[WebLivro] Ambições - Capítulo 34 - Negociando com o Inimigo


Capítulo 34 – Negociando com o Inimigo

O jantar aconteceu.
Na mesa o prato principal parecia ser um indigesto e insípido silêncio, poucas eram as palavras trocadas, marido e mulher já não tinham o que conversar, os irmãos acharam confuso no que deveria ser um jantar em família ter a participação de uma desconhecida, convidada de Cícero, para Sílvia sua amante, para Whesley uma oportunista.
Mas o jovem empresário não teve escolha.
Foi obrigado e, por educação, aceitou conversar com Elisa, ouvir sua proposta, mesmo que não tivesse intenção de aceitá-la.

— Por que trouxe essa garota? — Sílvia questionou ao esposo —. Anunciou que teríamos um momento para resolvermos nosso passado e tudo que realmente tivemos foi um ambiente constrangedor.
— A moda agora não é ser a boa arrependida mãe? — Cícero tirava os sapatos, suas palavras soavam irônicas —. Talvez eu queira participar desse teatro e ser o bom pai. Whesley perderá um ótimo negócio se não firmar parceria com essa moça, ao menos tal culpa não levarei... — sentado sobre a cama desabotoou a camisa, tirou a gravata, parecia se preparar para uma noite de descanso.
— Não estamos participando de um teatro, mas não importa, é inútil tentar te mostrar que erramos e que nossos filhos estão nos dando a oportunidade de corrigirmos isso...
— Corrigir o quê? — o governador encarou a esposa como se exigisse explicações —. A vida de conforto que tiveram? Os luxos que nunca faltaram? Ou a falta de sermões para que não crescessem feitos uns ingratos?
Sílvia preferiu não responder, todos os últimos acontecimentos eram mais do que suficientes para que as mentes se abrissem e os corações se dispusessem ao recomeço, se o marido não pensava assim ela lavaria as mãos.
— Não vai se despedir de sua convidada?
— Não há necessidade. Não é por minha causa que está aqui.
— Faz ideia de quem ela é? Até poucos dias a vi com Rodolfo, vai mesmo acreditar no papinho de que não estão mais juntos? Não sabe com quem está se metendo, mas eu jamais permitirei que Whesley sofra.
— Você e seus exageros... — arrumando a cama, deixando-a confortável para seu corpo, Cícero se deitou —. Se não for agir como a esposa que deveria ser e me fazer companhia, peço que se retire, amanhã o dia será longo...
— Há mais uma coisa que quero dizer... — a primeira-dama sucumbiu a poucos segundos de silêncio, refletiu sobre a declaração que faria, sua decisão mudaria o rumo da história e o resultado ela não imaginava.
— Estou ouvindo...
— Vamos nos separar. Quero o divórcio.
“Mas os segredos ainda não acabaram, aconselho que abra os seus olhos, pode estar abrigando o algoz dentro do seu próprio lar”.
Ao ouvir palavras que jamais pensou ouvir, Cícero se recordou da mensagem de Rodolfo, do enigmático aviso que lhe dera, parecia a anunciação do que naquele momento vivia.
— Eu não entendi muito bem... — o governador se sentou, seu olhar antes desinteressado agora era capaz de intimidar, denunciava aquilo que controlava suas emoções.
— Não torne as coisas complicadas e nem se faça de um garoto birrento, não vivemos como antes, já nem conseguimos criar um diálogo, não há mais no que insistir, não há chances para isso e eu quero estar livre.
— Livre para quê? — o homem de grandes poderes se colocou em pé, agarrou um dos braços de Sílvia, segurava-o com força —. Para viver sordidamente? Quem é o seu amante?
— Cícero, pare com isso, pare de falar bobagens...
— Responda, Sílvia! Com quem está me traindo?! — aumentou o tom de voz —. Eu já deveria imaginar que era feito de burro, de tonto, para que se afastasse de mim da forma como fez só poderia estar se envolvendo com algum desprezível... Quem é ele?
— Não queira culpar os outros pela sua incapacidade! — a mulher tentava se libertar das mãos de seu opressor, em vão —. Entre nós nunca existiu amor, sabe que nosso casamento foi construído em cima de acordos, mal nos conhecíamos quando passivos e controlados respondemos aquele maldito sim, isso nunca deu certo e pessoas sofreram, mas chegou a hora de aceitarmos que não dá mais, nossa história termina aqui!
Feito alguém insano, o governador lançou a esposa sobre a cama.
Um disparo.


Pouco antes dos pais entrarem em confronto, Whesley levou Elisa para o jardim da mansão, onde existia uma bela, florida e cheirosa diversidade de plantas, onde um luxuoso chafariz tornava o ambiente ainda mais propício para um momento de paz, reflexão e conversa com pessoas queridas.
— É lindo... — a modelo não escondeu a admiração.
— É mesmo... — tímido, propondo a si mesmo que tornaria o diálogo mais fácil e assim se livraria logo da visitante, o jovem rapaz respondeu —. Quando criança costumava ficar aqui, é inspirador.
— Era inspirador ao quê?
— Nada demais... Então está aqui atrás de negócios?
— Não pense que sou uma interesseira descontrolada, mas sim, sei quando posso ser extremamente útil a parceiros que também têm o que me oferecer.
— E se caso a contratasse, o que acha que posso ofertar?
— Trabalhar para você me abriria outras tantas possibilidades, seria notada...
— Pensei que Rodolfo a faria famosa.
Silêncio.
“— É uma emboscada, ele quer que termine se rendendo e acabe lhe dando pistas de que ainda estamos juntos... Diga que sou um aproveitador perverso, que ele estava certo e que antes que se tornasse mais uma de minhas vítimas preferiu fugir... Diga que aprendeu de uma forma rude a me odiar... Precisamos tocar em seus sentimentos se quisermos vencer essa batalha” — Rodolfo passou as instruções.
— Que forma rude foi essa?
A ruiva vestiu um semblante desolado, como se a resposta pudesse perdurar seu coração, como se as lembranças fossem repulsivas demais para que a todo instante as vivesse.
— Não precisa responder... — Whesley possuía um coração cheio de empatia, imaginar a quais sofrimentos a mulher se submetera o enojou, não conteve o impulso de acolher suas mãos em um gesto de compreensão —. No mundo dos negócios às vezes nos cegamos, fechamos os olhos e apenas caminhamos aonde o vento nos leva, aonde dizem que ascenderemos, precisa ter cuidado, não pode confiar em qualquer proposta.
— Obrigado... Não sabe como é importante ouvir isso — levou as íris azuladas de encontro ao olhar atencioso, seu coração balançou diferente, até aquele momento não percebera a beleza que os olhos castanhos detinham —. É por isso que estou aqui. Alguém tão doce, disposto a ouvir o outro, seria incapaz de causar dores em seu semelhante, preciso que me dê essa oportunidade — suplicou.
— Elisa... — ele não via talento na candidata, não possuía o perfil que sua empresa procurava, mas sentiu pena, acreditou nas palavras de Elisa e se condoeu, não conseguiria negar ajuda a quem pedia —. Tudo bem, espero que tenhamos uma boa relação...
— Você não sabe o quanto me deixa feliz! — abraçou o rapaz com entusiasmo —. Farei o possível para que não se arrependa!
— Sei que fará... — afastando-se desconcertadamente, o jovem empresário demonstrou confiança, mas não era o que sentia, pelo menos não o acusariam de negar auxílio a quem implorou.
“— Diga que sua namorada é alguém de sorte”.
Whesley refletiu, embora o primeiro beijo tivesse acontecido o pedido formal não fora realizado, não sabia se namorava.
— Talvez...
— Como talvez? Alguém charmoso como você não pode estar solteiro...
— Não sei se estamos de fato namorando... — retraído, desviou o olhar, lembrar de Samara desenhava em seu rosto um reluzente sorriso.
“— Agora pegue sua mão, encare-o nos olhos e afirme que ele merece alguém que o faça feliz todos os dias, que não deveriam existir dúvidas, ele merece muito amor”.
Submissa, Elisa recitou as palavras.
O rapaz não soube o que dizer.

O disparo.
Saíram apressados.


Alguém que se sente traído é capaz de ações impensáveis, é tomado pela ira, pelo ódio, pela raiva de ter sido trapaceado, perde a razão e decide que resolverá as coisas em seus próprios termos. A traição, ou a simples sensação de que ela exista, é capaz de graves destruições.
Cícero encarava a cama atônito, não conseguia revelar seus pensamentos, não conseguia formular frases que expressassem o que sentia. Era um homem temido. Ninguém ousara o trair antes e nos últimos dias fora afrontado por quem mais confiava e agora descobria que Sílvia o poderia ter enganado.
Irava-se.
Whesley, Sofia e Elisa adentraram o cômodo.
Olhos assustados.


Continua...

No próximo capítulo:

— Foi quando conheceu o mar — Whesley se sentou ao seu lado, revisitou o agradável dia —. No começo teve medo, não se sentiu tão confortável, mas ofereci que subisse nas minhas costas, disse que seria os seus pés, você me ouviu, aceitou e, quando estava distraída demais com as piadas que fazia, perdeu o medo, permitiu que as águas mergulhassem seu corpo — o rapaz abriu um sorriso nostálgico —. Foi a irmã que sempre quis ter...

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