[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 02 - Resistir ao Infortúnio


Capítulo 02 – Resistir ao Infortúnio

Tão logo a cerimônia se encerrou Laís foi guiada pelo marido até a carruagem que os aguardava em frente à igreja, não celebrariam a união, não participariam de nenhuma festa na qual receberiam felicitações, o barão era um homem que não se importava com aquilo que considerava distração e a nova baronesa de São Pedro também não sentia o mínimo de motivação para comemorar algo que a afligia, que em seu intento ardia, que fazia da luta contra as lágrimas uma complicada missão.
Ao virar a esquina que dava acesso à estrada até a fazenda, seus olhos marejados, tensos e obscuros, contemplaram a face abatida de Heitor que, de longe, aproveitava os últimos instantes nos quais teria a chance de encarar sua amada. O nobre cavalheiro, livre para expor suas emoções, permitiu que o choro molhasse seu rosto, gritasse ao mundo a dor que sentia por ver seu bem mais precioso ser levado como a água que escorre de nossos dedos.
Ainda que atordoada, aflita pelo futuro, angustiada pela vida que a esperava, Laís abriu um sorriso, dirigiu ao homem que jamais deixaria seus pensamentos o contorno sutil de seus lábios, as palavras não poderiam ser pronunciadas, a voz teve de ser abafada, mas através do sincero olhar a alma alçou feroz promessa: seu amor não era de mais ninguém, pertencia a Heitor.
Homem e mulher. Dois intensos amantes. Mergulhados numa paixão inconsequente, avassaladora, perigosa. Foram, enfim, distanciados, mas asseguravam em seus intentos que mais cedo ou mais tarde as distâncias se encurtariam, fariam isso acontecer, nem que fosse a última coisa que conseguissem fazer.

As porteiras vigiadas, confeccionadas a partir de madeira pesada, abriram-se tão logo a carruagem se aproximou. Atenta ao cenário do novo lar, Laís contemplou homens com semblante cansado, mulheres com olhar curioso e crianças sem esperança alguma no rosto.
Conhecia a realidade sobre a qual aquelas pessoas viviam, sabia que eram dura e cruelmente escravizadas, mas em silêncio firmava um compromisso astuto, nobre e fatal: se fosse para viver o pesadelo que sempre temeu ao menos lutaria por aqueles que eram silenciados, defenderia aqueles que tinham sua dignidade lançada por escabelo de seus pés.
Severo no trato para com os subordinados e conhecedor quanto ao clima que pairava sobre sua propriedade, Frederico exigiu que a carruagem parasse, desceu do veículo e ordenou que levassem Laís para a mansão a fim de que se preparasse para recebê-lo como seu marido. Acompanhando sua ordem ser cumprida, recebeu a companhia de Sebastião, seu braço-direito, o terror dos escravos.
— Algum problema?
— Adelaide e seu esposo tentaram fugir. Disseram muitas coisas contra o senhor, prometeram vingança.
— Estão no tronco?
— Como o recomendado.
— Reúna todos os negros, acho que estão se esquecendo de como as coisas funcionam e eu não me importarei em refrescar-lhes a memória!

Ao colocar os pés no casarão, Laís foi reverenciada pelas mulheres que se colocavam ao seu dispor, enquanto umas se preocupavam em organizar suas coisas, outras se atarefaram em apresentar os cômodos e guiá-la ao quarto que obrigatoriamente dividiria com o barão.
— Não quero que se acanhem com a minha presença, não precisam temer a mim, não sou como tantos que as atemorizam — anunciou às escravas, dirigia-lhes olhar de misericórdia, condoído pela precária situação que viviam.
— É melhor que nos trate como seu marido determinar, ele é um homem exigente, severo, não toleraria sua compaixão — uma das pobres mulheres aconselhou.
— E eu não tolero perversões — foi firme em sua fala —. Talvez ele acredite que tenha se casado com uma donzela indefesa, amedrontada, disposta a seguir todas as suas ordens, contudo se enganou, aceitei esse inferno para proteger alguém que amo, não pretendo ser mais um objeto em suas mãos! — o discurso destemido espantou as serviçais, mas trouxe também esperança às suas almas descrentes, esperança de dias mais dignos.
A sós em seus aposentos, com a mente voltada a Heitor e no desejo que pulsava no coração por estar ao seu lado eternamente, Laís caminhou pelo quarto de amplo espaço, avistou das janelas a beleza natural que rodeava a fazenda, uma beleza que escondia o tormento que ali imperava. Mas algo chamou sua atenção. Algo terrível. Algo que a desesperou.

O som das botinas prediziam a aproximação do homem temido, exigente, do homem que não aceitava rebeldias, desobediências, que repudiava ferozmente seus opositores. Silêncio era o maior som. Nervosismo corria pelas veias.
Diante o casal amarrado ao tronco, símbolo de dor, tortura e altivo sofrimento, o barão interrompeu o caminhar. Ergueu a cabeça. Fez alçar a prepotente e grave voz:
— Acredito que tenha afrouxado, o pouco de piedade que dispenso a vocês é o bastante para que se considerem fortes o suficiente para contestarem minhas ordenanças, questionarem minhas determinações e bancarem os rebeldes furiosos! — tendo o chicote em mãos dispensou agressão ao homem e à mulher acorrentados, provocou-lhes a dor ardente —. Tudo o que já assistiram acontecer deveria ter provado que não tenho misericórdia, que jamais serei compassivo e que retribuo desobediências com castigos à altura — cedeu mais chicotadas —. Ou será que gostam de apanhar? Será que a dor lhes oferece prazer? — incitava os gritos de dor —. Não hesitarei em cumprir o vosso desejo!
Adelaide, sentindo as costas queimarem, chorava amargamente, resmungava desesperada, mordia os lábios na intenção de desviar o foco das dores, não percebia, mas sua boca sangrava pela pressão dos dentes.
Joaquim, seu esposo, cansado de ver o seu povo sofrer, exausto pelas afrontas que todos os dias era obrigado a enfrentar, não se importou com a agonia da tortura, não se importou com as consequências de suas ações, pare ele nada mais importava, nem mesmo a vida precária que lhe fora atribuída.
— Você não passa de um covarde miserável, digno de pena! — espantou a todos com a valente afirmação, foi capaz de fazer cessar as sucessivas chicotadas do homem perverso —. Por que humilhou minha esposa? Se nos odeia tanto por que a importunou entre os seus lençóis? Desejou minha mulher, desejou uma escrava, buscou satisfação aos seus desejos deitando-se com uma negra! — colocou para fora a incômoda verdade.
Silêncio.
Um estrondoso silêncio pairou sobre a senzala, sobre os capangas de Frederico e sobre o próprio barão.
Mas ele não se calaria.
Humilharia.
— Acha mesmo que pode me sujar com suas infâmias argumentações? — puxou os cabelos do escravo para trás, não poupou forças no ato covarde —. Ela me foi útil para coisas que mulheres decentes jamais poderiam fazer! — tornou a chicotear o homem escravizado —. É para isso que suas mulheres servem — sussurrou aos ouvidos de Joaquim —, para satisfazerem os mais baixos e sórdidos desejos de homens como eu!
Terminou seu ato bárbaro quando teve certeza da fraqueza que consumia os prisioneiros.
Voltou-se aos demais escravos, encarou-os com ameaça.
— Nunca repitam o que ouviram aqui, ou pagarão com a vida!

Percebendo que Frederico terminara sua prática desumana, Laís colheu as lágrimas de ira e tristeza, afastou-se das janelas, faria o possível a fim de não transparecer o que sentia, o nojo e a repulsa que nasciam em sua alma.
A porta se abriu.
O homem inescrupuloso adentrou o quarto encontrando a esposa sentada aos pés da cama. Observou-a com atenção. Era uma jovem e delicada mulher, alguém que ele não merecia.
— Venha, tire-me os sapatos — falou.
Humilde, querendo evitar problemas, intencionando se fortalecer para no momento exato demonstrar todo seu ímpeto, a baronesa ajoelhou-se diante o sujeito possante.
— A partir de hoje é minha propriedade — pisou sobre a mão singela, não poupou o peso do corpo naquele gesto tão ignavo, tão indolente —. Deve cumprir com o que digo, deve seguir o que determino, deve reverenciar a mim, deve a mim a sua vida! — as lágrimas da jovem mulher não o tocaram, ao contrário, sentia contentamento ao provocar tormentos —. Fui claro? — ergueu o pé.
Levantando o rosto, Laís o encarou.
— Mais impossível.
— É um bom sinal — usando de brutalidade, levantou a esposa do chão, lançou-a contra a cama, aproximou-se com sua repugnante presença —. Sinal de que ficará bem! — com toda a nojeira que representava, com todo o obscurantismo que o rondava, possuiu a pobre jovem que, a fim de suportar o desgosto que sufocava sua alma, levou a mente ao doce, respeitador e bondoso Heitor.
Precisaria de força.

Todos que cruzassem o caminho de Frederico Albuquerque precisariam de muita força.


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No próximo capítulo:

Ao longo da vida as pessoas constroem segredos, guardam mistérios e lançam energia a fim de esconderem fatos que jamais gostariam que fossem revelados. No entanto, há segredos que não podem ficar ocultos por muito tempo, eles resplandecem, rompem as mais fortes barreiras, assemelham-se ao brilho fulgurante do poderoso sol que, em todas as manhãs, dissipa as trevas, toca os montes e atravessa as frestas sem necessitar de permissão.

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