[WebLivro] Ambições - Capítulo 30 - "A Luz Sou Eu!"


Capítulo 30 – “A luz sou eu!”

Sempre irônico, zombando das mais improváveis investidas de seus adversários, Rodolfo fechou a porta, sugeriu que o visitante o aguardasse na sala de estar enquanto se arrumava, não deixou de exibir o sorriso provocativo.
Voltou com duas taças de vinho em mãos.
Ofereceu uma delas ao governador.
— Já disse que minha vinda até aqui não é por cortesia, quero explicações, quero ouvir quais desculpas tem a dar por ter se intrometido em assuntos alheios — Cícero, incomodado com a situação, queria brevidade, não via a hora de sair dali.
— Caro amigo, segredos são construídos por todos nós na falsa esperança de que eles ficarão guardados para sempre, o problema é que o para sempre não existe — sentou-se na poltrona de frente para Cícero —. De um jeito ou de outro eles vazam, são revelados, nem sempre podemos evitar e quando damos conta, falamos demais! — tomou um gole da bebida —. Se agi errado peço o seu perdão, tomarei cuidado para que não repita esse erro desagradável – o tom de voz demonstrava a ironia, não proferia palavras sinceras, zombava daquele que o cobrava.
— Deve estar se divertindo com tudo isso, gargalhando às nossas custas, saboreando o sórdido sabor que a traição garante àqueles que não cumprem com seus compromissos, mas esse circo não tem me agradado em aspecto algum — recusou-se a tomar o vinho, repousou a taça sobre a mesinha ao lado —. A partir de hoje não preciso mais dos seus serviços e sua participação no meu governo é completamente dispensável — levantou-se em postura firme —. Agradeça pela minha misericórdia, os pensamentos que me perseguem contra você são extremamente dolorosos.
— Não, governador, não é misericórdia, é medo, é covardia — cruzou as pernas e repousou as costas no encosto da poltrona —. Talvez quisesse me denunciar, revelar à polícia que tenho um esquema altamente ilegal ou até mesmo, em um ato ousado, me acusar de ter matado o governador Fernando, mas não fará isso, não fará porque sabe que tem participação nos meus crimes, teve conhecimento dos meus passos e não me denunciou antes, além de ser cúmplice foi o verdadeiro autor do crime que assombrou esse Estado — seus olhos não vacilavam, fixavam-se sobre Cícero —. Não é misericórdia, governador, é falta de coragem!
— Quero que se afaste de mim — retrucou simples.
— Caso contrário?
— Talvez esteja disposto a pagar pelos meus erros e levar todos que devem juntamente a mim! — não demonstrou insegurança, tinha certeza quanto à arma que usaria para não ser dominado por mais um inimigo.
— Tudo bem, amizades vêm e amizades vão, já estou acostumado... Mas os segredos ainda não acabaram, aconselho que abra os seus olhos, pode estar abrigando o algoz dentro do seu próprio lar...
O governador partiu.
Não se dispôs a ouvir as astúcias de alguém que se mostrara um verdadeiro traiçoeiro.

— Não acredito que perdeu a discussão, pensei que fosse mais persuasivo em seus discursos — aguardando Cícero partir, Elisa desceu as escadas, sentou-se no colo de seu amante, beijou-o docemente.
— Ele precisa acreditar que estou longe, que não temos mais laços, seu caminho estará mais fácil para chegar até Whesley — embriaga-se pelo perfume que exalava do corpo de sua aliada, verdadeira servente.
— Acha que vai dar certo?
— É sua obrigação fazer dar certo...


[Alguns dias mais tarde]

Rute observava o jovem casal com grande atenção, procurava pelo menor dos defeitos nas vestimentas que usavam, seriam avaliados pelo Líder e deveriam estar perfeitamente apresentáveis para o aguardado momento.
— O que farão com a gente? — apreensiva, sedenta por respostas, desejosa por escapes, Acsa questionou.
— Não se desespere, não permitirei que lhe façam o mal – compreensivo e cuidadoso, Felipe uniu os dedos, tentou oferecer a segurança de que a namorada necessitava, fez uma promessa que não sabia se conseguiria cumprir.
Rute permanecia em silêncio.
— Não tenho tanta certeza, aliás, não consigo acreditar que sairemos daqui como somos, conhecendo-nos, conhecendo a história que até aqui escrevemos — seus olhos castanhos não brilhavam há algum tempo, suas palavras eram de rendição ao tormento —. Não sei se será possível, mas peço para que nunca esqueça o que representei para você.
— Nunca esqueceria da única capaz de me fazer feliz, de mudar meus horizontes, de fazer meus passos serem melhores — o jovem rapaz, repleto de amor, custava compreender a gravidade da situação, talvez não quisesse sucumbir ao desespero e perder as limitadas forças —. Nunca deixarei de amá-la! — beijou a namorada com paixão, como se fosse a última vez, como se tal gesto os salvasse do tormento.
Rute permanecia em silêncio.
— Por que não luta contra isso que está dentro de você? Sei que pode me ouvir, sei que ainda há uma luz pronta para incendiar sua mente, precisa se esforçar — Felipe dirigiu as palavras à mulher alienada, aprisionada pelos desejos sórdidos do dominador —. Deveria ao menos lutar pelo seu filho. Acha mesmo que aquele homem cumprirá com o que prometeu? Ele é um astuto manipulador, duvido que mova um dedo ao seu favor, mas se nos ajudar prometo que farei o possível para que Samuel volte aos seus braços — lembrou-se do importante nome.
A mulher abaixou os olhos.
Começou a chorar.
Ergueu a cabeça.
— Hoje é o dia que ele decidirá o que fazer, se escravizá-los ou aliená-los, precisam fugir! — anunciou.
— Mas como? Estamos presos nesse lugar! — Acsa indagou.
— Não sei por quanto tempo estarei consciente, mas sejam espertos, há túneis que levam para a floresta, precisam alcançá-los.
— Tem ideia de como podemos fazer isso? — o rapaz perguntou.
— Trarei roupas de guardas. Se eu não voltar em cinco minutos procurem pelos túneis. Sejam espertos!
Rute, decidida a salvar dois jovens apaixonados, incrivelmente corajosos e dispostos a alcançar liberdade, deixou a porta do quarto aberta, caminhou apressada pelos corredores do ambiente, repetiu o nome de Samuel diversas vezes, lembrava-se do rosto infantil, dos primeiros passos, das primeiras palavras que soaram suaves, tudo aquilo enchia seu coração de puros e intensos sentimentos, era o que a ajudava a se libertar da escuridão.
Perto de encerrar os cinco minutos, certa de que ninguém vigiou os seus passos, a boa mulher voltou ao casal, ofereceu as roupas, o disfarce de que precisavam.
— Sigam-me, levá-los-ei até os túneis, de lá sigam reto, não virem em momento algum, quando a luz aparecer é sinal de que estarão próximos do fim...
Acataram as recomendações.
Passaram pelos vigias com grande facilidade.
Ninguém os interrompeu.
Despediram-se de Rute, prometeram não se esquecer de sua bravura.
De mãos dadas, guiados por lanternas, prosseguiram em seus passos.
Mas o medo parecia imperar naquele lugar, o sentimento de ameaças iminentes faziam seus corações pulsarem agitados. Ainda que tentassem ignorar, desprezar os pensamentos pessimistas, não conseguiam conter as lágrimas involuntárias que rolavam por seus rostos.
Permaneceram na marcha.
Até que um deles não mais suportou a opressão.
Felipe se agachou, escondeu a cabeça atrás das pernas e como um menino indefeso derramava seu choro, suplicava por socorro, para que alguém o ajudasse, toda a coragem de antes se esvaíra de seu ser, restara-lhe apenas o desespero.
Resistente a todo o descomunal pavor que pelos túneis vagueava, Acsa se abaixou, enquanto pranteava envolveu o namorado em um abraço protetor, acariciava seu rosto, alisava seus cabelos, procurava confortá-lo.
— Eu sei que é difícil, eu sei que o medo de perder quem amamos é insuportável, mas precisamos acreditar que aconteça o que tiver que acontecer estaremos eternamente dentro dos corações que conquistamos! — beijou-o sedenta pelo seu amor —. Agora vamos, preciso de você, preciso da sua força para sobreviver!
O jovem rapaz se levantou.
As mãos foram firmemente unidas.
Correram em direção à luz.

Mas já os aguardavam.
Armas lhes eram dirigidas.
— Pensaram mesmo que seriam espertos o bastante? — o Líder os recebeu —. Eis que a luz sou eu!


Continua...

No próximo capítulo:

— Não pode falar pelos outros a partir do que fizeram ao seu lado! — sentindo as dores das pancadas, mantendo os olhos fechados e se contorcendo sobre o chão, Felipe não deixou de confessar a fé que possuía no ser humano —. Há quem se alimente do mal, mas também existe quem se encha do bem. Que culpa temos de você ter se aliado a quem só possui maldade a oferecer? Precisa escolher melhor suas companhias se é que ainda há jeito para a sua solidão...

De segunda a sexta, aqui no blog!

Livros gratuitos:

Encontre o blog pelas redes sociais:

Obrigado pela companhia, um forte abraço e até logo!

Comentários

Mensagens populares deste blogue

[Conto] Vazias de Amor

[Conto] Homens de Paz

[Conto] Fascínio Coibido