[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 14 - Prepotência



Capítulo 14 – Prepotência

A prepotência, por muito tempo, causou guerras, alimentou confrontos e fez despertar o caos. Por muito tempo, e ainda hoje, a prepotência vitimou populações, extinguiu culturas, dissipou povos. A prepotência é uma das mais desprezíveis características que um homem pode carregar no coração, ela motiva o egoísmo, busca pelo egocentrismo e despreza a humanidade que todos deveriam compartilhar por seus semelhantes. A prepotência causa dor e sofrimento.
Frederico era um homem prepotente.
Queria ter todas as coisas debaixo do seu controle.
Chegando de viagem, encontrando-se com aquele que na sua ausência ficava responsável pelo seguimento aos trabalhos na fazenda, o barão ouviu os relatos de Sebastião, descobriu a maneira como a filha protegeu o velho escravo e a forma como a esposa se dirigiu àquele que também usava o manto da prepotência. É claro que o sujeito poderoso não se agradou com as declarações e é claro que interrogaria as mulheres.
— E, então, ficarão me olhando com espanto ou responderão minha pergunta? — Frederico, após revelar o que sabia, sentiu-se incomodado pelo silêncio —. Não queiram inventar desculpas ou encontrar modos para escaparem, apenas respondam por qual motivo agiram como duas insolentes rebeldes!
— Não poderia contemplar um homem já velho, exausto pelo injusto trabalho, ser brutal e covardemente agredido sem me manifestar, sem defendê-lo! — nunca expôs seus pensamentos, jamais revelou que era contra o comportamento do pai e de seus serviçais, mas estava cansada de presenciar tantas atrocidades e, por medo, nada fazer. Ao invés de se revestir de prepotência, encobriu-se de valentia, começaria naquele momento sua luta —. Vocês almejam o quê? Que esses homens, que essas mulheres e até mesmo que as crianças trabalhem até caírem de joelhos sem a capacidade de se levantarem? São pessoas! Seres humanos! Quando perceberão isso?
Diante dos seus olhos, sem receios ou temores pelas palavras que declarava, Frederico viu uma jovem enlouquecida reproduzindo as falas dos rebeldes, daqueles que se uniam aos negros, que combatiam contra o sistema político em muito lucrativo, no mesmo tanto perverso. Enraiveceu-se. Sempre odiou os opositores, repudiou-os como se não passassem de vermes e agora, na maldita hora, descobria que a filha era como eles.
— Com quem tem andado? — questionou como um severo investigador.
— Não é necessário, para mim, andar com aqueles que pejorativamente chama de rebeldes para saber que estão certos, que lutam por justas causas, que condenam o que por si só é abominável! — encarou o pai com coragem, sem intimidações, sem preocupações, consciente do que fazia: assumia uma posição de luta, árdua luta.
— Sua filha perdeu o juízo, não acha? — dirigiu-se à Laís que, surpresa e assustada pelo discurso de Ana, não soube o que responder, quais palavras usar —. Então é isso o que pensa de mim? — voltou o olhar incrédulo à jovem moça —. Que não passo de um bruto covarde que sente prazer ao agredir esses negros imprestáveis?! — levantou-se —. Asseguro que está completamente certa, tenho a convicção de que esses subalternos servem para apenas uma coisa: trabalhar até a morte!
Ana se irou ao ouvir tão enojante declaração, revoltou-se em seu espírito pela prepotente fala que fora obrigada a escutar, seus olhos se avermelharam, as lágrimas que se ali se formaram não eram apenas de tristeza, mas de pena por conhecer um ser humano tão vazio na alma.
— Tente ouvir suas palavras e tente compreendê-las, se tiver o mínimo de inteligência necessária reconhecerá que seu discurso soa absurdo — não poupou forças na resposta provocadora —. Eles não são subalternos, ao contrário, aqueles que os escravizam não passam de medíocres com mentalidade subversiva! — manteve-se firme.
— Ana, se contenha... — reconhecendo o olhar aturdido do marido, Laís acolheu a mão daquela que gerara, encarou-a como se implorasse por compaixão, aconselhou sentindo o peito se apertar, ser oprimido, sentindo que as coisas poderiam tomar trágicos rumos.
— Conter-me? Consegue compreender a fala desse homem? Pode me explicar em quê suas atitudes se fundamentam para que possam ser justificadas? — o choro amargurado e frustrado não pôde mais ser contido —. Como posso me conter perante algo que arde dentro de mim? Que me distancia do sono? Que me faz almejar por um mundo diferente?!
— Se quiser continuar com a vida que tem, se quiser continuar com as regalias que possui, se realmente quiser permanecer em terras nas quais cresceu, sugiro que ouça sua mãe — Frederico dispensou sua recomendação —. Deve imaginar o quanto desprezo os rebeldes, se algum dia tiver o prazer de possuí-los em minhas mãos não hesitarei em tratá-los como escravos, mas quanto a você não poderia agir dessa forma, ficaria mal visto entre os parceiros, porém posso mandá-la para outro continente, posso afastá-la de ideais tão desestimulantes, terá que aprender a viver em terras nunca antes vistas. Não é apenas uma ameaça para que se comporte. É um aviso. Uma certeza. Não se meta naquilo que não suportaria!
Ser obrigada a partir? Ter que recomeçar sua história em outro lugar? Ficar separada da única pessoa que compreendia seus pensamentos e que se orgulhava de chamar de mãe? Estar distante do seu único, grande e insubstituível amor? Eram preços caros demais a se pagar, consequências desastrosas que precisaria experimentar, ao menos por enquanto optou pelo retorno ao silêncio.
— Com essa desagradável e malquista conversa posso alimentar uma certeza que há tempos me incomoda, está precisando de um marido que a controle — anunciou —. Já escolhi o seu esposo, em breves dias o conhecerá!
A declaração soou como um poderoso estrondo, um barulho ensurdecedor, capaz de destruir a mais sublime paz, soou como o anúncio de ferozes tempestades aos ouvidos de Ana que precisou ser forte, precisou ser firme, precisou de tolerância para evitar as lágrimas de desespero, mais que isso, para evitar as ásperas palavras que denunciariam sua negação perante o indesejável.
A passos desgovernados, saiu da presença do pai.
Laís, que conhecia os segredos da filha e o tamanho de seus sentimentos, ao ouvir o anúncio do marido voltou ao cruel passado, quando recebeu a mais desastrosa e angustiante notícia, quando foi simplesmente informada de que seria entregue a um homem que não amava, a um homem que se quer conhecia, a um homem que com o tempo não teve a sorte de aprender a amar, um homem que a cada manhã repudiava com maior força. Era capaz de sentir a dor de Ana, era capaz de medir a intensidade de suas angústias.
— Isso é mesmo necessário? — questionou ao barão.
— Quem pensa que é para me contestar? Já não basta a forma ousada com a qual confrontou Sebastião?
— Ele estava agredindo a nossa filha!
— Ela mereceu! — foi ríspido na inacreditável resposta —. Sugiro que prepare a sua filha para o futuro, pouco me importam os seus intentos, as suas vontades ou o que imagina, apenas quero que esteja pronta para o dia no qual será entregue ao homem que a possuirá!
Desnorteada, a baronesa saiu em silêncio.

Afligida por seu maior medo que parecia se aproximar a passos largos, Ana se refugiou em sua cama, deitou-se sobre a confortável estrutura, permitiu que as lágrimas escapassem. O que teria que fazer? Teria que se distanciar do único que lhe despertava o desejo por viver uma história de amor? Teria que desistir do único que esteve presente em seus sonhos para a vida de esposa que almejava? Aquilo era impossível. Não conseguia se enxergar realizando tantos planos com alguém que em nenhum palpitou, com quem nenhum construiu. Não conseguiria fazer morrer um amor que há muito existia.
Laís, indo de encontro àquela que passava pela mesma dor que ainda sentia, acolheu a jovem mulher, ofereceu o doce colo materno, dispensou seu compreensivo amor sobre aquela que chorava apavorada pela infelicidade que batia à porta. Conhecia aquele sentimento. Conhecia tamanho infortúnio.
— O que vou fazer?
— No passado, quando meus pais decidiram que era o momento para que me entregassem em casamento desconsiderando a opção que lhes apresentei, experimentei o mais amargo fel de toda a minha vida, ainda hoje sinto o seu sabor, ainda hoje sofro por ser privada de amar sem medo da felicidade — acariciava os cabelos castanhos, oferecia segurança em tal gesto —. Conheço essa amargura. Mas não tive quem me ajudasse, não tive quem me entendesse e não permitirei que a história se repita — beijou a face da amada filha —. É Artur que você ama. É com ele que será feliz. Eu prometo!

¤

Incomodado pela curiosidade de saber qual fora o escravo que ajudara Ana a se erguer ao ser derrubada por Sebastião, Frederico ordenou ao capataz que trouxesse o negro à sua presença, além de conhecê-lo queria alertá-lo.
Contemplou a face de Artur.
Indignou-se.
— Não acredito que mais uma vez teremos um percalço a superar, ou é só uma coincidência ou não passa de provocação. Qual das alternativas é a sua justificativa? — lançando as costas contra o encosto da cadeira atrás da mesa cheia de documentos, o barão indagou o jovem rapaz.
— Primeiro precisa me dizer por qual razão estou aqui — respondeu apreensivo, sabia que a menor palavra mal colocada resultaria em consequências dolorosas.
— Você tocou essas mãos nojentas na minha filha.
Artur se recordou do dia no qual quase perdera a compostura.
— Ela caiu. Pensei que estivéssemos aqui para servi-los — com as mãos para trás em um gesto de reverência à figura ameaçadora, o moço respondeu esperto.
— Quem a derrubou?
— Não faço denúncias.
— Eu perguntei quem a derrubou! — alçou a voz levantando-se.
— Sebastião — respondeu temeroso.
— Ele que a levantasse! — aproximou-se do escravo a passos vagarosos —. Não quero que toque em Ana, não quero que nem ao menos esteja no mesmo espaço que ela, se possível nem o nome dela pronuncie — encarou o rapaz diretamente nos olhos, confrontava-o com prepotência —. Fui claro?
— Sim, senhor.

— Conto com sua obediência — empurrou Artur com violência, viu-o caído aos seus pés, pisou em sua mão sentindo prazer pelo semblante de dor —. Sabe o que pode acontecer — deixou que Artur partisse com o gosto da humilhação.


##
No próximo capítulo:

Já era noite quando Rute despertou com os sentimentos de vergonha e culpa ao contemplar aquele que ao seu lado era envolto por sono profundo. Levantou-se cautelosamente relutando contra o choro insistente. Vestiu-se em meio ao breu do quarto iluminado por poucas velas. Sozinha, desamparada, correu pelas estradas desertas, correu como se fugisse da morte, fugia da humilhação que sentia.

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