[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 01 - Atração Irresistível


Capítulo 01 – Atração Irresistível

20 anos antes

Enquanto muitos se reviravam em suas camas à procura do sono, Frederico Albuquerque, acompanhado pelo lampião que iluminava seu quarto, sentado na cama que em poucas horas já não contaria apenas com sua presença, conferia os números do último balanço levantado, o barão da província de São Pedro era o homem mais rico da região, orgulhava-se por isso, orgulhava-se também da fama feroz relacionada ao seu nome.
— Senhor, seu café — a escrava entrou curvada, todos veneravam o sujeito, temiam suas ordens, respeitavam seu poder.
— Deixe aqui — sem tirar os olhos dos papéis recheados de números grandiosos, o barão apontou para o suporte ao seu lado, às vezes nem falava, os gestos que fazia eram reconhecidos por seus subordinados —. Espere! — percebeu que a mulher se retirava, fez questão de interromper os seus passos, não permitiria que partisse, não naquela noite —. Chegue mais perto — colocou de lado os documentos, tirou os óculos, encarou a escrava.
Adelaide sentia medo pelo que poderia lhe acontecer todas as vezes que se apresentava diante Frederico, suas entranhas se contorciam, sua alma era atormentada, enojava-se pelos cruéis pensamentos que subiam à sua mente.
— Eu disse mais perto!
— Senhor... — a voz soou abalada, denunciou o coração descompassado.
— Não permiti que falasse — levando o indicador aos lábios da mulher, encerrou suas palavras, apenas ele teria o direito de discursar —. É uma noite especial, deve saber que amanhã por esse horário já não estarei solitário nessa cama tão imensa, mas talvez não esteja disposto a passar as próximas horas imaginando incansável como será o grande dia, não gosto de pensar por muito tempo em apenas uma coisa, preciso de distrações — o homem de voz grave levou a mão pesada ao braço da escrava, apalpou-a, puxou-a para mais perto —. Deite-se.
— Senhor... — Adelaide, fazendo o possível para que as lágrimas não fossem expostas, tentou mais uma vez ser ouvida, lutaria pela sua dignidade, ao menos tentaria proteger-se.
— Apenas ouça e execute! — irritado, o barão ofereceu agressão ao rosto da mulher, provocou a ruptura de barreiras que insistiam por se manter em pé, contemplou as lágrimas rolarem pelo rosto assustado —. Sabe que não pode me resistir, então por que tentar? — levou os lábios indesejáveis ao pescoço de Adelaide, depositava ali os beijos que provocavam náuseas —. Deite-se comigo, quero que seja minha distração!
A escrava que há tanto ouvira sobre as perversões de seu senhor, pela primeira vez as experimentava, sentia-se humilhada, oprimida, sentia-se encurralada diante um indivíduo tão impiedoso.
Sendo atraída para a cama empurrou o barão.
Encarou-o surpresa e assustada pelo próprio gesto.
— Deite-se! — mantendo a voz baixa, fazendo soar com gravidade cada palavra, Frederico a observava com raiva, ira, com o desejo que repudiava —. Não me importarei em colocá-la no tronco, conceder-lhe a surra que jamais esquecerá e deixá-la amarrada pelo máximo de dias que possa suportar! — ameaçou seguramente.
— Mas senhor... — o choro a venceu, era desesperado, um choro que implorava por compaixão.
— Já chega! — agarrando a pobre escrava, jogou-a contra a cama que dividiria com a futura esposa, colocou-se sobre a mulher, consumiria ali seus sórdidos, tenebrosos e repulsivos intentos.

¤

As estrelas conhecem infinitas confissões, sabem inúmeros pensamentos, guardam incontáveis segredos e ouvem incalculáveis desabafos. Elas também inspiram poetas, aquecem os apaixonados e iluminam os caminhos de pessoas românticas, fornecem a luz para que muitos consigam clarear a própria caminhada.
Da janela de seu quarto, conversando com as estrelas, Laís permitiu que finas lágrimas saltassem de seus olhos, percorressem calmamente pelo seu rosto e caíssem sobre os dedos entrelaçados. Sua alma ardia em chamas invisíveis, chamas que a consumiam, que diminuíam o pouco de esperança que ainda possuía.
Estava fadada a um futuro obscuro. Condenada a dias de infelicidade.
Aos vinte anos de idade, com tantos sonhos vivos, com tantos planos construídos, precisou apagar a imagem que tinha sobre o porvir, seu destino fora cruelmente determinado, tão logo o sol raiasse o livro da sua vida entraria no mais indesejável dos capítulos.
Casar-se-ia com o barão de São Pedro.
Mas não o amava, não sentia pelo homem de fama assustadora nem o menor dos afetos, nem o mais simples dos sentimentos, não sentia pelo futuro e malquisto marido o que sentia pelo amado e eterno homem que enlaçara seu coração de uma maneira que nenhum outro poderia fazer.
O homem que no meio da madrugada subiu as grades, encontrou-a pensativa na varanda, não hesitou em beijá-la com todo o amor que sentia no peito.
Eles se amaram desde o primeiro momento que tiveram seus caminhos cruzados, dali em diante se tornaram parte um do outro, entregaram-se destemidos um ao outro até que precisaram enfrentar uma verdade para a qual jamais se preparariam: a donzela estava prometida ao rico e temido barão.
Por pouco tempo se evitaram, acreditaram que seria melhor, que a distância seria uma aliada para que o sofrimento fosse suportado. Enganaram-se grandemente. A dor era na alma, não existia remédio que pudesse curá-la, a não ser o amor que cultivavam.
— Heitor... — sentindo os afagos do namorado sobre sua pele, fechando os olhos na intenção de experimentar cada segundo dos toques sutis daquele que muito amava, Laís insistiu no mínimo de sobriedade que lhe restava, afastou-se de seu único amante, estava ofegante.
Distanciado da mulher que o desequilibrava, que invadia seus sonhos e não o deixava se quer um instante, Heitor dirigiu o olhar ardente à inofensiva mulher, desejava-a, precisava tê-la entre seus dedos, presenteá-la com a força de seu sincero e imutável amor. Mas permaneceu imóvel. Não queria desrespeitá-la, apenas amá-la.
Mas os corpos se atraíram como imã.
Não há sobriedade que resista ao amor.
Não há força capaz de abater a paixão.
Os lábios quentes se selaram sedentos, as mãos agitadas passeavam pelos corpos que ansiavam por aquele momento de puro êxtase e satisfação. Renderam-se a uma noite de prazer, talvez a única que viveriam.

Consumado o amor que os marcava profundamente, o jovem casal manteve-se abraçado sobre a cama que testemunhara a sinceridade das palavras afetuosas que um dirigia ao outro. Estavam cansados. Estavam sedentos por mais daquele momento. Estavam desesperados pela certeza que gritava aos seus ouvidos: jamais seriam livres para que se amassem.
— O que farei longe da mulher que me provoca tanta loucura? — sussurrando, Heitor fez sua indagação ao pé do ouvido de Laís, ninguém poderia desconfiar do que acontecera, jamais poderiam saber.
— Não sei como será, apenas suplico para que tenhamos a chance de derrotarmos nossos inimigos e desfrutarmos de nossa vitória! — os olhos que mais pareciam gotas de mel ergueram-se a fim de contemplar o mais perfeito dos rostos fracamente iluminado pela luz do luar que atravessava a entrada da varanda —. Jamais deixarei de amá-lo! — prometeu.
— Estaremos fisicamente distantes, longe, mas não se esqueça de que nossos corações batem um pelo outro! — o homem galanteador acariciou o rosto tranquilo, ofereceu consolo —. Não se esqueça também de que não desistirei do nosso amor!

¤

A igreja estava lotada.
Os convidados faziam silêncio a fim de escutarem as palavras do padre Miguel, o menor dos ruídos era motivo para reclamações.
Perante o religioso estava o casal prestes a firmar um compromisso sagrado, o compromisso que deveria ser realizado quando houvesse sinceridade, vontade, quando nada o ameaçasse. O padre sabia disso, sabia também que naquele casamento o que menos existia era a veracidade dos sentimentos, mas o que poderia fazer?
— Senhor Frederico Albuquerque, promete amar e respeitar sua esposa na saúde e na doença, na tristeza e na alegria, na pobreza e na riqueza até que a morte os separe? — conhecia as atrocidades daquele homem, repudiava-o grandemente e tinha certeza de que sua resposta esconderia as reais intenções.
— Sim — respondeu simples, sem qualquer emoção, não estava ali para festejar, apenas fazia cumprir um antigo acordo.
— Senhora Laís Oliveira, promete amar e respeitar seu marido na saúde e na doença, na tristeza e na alegria, na pobreza e na riqueza até que a morte os separe? — condoeu-se pela moça, conhecia seu coração, sabia que o amor que possuía era destinado ao rapaz que, apreensivo e controlando os próprios sentimentos, a tudo assistia no final do templo.
Olhando ao redor, Laís encontrou seu verdadeiro amante, seria por ele que responderia, poupá-lo-ia da morte mesmo que aquilo significasse render-se a um futuro de angústias.
— Sim...
— Então eu vos declaro marido e mulher!
Estava feito.

O prazer de um seria o tormento do outro.


##
No próximo capítulo:

— E eu não tolero perversões — foi firme em sua fala —. Talvez ele acredite que tenha se casado com uma donzela indefesa, amedrontada, disposta a seguir todas as suas ordens, contudo se enganou, aceitei esse inferno para proteger alguém que amo, não pretendo ser mais um objeto em suas mãos! — o discurso destemido espantou as serviçais, mas trouxe também esperança às suas almas descrentes, esperança de dias mais dignos.

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