[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 10 - Amores e Angústias


Capítulo 10 – Amores e Angústias

Ter alguém com quem dividir os segredos que muitos desalentos nos proporcionam é uma verdadeira e irrecusável dádiva, alivia nossas almas, garante-nos paz, conforto e segurança. Ainda mais quando não somos julgados ou condenados, quando somos compreendidos e aceitos, a escuta de alguém em muito pode nos ajudar.
Ana, submersa em um relacionamento ameaçador, entregue ao amor proibido que jamais conseguiria resistir, ligada intimamente a um coração que não pôde negar, possuía angústias, receios, preocupações quanto ao futuro: e se Artur desistisse daquela loucura? E se Artur se cansasse de tal privação e procurasse em outros olhares o abrigo para seus afetos? E se fossem descobertos? O que sofreriam? Qual o preço teriam que pagar? Questionamentos que a afligiam e que só não soterravam sua coragem por causa das boas palavras de Laís, sua sábia mãe.
— Entendo a dor que sente, é conhecedora da minha história, sabe que ao casar-me com seu pai meu coração pertencia a outro homem, o único que fui capaz de amar, aquele que me tirava o sono e ofertava intensa saudade... — ao anoitecer, despedindo-se da filha para mais uma noite de sono, a baronesa soube decifrar o semblante abatido, o olhar desesperançoso, o sinal de medo —. Mesmo sabendo de todos os riscos que existem, mesmo com todos os perigos que nos cercam, não posso desencorajá-la, não posso dizer para que desista do seu propósito, foi o que fiz, é pelo que me arrependo amargamente... — alisou o rosto que repousava em seu colo.
— Por que o amor tira tantas lágrimas dos nossos olhos? Como pode ser capaz de afligir nossas almas com tanta crueldade? Como pode se assemelhar à dor do ódio? — Ana queria estar ao lado do jovem escravo, queria amá-lo, queria gritar ao mundo que era a mais feliz das moças por ter um nobre cavalheiro como o amor de sua vida, queria protegê-lo, ajudá-lo, queria cuidar daquele que residia em seus intentos —. Não consigo entender porque me puniriam, porque perseguiriam a nós por apenas amarmos...
— Há muitas coisas que não conseguimos entender, cujas explicações parecem não existir, é complexo demais compreender a maldade que impera sobre uma sociedade que prefere a guerra ao amor... — refletiu sobre o passado, sobre o que vivera, se as coisas fossem diferentes não precisava manter uma vida escondida da luz —. Mas esse sentimento estarrecedor é potente, é capaz de abrir os mais apertados caminhos, é capaz de destruir todo e qualquer ódio. Se entre vocês o que existe é um sincero amor eu tenho certeza de que o viverão livremente!
— Sei que não ama o meu pai, nem mesmo sei o que sinto por um homem capaz de fazer sofrer aquele que mais amo, mas de onde tira toda essa crença? — sentou-se sobre a cama, encarou os olhos adocicados de Laís, o rosto que escondia as marcas profundas de uma alma privada do maior alimento —. Como pode ser tão romântica ao falar do sentimento que mais dores lhe causa?
— Sofrer por amor... — a mulher liberou um discreto sorriso —. Se esse fosse o único sofrimento pelo qual devêssemos passar jamais reclamaria. Sofro por amar, é verdade, a razão da minha angústia é o amor, haveria motivo mais nobre? Prefiro sentir esse amor devastador do que ser dominada por conceitos que me transformariam num monstro cruel e infeliz. Sei que algum dia terei a recompensa — não deixava de acreditar no amor porque ainda o vivia, ainda o tinha por entre os dedos, sobre os lençóis, debaixo de sua cabeça.
Aquela crença incondicional enchia Ana de esperança e paciência para suportar as adversidades, aguardar o tempo necessário, esperar pelo dia que viveria seu maior sonho.

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Até os mais fortes, aqueles que parecem ser os mais resistentes, os mais inatingíveis, os mais resolvidos em seus sentimentos, até mesmo eles acabam se rendendo a um instante de ansiedade, de descrença, ao instante no qual buscam aflitos por palavras animadoras.
Artur sempre fora completamente apaixonado por Ana. Quando crianças, brincando escondidos dos olhos maldosos, prometeu à melhor amiga que se casariam, teriam filhos e seriam muito felizes. Uma promessa firmada a partir da muita imaginação infantil, a partir da concepção lúdica de que o mundo é maravilhoso.
Já adolescente, cumprindo com as ordens determinadas, Artur percebeu que a promessa de tantos anos, gerada entre dois indivíduos tão imaturos e inocentes, carregava consigo a ânsia de seu espírito: amava a filha do barão e desejava fazê-la a mais feliz das mulheres.
Mas a ficha caiu e os vinte anos de idade lhe trouxeram infelizes dúvidas: como alcançaria seu objetivo? Como seria capaz de ter em suas mãos o coração da jovem mulher? Como era tão imprudente ao ponto de sonhar com as manhãs nas quais acordaria recebendo o belo sorriso da amada? E se tudo não passasse de ilusão? De insanidade? E se as coisas acabassem da forma mais trágica e devastadora possível?
— Sabe o que penso sobre esse namoro, sinto medo pela sua vida, temo que a perca simplesmente por amar, mas não posso ser tão cruel, não posso aconselhá-lo para que desista de seu sonho, seria infeliz, viveria uma vida incompleta, não pode se deixar abalar por tantas dúvidas, precisa acreditar naquilo que os atraiu — Adelaide, no meio da noite, sentada com o filho no lado de fora da senzala, abria seu coração, conseguia se colocar no lugar de Artur, sentir seu incômodo, passava a ter o ímpeto de aliviar suas angústias.
— Eu sei que é perigoso, sei que nossa história pode ter um desfecho fortemente desagradável, mas se já sinto a falta de Ana por passarmos um dia distantes o que sentiria se desistisse dela? — encarou as estrelas, suplicou nos pensamentos para que a liberdade os alcançasse, para que o amor os transportasse a um mundo de paz —. Desejo-a constantemente, desejo sua companhia, sua parceria, desejo ser o seu protetor...
— Parece o seu pai em nossas primeiras declarações de amor — Adelaide se lembrou do nobre Joaquim, do quanto o amava e do quanto por ele era amada, de tudo que significavam um ao outro, do quanto eram ligados —. Ele desejava por essas coisas, por ser o homem que me concederia alegrias inexprimíveis, e conseguiu, tornou-se um alguém inesquecível...
— Sente saudades? — esqueceu-se da sua dor, atentou-se aos sentimentos da mãe.
— Infinita saudade, uma saudade que arde e nunca se vai — os olhos lacrimejaram, o peito se apertou, sentiu os efeitos daquela distância impossível de encurtar entre ela e o seu único grande amor —. É por isso que não posso acovardá-lo, é por isso que com todas as ameaças não posso intimidá-lo. Em nome do amor vale todo o esforço, toda a luta, vale toda a energia que investimos por apalpar nosso mais cobiçado tesouro.
Abraçando a querida mãe, tirando de seus olhos as lágrimas acumuladas, Artur se sentiu renovado, suportaria toda a aflição necessária para abraçar Ana e jamais ter que soltá-la.

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Negue quem quiser negar, duvide quem ousar duvidar, contraria quem atrever-se a contrariar, mas é impossível resistir ao amor sem sofrer, sem padecer, sem experimentar uma dor ardente e cruel. Podemos nos iludir acreditando que somos capazes de diminuir esse valoroso tesouro, enterrá-lo, a verdade é que ainda que não seja a nossa vontade nos encurvamos a ele.
Laís pensou ser possível se libertar de um amor antigo.
Heitor acreditou ser forte o bastante para lutar contra o amor.
Ambos fracassaram na tentativa de fugirem do que os unia.
Aproveitando a viagem do marido, momento que era envolta de paz por saber que estaria livre da indesejável presença do homem que repudiava, a baronesa pediu para que a levassem até a cidade tão logo o dia amanheceu, recomendou que a buscassem algumas horas mais tarde, justificou que tinha muito a fazer e amigas a visitar.
A verdade era outra.
Sua alma suplicava pelas dóceis palavras de Heitor.
Seu corpo necessitava de seus sutis afagos.
Ansiosa por reencontrar aquele que perdida e inconsequentemente amava, Laís bateu à porta da discreta casa, o homem querido a recebeu com um sorriso, não trocaram palavras, renderam-se ao beijo do qual por semanas foram privados.
Heitor recebeu a mulher com carinho, com paixão, com o imenso amor que por ela cultivava. Teve-a em seus braços, tocou-a com seus lábios, envolveu-se com seu romântico fascínio.
Amaram-se intensamente.

Laís não desacreditara no amor porque ainda o vivia, ainda o tinha por entre os dedos, sobre os lençóis, debaixo de sua cabeça. Estava deitada sobre o peito de Heitor, segurava-lhe a mão, desejava jamais soltá-la.
— E quanto mais o tempo passa, mais a desejo, mais a quero, como pode me deixar tão sedento dessa maneira? — respirando o suave aroma que exalava dos fios castanhos, o comerciante sentiu-se completo, estava com quem estimava.
— Não me preocupo em procurar palavras que possam expressar o tamanho do que sinto, ou que possam explicar a intensidade do que vivemos, preocupo-me apenas em experienciar os melhores momentos da minha vida, momentos que só aprecio estando contigo...
Renderam-se outra vez à paixão.
Fatal paixão.


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No próximo capítulo:

Ah, o amor! Essa palavra tão sutil, tão delicada, tão simples de pronunciar e tão difícil de entender o misto de sensações que oferece à fragilidade humana. Essa palavra que faz dos poetas verdadeiros mananciais de versejares inesgotáveis. Essa palavra que faz dos apaixonados sujeitos insanos e descontrolados, rendidos ao que de melhor pode existir num mundo tão agitado, enfadonho e ingrato.
Quem ama suporta as dores, as ânsias de angústia, os pensamentos de temor. Quem ama se faz forte para combater consigo mesmo, contra os próprios receios, para se permitir ao sentimento que dispensa descrições, definições, importa apenas que o sintam em cada alvorecer.


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