[WebLivro] Ambições - Capítulo 25 - Falar a Verdade
Capítulo 25 – Falar a Verdade
— Obrigado por
ter se apressado — Samara recebeu a detetive Clark no hospital lhe dando livre
passagem à UTI —. Suspeito que o Sistema fez uma vítima, ainda não sei se a
libertarem por vontade própria e qual seria a razão ou se ela fugiu, mas os
ferimentos no corpo não podem ser apenas do acidente — indicou a paciente em
questão.
Analisando com
atenção o corte no rosto e os demais hematomas, Amanda usou de suas
experiências para concluir o que já se acreditava.
— Foram eles, a
espancaram. Tem certeza de que o acidente também é real?
— Quando a isso
não há dúvidas. Ela não reagiu com sobriedade a um segredo de família e correu
atordoada — passou a mão pela testa de Sofia, sentia compaixão por alguém tão
novo possuir fardos tão pesados de carregar —. Mas por que a deixaram viva?
— Querem enviar
uma mensagem, a que temíamos que chegasse, a que seu pai nos adiantou em seus
últimos dias, para a qual devemos estar preparados — a detetive se recordou dos
tempos passados, quando avisos foram profetizados, quando o futuro foi
misteriosamente revelado.
— A guerra está
começando — os olhos estáticos de Samara indicavam o tamanho da preocupação que
a consumia, o medo que a envolvia —, e inocentes pagarão... — aquele era o
anúncio, perverso anúncio, anúncio de morte.
∞
Tão logo Elisa
manifestou sua presença naquele escritório, Rodolfo se distraiu o bastante para
que Sílvia o chutasse, causasse sua queda e fugisse das garras de um homem
sórdido e descontrolado.
— O que você
fez?! — revoltado, o empresário avançou contra a ruiva, pegou-a pelos cabelos e
encarou o profundo de seu olhar com prenúncio de ódio —. Nunca mais se meta em
meus negócios! — empurrou a parceira para trás.
— O que ia
fazer? — assustada, Elisa questionou —. O que ia fazer com aquela mulher?! —
insistiu —. O plano não era apenas assustar? Colocá-la em uma situação
impossível de sair?! Sei muito bem o que estava a ponto de fazer!
— Não, você não
sabe. Se realmente soubesse quais são os meus intentos não estaria me
interrogando dessa forma, apenas se aliaria a mim para que não corresse o risco
de se juntar aos derrotados — avisou.
A mulher
ambiciosa, destemida quanto aos seus sonhos, convicta a vencer qualquer
obstáculo, pela primeira vez sentiu medo, sentiu-se desamparada, parecia ouvir
as palavras de sua mãe para que não partisse, não assumisse riscos que a
destruiriam.
Não era mais o
momento de olhar para trás.
Precisava
avançar, seguir em frente, cruzar a linha de chegada.
Mesmo que para
tal tivesse que atropelar alguém.
— Mas eu sou sua
aliada, uma fiel servente, em quem pode confiar — aproximou-se de Rodolfo,
pegou em suas mãos, como se tivesse esquecido o que vira e ouvira o encarava
compreensiva, submissa, disposta a entendê-lo e segui-lo —. Sei quais são as
suas desavenças com os Rebelo, hoje descobri que aquela mulher o feriu
impiedosamente e tem toda a razão de lhe desejar o mal, mas não é sujando as
nossas mãos que conseguiremos alguma coisa, é ferindo as almas, tirando deles o
que mais amam e estimam, é assim que castigaremos quem nos deve!
— Está certa —
acariciou o rosto suave, apertou o queixo de Elisa e a trouxe para mais perto
—. Às vezes me descontrolo e não sei o que estou fazendo, não se importe e nem
se acanhe com isso, afinal, todos temos um momento de loucura — beijou-a.
∞
A culpa sempre
aparece, porém há momentos nos quais é necessário, ela precisa existir para que
nos arrependamos de algum equívoco e tornemos atrás em nossa posição, no
entanto, há vezes nas quais ela aparece inútil e perseguidoramente. Às vezes
nos culpamos por fatos alheios à nossa responsabilidade, culpamo-nos por coisas
que não dependeram de nós, apenas aconteceram.
Whesley se
culpava pela situação da irmã.
Mas não era sua
culpa.
— Eu deveria ter
sido cauteloso, prestado mais atenção, mas agi por impulso com o calor das
emoções que me oprimiam, precisava saber a verdade, era tudo o que queria,
acabei machucando outra vez alguém que já magoei antes — cheio de
ressentimentos, sentindo-se a causa de muitos males que aconteciam, Whesley não
conteve o choro abatido, desabafou com a mulher que amava silenciosamente, a
mulher que sabia ouvi-lo e apenas por isso lhe ajudava a se sentir melhor.
— Você pode ter
a responsabilidade sobre muitos fatos, mas tenho certeza de que quanto a isso é
completamente inocente, pode até se considerar mais uma vítima — Samara dirigia
seu olhar carinhoso ao homem que não deixava seus pensamentos, do qual, embora
não declarasse valentemente, adorava a companhia, a boa conversa, a amizade
recente que disfarçava um amor que ignorava as cerimônias do tempo, apenas
existia e persistia —. Ninguém tinha esse direito a não ser sua família,
somente os seus pais poderiam contar a verdade se assim desejassem, você não
pode se culpar pela falta de bom senso dos outros.
— É difícil... —
o choro contristado tomou força, tornava-se incontrolável —. Desde que cheguei,
disposto a concertar o presente, disposto a deixar o passado em seu lugar, tudo
o que enfrentei foram problemas insuperáveis, desafios altivos, nada parece dar
certo, talvez seja inútil desejar pela mudança, já não sei se o meu lugar é
aqui...
Depois de tanto
tempo sem encontrar alguém que balançasse seu coração, que lhe causasse os
tantos e intensos sintomas da paixão, que lhe despertasse um amor genuíno e
sincero, Samara não perderia a oportunidade de se permitir a um futuro no qual
teria família, alguém para chamar de querido
e abraçar todas as noites e também não permitiria que um cavalheiro de nobres
intenções desistisse da própria vida e sucumbisse à ilusão de que viver é um
fardo.
— Nem tudo tem
sido em vão... Bom, quero dizer, acredito que o que passou a existir entre nós,
essa amizade, seja algo positivo, algo que tenha agregado em nossos caminhos...
Naquele momento
o jovem empresário percebeu o quanto estava sendo injusto e ingrato ao
acreditar que nada o fazia feliz naquele propósito de transformação, tinha sim
seu lado bom, conquistara sim grande tesouro, passara a ter alguém com quem
conversar, alguém que não o julgava, alguém que se dispunha a auxiliá-lo.
Abriu, em meio
às lágrimas de lamentação, um discreto sorriso.
Encarou a bela
enfermeira.
— Perdoe-me, não
posso afirmar que apenas tenho motivos para desacreditar tendo comigo uma
pessoa tão especial, única, diferente de tantas outras — prestou a atenção nas
íris verdes, perdeu-se naquele olhar envolvente, passou pela sua mente o desejo
de acordar todas as manhãs contemplando tão belo olhar —. Agradeço por isso,
agradeço por acreditar em mim.
Contemplando o
reconhecimento de Whesley quanto ao que os envolvia, Samara se perdeu por
alguns segundos nos próprios devaneios, talvez não fosse tão ruim compartilhar
a cama, tomar o café da manhã conversando sobre os planos para o dia, chegar do
trabalho e ter quem a aguarda com ansiedade e amor, andar pelas ruas de mãos
dadas sorrindo à toa. Talvez não fosse tão ruim se de cada uma dessas cenas
Whesley fizesse parte.
O problema era
que sua vida possuía diferenças notáveis, não era simples como a de alguém que
acorda pela manhã, prepara-se para o trabalho, cumpre com suas obrigações e
volta para o aconchego do lar, para os braços de quem ama, para o carinho dos
filhos.
Sua vida era
diferente.
Até perigosa.
Viveria um
romance com quem admirava? Seria capaz de colocá-lo em destaque perante forças
ameaçadoras? Ao menos deveria ser sincera inteiramente se quisesse avançar no
relacionamento, se quisesse viver o que seu coração pulsava para que
acontecesse.
Deveria dar ao
rapaz o direito de escolha.
— Whesley, as
pessoas guardam segredos, alguns são fúteis, bobos, mas há aqueles que custam
vidas — percebeu o estranhamento na face do ouvinte —. Não me apresentei como
deveria e nem revelei qual é a verdadeira vida que possuo — encarou-o
seriamente —. Eu sei quem machucou a sua irmã, vai muito além do acidente.
Continua...
No próximo
capítulo:
— Confio em você, não para lutar
ao meu lado nessa hora decisiva, mas para continuar o nosso trabalho — abraçou
aquela que orgulhosamente vira crescer —. Seja forte, nunca se esqueça do nosso
propósito, não deixe de acreditar em seu potencial. Se eu não puder mais
caminhar, caminhe por mim! — beijou a face da garota, ainda jovem, prestes a
deixar a adolescência, mas com maturidade e coragem muito além de sua idade.
De segunda a
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