[WebLivro] Ambições - Capítulo 31 - O Preço
Capítulo 31 – O Preço
No ímpeto de
nossas decisões esquecemos que erros fatais podem acontecer, esquecemos que
estamos em território desconhecido, inimigo e que ciladas são postas para que
caiamos sem a possibilidade de levantar e correr.
O casal se vira
encurralado.
O menor dos
movimentos causaria seu triste, trágico e inevitável fim.
— Amarrem-nos,
faremos o que tiver que ser feito aqui mesmo — prepotente e irado, o Líder deu
sua ordem, detestava que tentassem superá-lo, que se considerassem mais
inteligentes, detestava os rebeldes.
Nenhum dos dois
jovens relutou.
Estavam em
posição desprivilegiada.
— É uma pena que
pessoas tão novas, com um longínquo futuro pela frente, com tantos sonhos a
realizar, tenham de ser despedaçadas para que aprendam o quão insano e
imprudente é enfrentar seus algozes cujos corações abominam a misericórdia e se
endurecem perante os desobedientes — mantendo a voz serena, os passos
tranquilos, o sujeito mascarado caminhava por entre o casal, garantia aflição a
partir de sua presença —. O que acham que merecem receber por tamanha afronta?
Felipe e Acsa,
amedrontados pela situação, preferiam o silêncio, tinham a noção de que a menor
das falas poderia ser usada contra eles.
— Não tenho
piedade, mas meus olhos sabem apreciar um bom negócio quando o percebem — parou
em frente a oriental, alisou os cabelos escorridos, tocou a face delicada, tais
gestos desencadearam as lágrimas repulsivas e assustadas da jovem mulher —. Tem
sorte de ser bonita e oferecer prazeres àqueles que a encaram. Sua beleza a
salvará da morte! — com tal afirmação anunciava também quais planos tinha para
Acsa.
— Nem pense em
humilhá-la! — até então calado, Felipe se vestiu de coragem, defenderia quem
amava, procuraria cumprir com a promessa firmada.
— Cale a boca! —
veloz, o Líder se virou ao rapaz, com as costas da mão coberta por uma luva de
couro agrediu seu rosto, causou o corte nos lábios —. Foi muito tolo ao ceder
para os próprios sentimentos e se arrepender de fazer parte dessa organização,
foi burro ao acreditar que praticando boas ações seria capaz de salvar a sua
honra, não passa de um traidor covarde! — voltou-se à moça —. Podem levá-la,
preparem-na para a venda, tenho um comprador especial que não economiza em suas
aquisições — o sorriso doentio foi lançado.
Dois amantes.
Jovens que se
conheceram em uma realidade difícil, a mesma que os uniu intensamente, que
garantiu aos seus sonhos a esperança de um futuro que construiriam juntos se
amando e respeitando até que a morte os separasse.
Os sonhos foram
dissipados.
Os planos
rasgados.
Naquele momento
de dor.
Antes que fossem
indesejavelmente separados por forças opressoras e maliciosas, os olhares se
cruzaram, olhos que se conversavam conseguiram trocar a última mensagem que declarava
o amor genuíno e gigante que entre eles existia.
Acsa derramou as
lágrimas já saudosas.
Felipe
mordiscava os lábios na inútil tentativa de evitar o pranto.
Sob o jugo
impiedoso, foram separados.
— Por que faz
isso?! — entregue à própria derrota, sucumbindo à desesperança de algum dia
viver o que sempre imaginou, o rapaz intimou o inimigo a oferecer respostas —.
Como consegue ser tão desprezível?! Como pode ferir as pessoas de forma tão
covarde e dolorosa sem demonstrar a menor culpa?!
— Os sofrimentos,
meu jovem rapaz, quando estiver mais velho compreenderá que as dores que nos
são causadas esvaziam de nós qualquer sentimento de amor, de empatia e nos
fazem retribuir com ainda mais dor àqueles que merecem! — sua resposta era
também um desabafo.
— Se o seu
problema é alguma decepção do passado não deveria castigar pessoas inocentes
que nada têm a ver com suas lágrimas, isso é injusto!
— Não... Não é
injusto... Aqueles que se unem a mim ganham a oportunidade de se vingarem, de
retribuírem a dor que receberam, de compartilhar o desprezo que sofreram... As
pessoas são ingratas, nunca reconhecem o seu valor e nem te amam como falam,
elas são mentirosas! — afirmou.
— Há quem vale à
pena...
— Precisa
entender... — golpeou a face de Felipe —, que as pessoas... — não poupou
agressão contra a barriga do rapaz —, são horríveis! — garantiu pontapés ao
jovem estendido sobre o chão com as mãos e pés amarrados —. Até quando
acreditará nelas? Acha mesmo que sua namoradinha o ama? Que se importa com
você? Nada disso é verdade!
— Não pode falar
pelos outros a partir do que fizeram ao seu lado! — sentindo as dores das
pancadas, mantendo os olhos fechados e se contorcendo sobre o chão, Felipe não
deixou de confessar a fé que possuía no ser humano —. Há quem se alimente do mal,
mas também existe quem se encha do bem. Que culpa temos de você ter se aliado a
quem só possui maldade a oferecer? Precisa escolher melhor suas companhias se é
que ainda há jeito para a sua solidão...
Agora a culpa
era dele?
Estava sendo
responsabilizado pelas próprias dificuldades?
O Líder não
aceitaria tal acusação sem retrucar como sabia fazer, usando de violência.
Tornou a conceder chutes ao seu prisioneiro, parecia desejar por sua morte,
causava arrepios naqueles que os rodeavam.
O rapaz cuspiu
sangue.
Tossia
engasgado.
— A humanidade
precisa de uma grande lição! — abaixou-se até o ouvido da vítima que fizera —.
Se sobreviver anuncie a seu chefe que meus planos estão se cumprindo, nada mais
me parará e em breve eu serei dono de cada homem, mulher, de todo o mundo! —
afastou-se —. Tenha uma boa morte, quero dizer, vai precisar de sorte! — partiu
rodeado pelos seus homens.
O céu se
escureceu.
Jogado,
vulnerável a quaisquer ameaças da mata traiçoeira, Felipe resmungava de dor,
não tinha forças para se reerguer, sentia os ferimentos arderem em seu corpo.
Ventania.
Trovoadas.
A forte chuva
começou.
Por entre as
folhas molhadas que caídas no chão perdiam sua cor, passos foram ouvidos,
passos apressados que a cada instante ficavam mais altos. Poderia ser uma fera.
Poderia ser o ponto final da história do jovem rapaz.
Mas era a
salvação de que precisava.
Alguém vestido
de capa para se proteger da chuva aproximou-se de Felipe, envolveu-o com
cuidado sobre a coberta, arrastou-o para dentro do túnel;
Repetia quase
inaudivelmente uma palavra conhecida.
“Samuel...
Samuel...”
Era Rute.
— Perdoe-me,
cometi um grave erro e desde o momento que vi a garota retornar aprisionada não
consigo penar em outra coisa que não seja ajudar — analisou os ferimentos,
abriu a sacola que carregara consigo, faria os curativos —. Preciso que me
perdoe... Samuel... Samuel... — chorava discretamente, arrependida.
— Como ele
soube?
— Quando vocês
partiram perdi o controle, por certo os delatei, mas não foi por querer, seria
incapaz de traí-los! Samuel... Samuel... — não se cansava de repetir o nome do
filho, era o que lhe dava forças para dominar a própria mente.
— Como ela está?
— Precisa de
você, mas só será salva se estiver forte, por isso pedi ajuda, vou levá-lo para
longe daqui...
— Eu não posso
ir... — resmungava as palavras, cansava-se de tantas dores.
— Não terá
escolha. Vou tirá-lo daqui queira ou não. Precisa estar recuperado para salvar
aquela que ama!
∞
— Saiam todos,
quero que minha cliente tenha total liberdade em sua avaliação — o Líder
ordenou —. Acredito que fará um excelente negócio levando essa mercadoria —
apontou para Acsa.
— Acho que lhe
darei razão... — a cliente em questão era uma mulher alta, de cabelos
enegrecidos e olhos vorazes, seus passos eram firmes, sua postura incorrigível,
observava a candidata aos seus serviços procurando por defeitos —. Meus
clientes se definharão disputando por ela, isso me renderá altos lucros —
apalpou o corpo da moça, aquilo era constrangedor, humilhante —. Quanto quer
por essa joia? — voltou-se ao Líder —. Estou disposta a qualquer preço.
Esperta e livre,
Acsa enxergou a faca que a cefetina escondia na bota, não perdeu tempo, avançou
contra a mulher lhe passando rasteira, antes que ela pudesse tomar posse sobre
o artefato fatal, a oriental torceu sua mão, o instrumento cortante era seu.
— O preço é a
sua morte, desgraçada! — cortou a garganta exposta sem qualquer sutileza —. E
agora é a sua vez! — dirigiu-se ao dominador que a observava atônito.
Continua...
No próximo
capítulo:
—
Dos meus próprios sentimentos... — interrompeu as pinceladas, levou as íris
castanhas ao semblante atento do irmão —. Quando nos sentimos desprezados
corremos atrás de outras atenções que nem sempre são as mais indicadas, mas que
nos garantem a sensação de amparo... Aquelas pessoas me fizeram acreditar que
não vale a pena confiar nos outros, não vale a pena cultivar afeto por quem nos
rodeia já que sempre seremos decepcionados, frustrados, é melhor que confiemos
apenas naqueles que sofreram o mesmo que nós.
De segunda a
sexta, aqui no blog!
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pela companhia, um forte abraço e até logo!

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