[WebLivro] Ambições - Capítulo 32 - Entre Irmãos


Capítulo 32 – Entre Irmãos

Estendido sobre o chão, o cadáver era rodeado pelo próprio sangue.
Sentado no que parecia ser seu trono, o Líder encarava a prisioneira.
Mantendo-se firme e ameaçadora, Acsa apontava a faca reluzente para aquele que despertava seus sentimentos mais rancorosos.
— Abaixe essa faca — o sujeito quebrou o silêncio, deu sua ordem.
— Exijo que me deixe partir em segurança! — a oriental não se intimidaria tão fácil.
— É uma pena que esteja agindo tão cegamente, está se deixando levar por emoções violentas capazes de dominar sua mente e colocá-la em situação irreversível — a voz do criminoso soava tranquila, com a serenidade necessária para convencer —. Ainda que me mate e arranque minha cabeça, este lugar está repleto de gente que pensa como eu, acha mesmo que sairia ilesa?
— Não se não mostrasse a força que possuo — Acsa vestiu no rosto um sorriso enigmático —. Não sou tão tola quanto pensa, exibir o seu pescoço como prêmio me faria ser temida e venerada pelos seus seguidores, matar o rei significaria que ninguém pode me enfrentar, tomaria seu lugar e destruiria seus planos insanos! — confessou o pensamento que tinha.
O Líder se sentiu terrivelmente ameaçado. Em todos os anos que esteve à frente do Sistema nunca viu seu poder ser cobiçado de maneira tão convicta, precisava acabar com aquilo antes que tomasse proporções insuportáveis.
Levantou-se.
— As pessoas se enganam, querida Acsa, as pessoas se iludem... Pensam ser fortes o bastante e depositam toda a confiança na força de seu braço, acabam errando ao se considerarem tão corajosas — em poucos e velozes passos se colocou à dianteira da oriental sem que ela percebesse —. E, então, caem! — empurrou a vítima sem qualquer sutileza.
A jovem mulher chocou-se contra a parede e não sustentou o corpo sobre as próprias pernas, sentia a dor do impacto.
— Pode ter sido fácil matar aquela mulher e divertido me enfrentar, tentar me amedrontar, mas nunca se esqueça de que a frágil estrutura humana sempre estará sujeita às consequências de suas escolhas — agachou-se perante a cativa, passou a acariciar seu rosto —. Deveria saber que é um perigo suicida pensar em me derrubar, é impossível, não posso ser vencido, mas posso vencer — permitiu que as lentes da máscara se abrissem e os olhos avermelhados fossem expostos —. A partir de hoje sua história me pertence! — dominou-a.
Acsa perdeu sua identidade, a própria essência, esqueceu-se da história que tinha, do futuro que almejava, esqueceu-se também daquele que amava.


Ainda na noite chuvosa, no meio da floresta deserta, uma senhora avançada em seus dias estacionou a carroça em frente ao túnel, apresentou-se aos escondidos, era a ajuda que precisavam.
Tendo as mulheres como apoio, fazendo o possível para suportar as dores que oprimiam seu corpo, Felipe caminhou sobre o chão molhado, fixou seus esforços por salvar a própria vida e ter condições de resgatar aquela que não deixava seu coração, aquela que lhe garantia forças para prosseguir.
— Vai ficar tudo bem... — acolhendo o rapaz em seu colo, Rute imaginou como estaria o filho, por certo crescera, tornara-se um homem, queria mais que tudo encarar os seus olhos e suplicar por perdão —. Prometo que terá a chance de se vingar!
— Agradeço por isso, por estar se arriscando dessa forma, por estar se esforçando em controlar os pensamentos, sei que não é fácil... — ainda que com dificuldade, enfrentando os embaraços da garganta, Felipe demonstrou gratidão, reconheceu que sem tal ajuda não sobreviveria.


Há males que atraem boas coisas, às vezes precisamos passar pela dor, pelo desespero, para que tenhamos a oportunidade de sorrir aliviados, de voltar a sonhar.
Whesley aproveitava a nova chance.
Entregava-se de coração ao que tão insistentemente desejou.
— Senti saudades... — naquela manhã ensolarada, acompanhando a irmã no ateliê que voltava a guardar pinturas inéditas e coloridas, o jovem empresário abriu o coração —. Enquanto estive fora senti falta das nossas conversas, senti falta da nossa infância, queria ter o poder de voltar no tempo, para quando éramos apenas duas crianças preocupadas em ser feliz.
— As coisas eram mais fáceis, estávamos protegidos da dura realidade que nos cercava, não compreendíamos a verdade — atenta em seus tracejos, Sofia aproveitava aquele momento para também declarar suas palavras, aquilo que sentia —. Mas a vida continua, crescemos, fomos pegos de surpresa...
— Como foram os últimos meses?
— Difíceis.
— Por que não respondia as minhas mensagens?
— Ficou um tempo sem mandá-las, pensei que já não se importasse e quando tornou a se manifestar preferi me proteger...
— Proteger-se?
— Dos meus próprios sentimentos... — interrompeu as pinceladas, levou as íris castanhas ao semblante atento do irmão —. Quando nos sentimos desprezados corremos atrás de outras atenções que nem sempre são as mais indicadas, mas que nos garantem a sensação de amparo... Aquelas pessoas me fizeram acreditar que não vale a pena confiar nos outros, não vale a pena cultivar afeto por quem nos rodeia já que sempre seremos decepcionados, frustrados, é melhor que confiemos apenas naqueles que sofreram o mesmo que nós.
— O mesmo que nós?
— Não se reuniam apenas pelas drogas, queriam alívio para as dores que sentiam, alívio que nos era prometido se fôssemos fiéis ao que nos ensinavam... — acolheu as mãos do irmão, depois de tanto tempo o tinha de volta —. Desde que apareceu senti minha alma clamar por perdão, via sinceridade no seu olhar, suas palavras não eram manipuladoras, existia verdade em cada gesto. Não é possível que pessoas boas não existam, não é possível que nunca possamos nos arrepender de nossas falhas, não é possível que devamos nos privar do amor para nunca mais sofrer — emocionada, com os olhos carregados pelo turbilhão de boas emoções que tomavam o seu ser, a jovem garota abraçou o nobre rapaz, aconchegou-se a ele, finalmente a distância que os impedia de serem felizes já não existia —. Você me salvou de sucumbir a um mundo sem amor, o único sentimento capaz de salvar as pessoas!
Whesley também não conteve a emoção e nem poupou o suave choro de felicidade, não salvara apenas, fora salvo.
— Quem são essas pessoas que prometem alívio?
— Não entendi ao certo — pegou um desenho em especial —, sei que o propósito deles é grandioso e esse é quem os governa — mostrou o sujeito mascarado.
O rapaz se lembrou da revelação de Samara, das forças ocultas que trabalhavam contra a humanidade e que possuíam poder devastador.
— Posso ficar com isso?
— Pode — achou estranho —, afinal, essa imagem não me garante outra coisa se não horror.
— Imagino... Mas fez bem por dar voz ao coração e permanecer em sua crença quanto ao amor, através dele alcançamos remissão, temos a sorte de corrigir nossos erros.
— Também há uma pessoa que me ajudou a não me render tão facilmente, foi por causa dele que teve tempo de me encontrar ainda disposta a viver... É um amigo especial, alguém que faz a diferença, mas que mora longe, nosso contato se dá apenas pela internet, ainda assim tenho vontade de conhecê-lo pessoalmente.
— Tem certeza de que é alguém confiável?
— Não comece com sua mania de proteção — lançou um sorriso nostálgico, o mesmo de tempos atrás, quando as provocações em tom de brincadeira nunca tinham fim —. Fique tranquilo, é um alguém de boas intenções, que ama a família, seu único defeito é ser orgulhoso demais para receber ajuda.
— Ajuda?
— Ele é humilde, já o convidei para vir até aqui, sugeri que o ajudaria, mas reusou...
— Um amigo? — lançou seu inconfundível olhar de maiores suspeitas.
— Não somos como você e Samara, somos amigos de fato — revelou que imaginava bem mais do que sabiam.
— O que quer dizer com “eu e Samara”?
— Percebi o jeito como se olham, talvez não queiram confessar, mas estão apaixonados...
— Acha que ela gosta de mim? — não escondeu o interesse.
— Tanto quanto você gosta dela — não perdeu a oportunidade de constranger o querido irmão.
— Tudo bem, Sofia, fique tranquila, darei um jeito de trazer o seu amigo — mudando de assunto, Whesley se levantou —. Até lá, contente-se comigo — divertido, beijou a face da irmã.
— Não tenha medo de se permitir ao que deseja, para quê perder tempo quando já se sabe o final da história? — aconselhou torcendo para que suas palavras fizessem efeito no confuso coração, queria que o jovem rapaz fosse realmente feliz.

Descendo as escadas da mansão, refletindo sobre as palavras de Sofia e pensando no que fazer, Whesley se deparou com o pai, não sabia o que falar, se o cumprimentava ou se seguia seu caminho, com aquele homem nunca era possível ter uma conversa saudável e equilibrada.
— Filho...
— Governador...


Continua...

No próximo capítulo:

— Whesley... — Samara pensou em fugir, correr do que sentia pelo rapaz, escapar de futuras dores que possivelmente a afligiriam, mas desistiu, desistiu da própria missão, daria ouvidos à ordem do Líder, ao menos viveria o que sempre almejou.

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