[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 11 - Cumpra as Ordens!


Capítulo 11 – Cumpra as Ordens!

Ah, o amor! Essa palavra tão sutil, tão delicada, tão simples de pronunciar e tão difícil de entender o misto de sensações que oferece à fragilidade humana. Essa palavra que faz dos poetas verdadeiros mananciais de versejares inesgotáveis. Essa palavra que faz dos apaixonados sujeitos insanos e descontrolados, rendidos ao que de melhor pode existir num mundo tão agitado, enfadonho e ingrato.
Quem ama suporta as dores, as ânsias de angústia, os pensamentos de temor. Quem ama se faz forte para combater consigo mesmo, contra os próprios receios, para se permitir ao sentimento que dispensa descrições, definições, importa apenas que o sintam em cada alvorecer.
O casal repleto de amor, em mais uma manhã ensolarada, encontrou-se às margens do rio que testemunhava as declarações de carinho, as demonstrações de afeto, os gestos de imenso apreço. Estavam protegidos pela natureza que os cercava, seguros pela omissão dos olhares perversos, desfrutavam dos poucos minutos que tinham de liberdade.
— Estive conversando com minha mãe... — deitada sobre o solo, repousando a cabeça no peito de seu amado, apreciando o som das batidas de um coração que acelerava estando ao seu lado, Ana decidiu ser transparente, revelar o que sentira, o medo que a incomodou —. Sei que o que fazemos, embora certo para nós, não é adequado para muitos que formam essa sociedade tão incompreensível, sei também que eu não sofreria tantas punições, no máximo seria levada a outro país onde me arranjariam um casamento — tocou a mão que lhe ofertava paz, entrelaçou os dedos no anúncio de que aguardava pelo momento que fariam tão simples gesto perante o olhar do mundo todo —. Mas você sim, você sofreria insuportáveis consequências, até mesmo a morte, e eu não seria capaz de me perdoar por isso...
— Não pode se culpar por me amar, não quero que tenha esses incômodos pensamentos, não quero lhe ofertar tais aflições, quero apenas que seja feliz — Artur, como em todas as vezes que tinha a mulher amada entregue à sua proteção, sentia-se digno, sentia-se valorizado, sentia-se humano por ter o que de mais precioso se pode oferecer: o coração, o amor, a alma —. Também senti medo, confessei à minha mãe minhas preocupações, sou capaz de suportar todas as opressões, não ligo se me punirem por cometer o crime de amar, mas sei que a sua dor seria incurável, sei que por minha causa suas lágrimas não cessariam, gosto disso e me culpo por tamanho egoísmo...
— Você não é egoísta, ao contrário, não conheço alguém tão valoroso em sua solidariedade, alguém que sinto orgulho por ter no meu caminho... — beijou a mão que não largava, demonstrou sua afeição pelo pobre escravo —. Se no mundo existissem mais “Arturs” hoje não temeríamos a morte por amarmos...
— Mas vale à pena lutar pelo amor, vale à pena investir cada gota de energia naquele que é conhecido por ser o mais nobre e poderoso dos sentimentos, ainda mais quando o encontramos em alguém belo por fora e maravilhoso por dentro — envolveu a namorada em seu abraço, aninhou o rosto no pescoço de Ana, pôde sentir seu bom e inesquecível perfume —. Minha mãe contou um pouco sobre o que existiu entre ela e meu pai, foi algo grande, forte, maior que qualquer desafio, algo que lhes garantiu a tão perseguida felicidade, algo que preciso de você para viver... — fechou os olhos, entregou-se à paz por estar com quem se estima.
— Gostaria que minha mãe tivesse a mesma sorte e não fosse condenada à companhia indesejável de um homem arrogante, sem compaixão, sem a capacidade de demonstrar sentimentos se é que os tem — levou os dedos ao rosto do amado, quando apenas com toques nossas almas se aquietam podemos ter certeza de que o que existe é puro, é verdadeiro —. Hoje sei que me encoraja por ter o desejo de viver o que tenho a chance, não posso dar às costas ao que anseio e me entregar à infelicidade, é injusto e impossível aguentar...
— Acha que algum dia seremos capazes de mudar o coração de seu pai?
— Acho que apenas uma coisa importa: o nosso desejo!

¤

Ser forçado a um trabalho bruto, pesado, cujo produto é tirado de nossas mãos e não recebemos nem um centavo pela sua comercialização, não é nada inspirador, em nada nos motiva ou anima, ao contrário, frustra-nos e aumenta a amargura.
Essa era a realidade dos negros, homens e mulheres escravizados, fadados a dias de opressão, a dias de suor, a dias de um trabalho sofredor. Não podiam reclamar. Não lhes era permitido suplicar por piedade em nome do cansaço que os consumia, que os devorava, que fazia o tempo passar como tortura.
Mas o corpo fraqueja.
É frágil.
Vulnerável à fadiga.
O senhor caiu de joelhos, as mãos ardiam em sangue, os braços não suportavam mais o peso da enxada, as costas queimavam, derramavam suor, a pele agonizava pela ira do sol e a respiração era dificultada. O senhor não pôde se erguer. Nem a chicotada o levantou.
— Vagabundo preguiçoso! — Sebastião, montado no cavalo feroz, usando o chapéu que o defendia da luz potente, carregando na cintura o odre com água fresca, encheu-se de prepotência e ruindade, não pôde se condoer pela condição de um ser humano rendido ao enfado —. Levante-se! Não ganha comida para ficar de joelhos!
Mas o velho estava enfraquecido, a força que tinha se esvaía com as lágrimas, não pôde atender à altiva ordem, não mais, não daquela vez.
— Louco desgraçado! — pulou do animal —. Sua desobediência custará caro! —com brutalidade, colocou o escravo em pé, forçou-o a caminhar pelo terreiro como fazia com os animais teimosos.
Os demais escravos se revoltaram ao ver o querido senhor amarrado ao tronco, não acreditavam naquilo, não acreditavam que nem mesmo os seus velhos tinham respeito e dignidade.
Alçaram a voz.
Era tudo o que podiam fazer cercados pelos insanos seguidores do barão de São Pedro.

¤

Rendidos aos instantes de amor e sossego, aproveitando os primeiros minutos do dia que constantemente passavam juntos, moça e rapaz ouviram os protestos incompreensíveis, perceberam raiva na entonação, tiveram a sensação de que uma densa atmosfera tomava conta da fazenda.
Interromperam o agradável momento.
Precisavam saber o que acontecia.

¤

— Isso é pela sua ousadia! — o covarde Sebastião não poupou força, sentia-se forte naquela posição, imponente, invencível —. Que sirva, mais uma vez, de exemplo!
— O que significa isso?! — sozinha, Ana surpreendeu a todos pela forma áspera e autoritária com a qual se dirigiu ao agressor.
— Não é de seu interesse! — o capanga respondeu na mesma altura.
— Não é de meu interesse?! Essas terras me pertencem e essa gente, incluindo você, nelas estão! Exijo que me dê uma boa explicação para esse ato cruel! — não abaixou a cabeça, nem se intimidou, confrontou a maldita perversão.
— Esse negro insolente resolveu desobedecer, não cumpriu com sua obrigação e ainda ignorou a minha ordem — teve que cumprir com a determinação da jovem mulher —. As regras são claras, não acha?!
Esforçando-se por evitar as lágrimas, relutando contra qualquer demonstração de fraqueza, Ana se aproximou do homem acorrentado, os olhos claros contemplaram um senhor exausto, afadigado, que chorava em silêncio como um menino reprimido, que se sentia inferior aos animais.
— Solte-o!
Sebastião riu.
— Eu ordenei que o solte! — repetiu energicamente.
— Garota imprudente! — sentindo-se desrespeitado, humilhado pela figura feminina, o capanga ignorou os fatos, desprezou que falava com a filha de seu patrão, empurrou-a de maneira vil, causou sua queda.
Instintivamente, Artur saiu do meio dos escravos, ajudou a namorada a se levantar, encarou o homem odiado dirigindo-lhe toda a raiva que sentia, toda a repulsa que experimentava em sua presença.
— Solte essa rebelde enlouquecida!
O jovem escravo ameaçou responder.
Ao sutil toque de Ana em sua mão se calou.
Mostrando-se irrepreensível, Sebastião ofertou mais uma chicotada ao escravo já velho.
— Eu ordenei para que interrompa suas atitudes nojentas! — a moça avançou contra o intimidador, mas este a conteve fortemente, usou de força bruta a fim de contê-la.
— Solte-a! — uma voz firme soou —. Agora! — Laís não estava para brincadeiras.
— Baronesa... — o covarde se rebaixou.
— Poupe suas explicações, guarde-as para meu marido — calou-o —. Solte esse homem.
— Mas...
— Está com dificuldade para compreender as ordens? Solte-o e lhe dê o dia de descanso.
— Senhora baronesa...

— Estou sendo contestada? — Laís o encarou com fúria —. Frederico está em viagem, as ordens estão sobre as minhas mãos, obedeça-as e evite problemas! — foi enérgica e valente —. E nunca mais ouse encostar em minha filha, não sabe do que é capaz uma mãe enraivecida!


##
No próximo capítulo:

Não queria se afastar, não queria ser forçada a criar uma distância segura entre eles, não queria que, para protegê-lo, tivesse que amenizar os sentimentos que existiam. Decidiu que não o faria. Seria insuportável estar longe de seu grande e único amor, decidiu que estaria ao seu lado até mesmo nos piores momentos, convenceu-se de que não faria outra escolha se não a de guerrear junto àquele que despertava o seu melhor. Pouco importavam as consequências. Se a colocassem no tronco por entregar-se a um escravo não reclamaria, suportaria as dores, mesmo que em seu corpo garantissem cicatrizes, vergões, marcas profundas, não se incomodaria por ser punida por unicamente amar, não se importaria em ser marcada pelo amor.

De segunda a sexta, aqui no blog!


Livros gratuitos:

Encontre o blog pelas redes sociais:

Obrigado pela companhia, um forte abraço e até logo!

Comentários

Mensagens populares deste blogue

[Conto] Vazias de Amor

[Conto] Homens de Paz

[Conto] Fascínio Coibido