada.
Cabeceou-se contra Samara.
Deixou-a estendida sobre a mata.


Após algum tempo em observação, Sofia foi transferida ao quarto, os médicos a aconselharam para que se sentisse sortuda já que o grave acidente não fizera jus à capacidade de destruição.
Mas sua alma ainda estava quebrantada.
Muitas eram as dúvidas.
— Filha... — receosa, acompanhada por Whesley naquele momento de grande importância, Sílvia adentrou o lugar, encarou os confusos olhos da jovem garota, imaginava que as incertezas rondavam a pobre mente —. Podemos conversar?
Sofia assentiu apenas em gesto.
Não sabia o que de fato pensar: se tinha ou não uma família.
A primeira-dama, permitindo-se às mudanças que os últimos dias lhe ofertavam, sentou-se na poltrona ao lado da paciente, passeou os dedos pelo rosto surpreso, acolheu as mãos ligeiramente impacientes.
Precisava falar a verdade.
— Nunca imaginei que esse dia pudesse chegar, mas é quando menos acreditamos que os imprevistos acontecem... Apenas Rodolfo conhecia a história, seu pai e ele sempre foram grandes amigos, pensei que seria fiel e guardaria o segredo. Engravidei de Whesley por um milagre, a gestação foi bastante conturbada ao ponto de precisar decidir entre mim e ele, fiz a escolha que meu coração apontou e ainda assim tive a oportunidade de viver para vê-lo crescer.
Ouviam com atenção.
Era uma parte desconhecida do passado.
— Por volta dos sete anos ele me pediu um irmão, mas eu não poderia arriscar outra gravidez, meu corpo não suportaria e talvez nem o bebê sobrevivesse, foi aí que errei. Ao invés de encarar a verdade desde o início preferi manipulá-la, ele não entendia como funcionava, se tivesse sido sincera seu irmão saberia a verdade e você nunca precisaria descobri-la porque, independente das circunstâncias, é minha filha e do meu jeito errado sempre a amei como tal.
— Por que quis esconder a verdade? Não pensou que eu tinha o direito de saber?
— De que importa se é adotada ou não? De que importa saber se temos ou não o mesmo sangue?
A resposta não veio.
Mas o abraço foi selado.
— Perdoe-me por ter sido distante, por não ter sido a mão que merece, por ter sofrido tanto pelas minhas atitudes erradas, por experimentar a infelicidade que causei... Sucumbi aos meus próprios problemas e descontei nos meus filhos, esse é meu maior pecado e estou disposta em pagá-lo!
Sofia nunca sentira um abraço tão sincero vindo de sua mãe, nunca experimentara tão afetuoso momento com aquela que amava, mas que não compreendia. Sentiu-se verdadeiramente amada.
— Permite-nos a um novo começo? — emocionado pela cena que representava a realização de seus desejos, Whesley sugeriu o que mais almejava, um recomeço.
— Na vida só importa que sejamos verdadeiramente amados, não importa como e nem por quem — Sofia respondeu —. Erramos, somos falhos, mas devemos aproveitar a oportunidade que a vida nos dá para recomeçarmos — as palavras acompanhadas de um aberto sorriso denunciavam que estava sim disposta a tentar outra vez.


Era já noite.
A campainha tocou.
Vestido com o roupão Rodolfo atendeu a porta, queria saber quem era o mal educado.
— Cícero?
— Para você é governador — não esperou permissão, entrou no apartamento de seu aparente aliado, traidor em potencial.
— Quanto mau humor...
— Agiu feito um moleque e espera receber flores? — enfrentou —. Não sei o porquê de ter quebrado um acordo, mas sei que ao fazê-lo destruiu a própria vida!


Continua...

No próximo capítulo:

— Eu sei que é difícil, eu sei que o medo de perder quem amamos é insuportável, mas precisamos acreditar que aconteça o que tiver que acontecer estaremos eternamente dentro dos corações que conquistamos! — beijou-o sedenta pelo seu amor —. Agora vamos, preciso de você, preciso da sua força para sobreviver!

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