[WebLivro] Ambições - Capítulo 38 - Debate


Capítulo 38 – Debate

Curioso e espantado, Cícero desceu do veículo, gesticulou para que os seguranças o deixassem tranquilo, adentrou o luxuoso edifício frequentado pelas mais ricas famílias.
Olhou ao redor, contemplou os ornamentos que tornavam a recepção um lugar agradável, percebeu que os atendentes tudo observavam, que as câmeras bem posicionadas não deixariam de flagrar o menor dos invasores, se realmente fosse Fernando já teria acontecido um rebuliço.
— Governador? — uma moça sorridente, que vestia o uniforme do lugar, abordou o poderoso indivíduo —. Perdido por aqui?
— Na verdade não — retribuiu a simpatia através do semblante alegre —. Sabe onde está Adrian? Tínhamos marcado uma reunião.
— Não... Ele saiu e não deixou avisado aonde ia. Talvez tenha se esquecido do compromisso.
— Eu devia ter ligado antes, ele é mesmo distraído — deu
à fala enganadora maior credibilidade.
— Se quiser aguardá-lo...
— Adoraria!


Rute, tomada por aquele que mesmo longe a dominava inteiramente, transmitia no olhar sentimentos de ira, de um coração obscuro, sedento por vinganças injustificáveis. Não era a mesma mulher.
— E você também se deu bem — apontou para a detetive Clarke, lançou a ela um olhar admirado —. Além de ter tido a sorte de não se adaptar ao microchip ainda conseguiu sobreviver e voltar ao seu bando. Não é uma heroína, pessoal? — ergueu as mãos, bateu palmas —. Por que não contesta a liderança desse grupo fajuto? Tudo pelo que passou não a faz acreditar que seria uma líder muito melhor e mais eficiente?
— Nossa hierarquia não é como a sua, aqui o maior se faz de menor, arrisca-se juntamente a todos, temos o nosso valor respeitado — Amanda, mesmo conhecendo a verdade, encarava a mulher como se outra vez se deparasse com o Líder, estivesse em suas mãos sofrendo as mesmas dores de antes —. Ao contrário de você, que precisa provocar o medo a fim de ser respeitado, nós temos a compreensão e a união como regras!
— Filosofia barata de perdedores, é uma pena desconsiderar seu potencial e acreditar em compreensão, união, amor... Seu noivo pensou nessas coisas antes de traí-la? — atacou.
— Não se meta em assuntos que não deve!
— É nítido que você não o superou. Será que algum dia o esquecerá? Tenho para mim que enquanto viver ele a privará de ser feliz! — disse com certeza, como se ditasse o destino da ouvinte.
— Não dêem ouvidos, ele quer desestabilizar o que sentem, quer colocar uns contra os outros, quer abalar o único grupo capaz de derrotá-lo permanentemente — séria, Laura observava a falante, desvendou a tática daquele que por ela falava, não se calou e deu a instrução.
— Laura... Pensei que não suportaria perder o estimado esposo, juro que me preocupei com a sua recuperação, mas entenda que eu precisava fazer aquilo, tinha que ser assim, não tive escolha, no meu lugar também não teria — é claro que seu discurso arrependido não passava de um deboche irritante —. Sente-se melhor?
— Tudo isso é desespero? — a mulher já avançada nos anos questionou com ironia —. Não há como escapar da profecia, você sabe, não importa o que faça. Mas já que insiste na loucura, não pensou que pode estar perdendo tempo? E se aquele que o abaterá não for nenhum de nós? Já se perguntou se existe um plano reserva?
— Você é melhor calada! — descontrolada, Rute avançou contra Laura, mas teve que interromper os passos, Adrian se colocou no seu caminho.
— Que maus modos tenho, como pude deixar de cumprimentar alguém como você? Sempre tão ambicioso, ousado, não foi o bastante retornar a Lobato e confrontar as ordens de Cícero? Teve mesmo que insistir no que sabe que tem mais chance de dar errado do que certo?
— Se até agora nada me fez desistir não é você que o fará — assegurou —. Por que está aqui? O que quer que façamos?
— Estou por essa mal educada, péssima anfitriã, nem mesmo uma cadeira me ofereceu — dirigiu-se à Samara —. Você me desobedeceu e eu odeio os rebeldes!
A enfermeira abaixou os olhos, não queria entrar em novos combates, não queria aumentar a ira no coração perverso, não queria correr o risco de ser atacada com maior impiedade, mas também não demonstraria medo, não quebraria a promessa que fizera ao pai, lutaria em sua memória, mesmo que custasse a vida, a felicidade, precisava cumprir com sua missão.
— Não desobedeci porque não faço acordo com gente perversa, cheia de maldade, jamais acataria suas ordens, multidões seriam atingidas, pessoas que nem mesmo nasceram, o que puder fazer para interrompê-lo isso farei!
— Vai mesmo colocar em risco a sua história com o belo rapaz que, apaixonado, perdidamente apaixonado, ajoelhou-se diante a sua presença e lhe pediu em namoro? — sua pergunta mais parecia um disparo dado por armas fatais —. Como sei? — sorriu vitoriosa —. Conheço essa cidade como a palma da minha mão, mais que isso, tenho olhos por toda parte!
Samara permaneceu em silêncio por alguns instantes, apenas dirigia o olhar indiferente àquela que era usada por seu algoz até que sorriu, sorriu livre, sorriu extrovertida, sorriu como se não existisse mais nenhum problema ameaçando o mundo.
— Confesso que é convincente, sabe como abordar sua presa, sabe como escolher as vítimas, só não sabe agir quando é contrariado, quando não demonstram medo, quando ao invés de se renderem o enfrentam. Não confio em suas palavras, sei que não as cumpriria e que de qualquer forma não viveria os prazeres que anseio, mas por qual motivo facilitaria o caminho até seus objetivos? Se quer mesmo me ver em ruínas precisará ser forte o bastante, deverá deixar de lado a covardia e ser o que quer que pensamos que seja, ao contrário disso o terei como uma farsa, alguém de quem rir.
— Você também o ama...
— Adrian, por favor.
— É claro que o ama e odiaria que algo acontecesse...
— Adrian!
O empresário configurava o aparelho.
— Sugiro que não ame tanto.
— Agora!
— Ou acabará como a sua mãe!
O botão foi acionado.
Rute recobrou o domínio sobre a mente.
Mas de nada se lembrava.
— Sente-se bem? — Samara perguntou.
— Completamente livre — sorriu vitoriosa.
— Ótimo! — suspiraram contentes, gratos por terem alcançado tão importante conquista —. Por enquanto deverá ter esse aparelho como companhia inseparável, logo faremos a cirurgia e nunca mais correrá o risco de viver por desejos que não os seus.


Com o rosto iluminado, embelezado pelo sorriso espontâneo cujo autor não se dava conta, Whesley adentrou o apartamento, sentou-se no sofá, há muito tempo não se sentia tão leve.
— Divertiu-se muito? — Sílvia se sentou ao seu lado, tinha em mãos uma taça de vinho.
— Não foi diversão, foi muito melhor que isso! — seus olhos brilhavam, exibiam a alegria que transbordava em seu peito —. Depois de pensar que já não viveria um grande amor, pedi uma pessoa em namoro — ficou tímido —. Ela é linda...
— Que ótima notícia! — a mãe transformada celebrou o surgimento de um novo e especial capítulo na vida daquele que lhe ofereceu nova chance para amar, abraçou-o demonstrando seu apoio —. Pela forma como está tenho certeza de que é alguém especial.
— Não tenha dúvidas, é uma pessoa diferente de tantas outras, tem uma alma iluminada — dispensou elogios —. Espero não decepcioná-la, tenho medo de errar e perder um verdadeiro tesouro.
— Quanto a isso não se preocupe, você é dono de um sábio coração, sabe o que é amar, sabe qual é o significado do amor, saberá garantir momentos de alegria por toda a vida que juntos construírem, só não se esqueça de que o amor precisa ser nutrido todos os dias para que jamais se enfraqueça — aconselhou.
— Tem certeza de que sou eu o sábio?
— A mais absoluta!


Tendo motivos de sobra para comemorar os últimos avanços da Resistência, Adrian voltou ao apartamento onde morava, foi informado de que alguém de confiança o esperava em casa, não tardou em se encontrar com a visita inesperada.
— Cícero?
— Adrian Armani, fique a vontade, não precisa se preocupar comigo, o que vim fazer é breve, pouparei seus minutos — o governador o recebeu —. Não precisa inventar desculpar e nem tentar me despistar, já sei a verdade e só quero uma explicação: por que tem me desonrado? Como ousa manter relações tão vergonhosas com a minha mulher?!


Continua...

No próximo capítulo:

— O amor não é como os pacientes que atende, é grandioso demais para acreditar que precisa sustentá-lo sozinha, é um sentimento que envolve união e reciprocidade — acariciava os fios dourados, lembrava-se dos anos passados quando a filha recorria ao seu colo nos momentos de angústia —. Precisam trabalhar juntos, um deve nutrir esse sentimento no outro, só assim chegarão até o fim de mãos dadas e corações ligados.

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