[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 12 - Na Companhia das Estrelas


Capítulo 12 – Na Companhia das Estrelas

As estrelas, sem qualquer nuvem que dificultasse seu brilho resplendor, enfeitavam o céu escuro, envolto por trevas, dominado pela noite que chegara empurrando a luz do dia. Além de ornamentos, serviam também de companhia para almas solitárias que, cercadas por tantos pensamentos, não conseguiram se entregar ao sono, não conseguiram fechar os olhos e sonhar sonhos.
Artur, tendo o espírito agitado, procurando inutilmente pelo descanso, não aguentou mais permanecer deitado e, no meio da madrugada, levantou-se cauteloso para que ninguém despertasse, abriu uma das janelas da senzala, encarou a luz, levou a mente a uma pessoa especial, querida, a alguém que amava bravamente, ficou pensando em Ana.
Lembrou-se da forma grosseira com a qual Sebastião tratara a namorada, recordou-se do modo desrespeitoso e arrogante, assistiu mais uma vez à cena do empurrão quando, cheia de fragilidade, a jovem moça caiu sobre o chão, vulnerável, como derrotada. Mais uma vez provou da ira que percorria suas veias, que disparou seu coração, que o influenciou a desejar por um confronto, por uma batalha contra aquele que tocara cruelmente alguém que merecia ser tratada com sutileza e doçura. Reconheceu que se não fosse pela paz lhe ofertada, se não fosse pela mansidão e calma que Ana lhe transmitira, teria sucumbido à raiva e tomado atitudes das quais se arrependeria.
Ainda assim se culpou.
Ainda assim se considerou covarde.
Não defendeu aquela que amava, não protegeu aquela que vivia em seus sonhos, que fazia parte dos seus planos, que prometera cuidar para sempre. Como pôde se acovardar? Como teve a capacidade de recuar e agir como um garoto assustado? Como poderia lutar por Ana quando a guerra estivesse declarada? Deveria ter feito algo. Deveria ter se vestido de força e coragem.
Precisou sair. Andar pela fazenda.
Precisava aquietar sua mente.

As estrelas servem de confidentes a quem ama, a quem sente um amor tão puro e verdadeiro. As estrelas ouvem desabafos, recebem desejos e até mesmo testemunham conquistas românticas, celebradas entre casais entregues ao alívio da ternura. As estrelas estão sempre lá, servindo de companhia a quem não tem.
Ana, perdida em tantas memórias, idealizando tantos projetos, buscando contemplar o futuro em suas imaginações repletas de esperança, desistiu de procurar pelo sono, rendeu-se ao agito das preocupações, buscou sossego na sacada do quarto, debaixo das estrelas que sempre a ouviam quando mais necessitava.
Desenhando um sutil sorriso nos lábios, lembrou-se da agressão de Sebastião, mas não sofreu pelo gesto bárbaro, a demonstração de apoio do namorado foi capaz de dissipar as más experiências que antecederam o momento no qual recebeu a sua ajuda, foi erguida por ele, seria defendida destemidamente por aquele nobre e especial rapaz. Mas o sorriso deu lugar ao semblante apreensivo quando rememorou que foi forçada a silenciar o amado, a acalmá-lo, aquietá-lo para que não cometesse insanidades irreversíveis, não levantasse suspeitas indesejáveis e nem despertasse maior inimizade no coração apodrecido. Preocupou-se. Viu que Artur romperia os limites por sua causa, viu que o descontrolava.
Não queria se afastar, não queria ser forçada a criar uma distância segura entre eles, não queria que, para protegê-lo, tivesse que amenizar os sentimentos que existiam. Decidiu que não o faria. Seria insuportável estar longe de seu grande e único amor, decidiu que estaria ao seu lado até mesmo nos piores momentos, convenceu-se de que não faria outra escolha se não a de guerrear junto àquele que despertava o seu melhor. Pouco importavam as consequências. Se a colocassem no tronco por entregar-se a um escravo não reclamaria, suportaria as dores, mesmo que em seu corpo garantissem cicatrizes, vergões, marcas profundas, não se incomodaria por ser punida por unicamente amar, não se importaria em ser marcada pelo amor.

No meio da madrugada, com o deserto imperando sobre a lucrativa propriedade de Frederico, aproveitando a distração dos capangas que adormeciam, Artur se dirigiu ao casarão, sabia exatamente onde ficava o quarto da amada, perdera as contas de quantas noites se escondera na copa da volumosa árvore e ficara vigiando a sacada de onde tinha esperanças de contemplar o rosto angelical.
Repetiu o hábito.
Foi grato pela surpresa.

Em meio ao silêncio da madrugada, observando os desenhos que as estrelas fulgurosas formavam sobre o imenso pano escuro, Ana desviou a atenção ao perceber alguém solitário andando pelo vasto quintal, viu-o subir na árvore, esconder-se por entre folhas e galhos e abrir espaço para que dirigisse os olhos em sua direção. Foi quando reconheceu tão corajoso sujeito.
Seu coração acelerou.
Seus lábios não resistiram ao espontâneo e apaixonado sorriso.

O amor é capaz de encorajar os mais apavorados e desinibir os mais tímidos, o amor é capaz de coisas que naturalmente não aconteceriam, que passam a existir graças à sua potente existência. O amor foi capaz de fazer dois jovens apaixonados se esquecerem das ameaças e, no meio da madrugada, correrem às margens do rio que os recebia em instantes de tranquilidade.
— Fico sempre esperando por sua próxima loucura, às vezes penso que a coragem é um veneno suicida — deitada sobre o peito confortável do querido rapaz, Ana expôs o que sentia —. Desde quando fica observando meu quarto?
— Desde que descobri que a amava — Artur ajeitou o cobertor sobre os corpos que se tocavam, que se aconchegavam, que se aqueciam contra o suportável frio da madrugada —. É difícil estar longe de quem se ama, pelo menos para mim, então fazemos o possível para encurtar tal distância.
— Não só para você existe esse incômodo, também sou afligida pela separação que somos obrigados a experimentar, mas procuro pelo seu rosto em minhas lembranças, encontro a sua voz nas melhores recordações que possuo e assim consigo amenizar o sofrimento desse coração apaixonado...
Vivenciando algo que até então não tinham provado, o casal sucumbiu a alguns minutos de silêncio, procuraram compreender os próprios sentimentos, o quanto era bom estar um com o outro, despreocupados, rendidos à ternura que compartilhavam mutuamente.
— Perdoe-me... — falando calmamente, sabendo que até mesmo um sussurro seria percebido, Artur dissipou a quietude no pedido por desculpas.
— Não tem feito nada... — com os olhos fechados, completamente entregue à segurança de estar com alguém que confiava, Ana respondeu no mesmo tom.
— Por isso mesmo quero que me perdoe — o jovem escravo, sempre sutil nos gestos, romântico nas atitudes, afável nas palavras, levou a mão ao rosto que relaxava em seu peito, que descansava sobre o seu corpo, que estava vulnerável às suas carícias —. Naquele momento, quando Sebastião a derrubou, tudo que fiz foi erguê-la, mas deveria ter feito mais, deveria ter sido mais valente e enfrentado aquele monstro, mas me omiti...
— Omitiu-se por minha causa e não tenho nenhuma intenção de me desculpar — a moça de nobres intenções, desejosa por retribuir todo o afeto que recebia, envolveu a mão que a acariciava graciosamente, cobriu-a com amabilidade —. Precisa ser mais modesto, sei que me ama, que fará o que estiver ao seu alcance para me fazer feliz, mas entenda que preciso de você vivo, forte, seguro...
— Jamais aguentaria ver alguém ferindo-a...
— E eu não suportaria vê-lo padecer por minha culpa... Não pense que se resguardar de ameaças seja covardia, pelo contrário, é mais uma forma de declarar o seu amor...
Artur se sentiu melhor, aliviado, ainda assim remoia a visão de mais cedo, porém aceitou que em território inimigo a sabedoria é a maior arma que se pode utilizar.
— Boa noite... — beijou os fios da amada, envolveu-a em seus braços.
— Boa noite... — lançou o sorriso satisfeito ao amado, ajeitou-se sobre ele.
Dormiriam juntos, na companhia das estrelas.
Algo que parecia tão longínquo acontecia naquele exato e inesquecível momento.

¤

Frederico, em sua viagem a negócios, acompanhado por um antigo amigo, proprietário de cafezais invejáveis, procurava formas de ampliar seu poder econômico, como em outras ocasiões, naquela empreitada, buscava por novos mercados interessados em suas ofertas.
— Podemos comemorar nossos avanços, não acha? — pela manhã, ao nascer do sol, o barão de São Pedro compartilhava a mesa do café com o velho amigo, preparavam-se para retornar ao lar após tanto sucesso.
— Aposto que se perdesse tudo o que possui no dia seguinte restituiria com o dobro, sua lábia é mais que convincente, é irresistível! — Egídio comentou.
— Não seja tão solidário, sua ajuda foi de extrema importância, conquistei mais do que imaginava, merece qualquer coisa, não hesitarei em atender — abriu os braços em um gesto cortês, comprovando sua disponibilidade —. Não fique acanhado, meu velho, aproveite a promoção — divertiu-se.
— Qualquer coisa?
— Estará em suas mãos, fez um ótimo trabalho!
Egídio tinha um filho, o reservado Pedro, um jovem cujos intentos ninguém conhecia, apenas tinham acesso à sua humilde e nobre humanidade. O grande cafeicultor, incomodado pela solidão do rapaz, por sua excessiva dedicação ao trabalho e estranho desinteresse pelas moças da região, convenceu-se de que era o momento de lhe arrumar um casamento antes que falatórios começassem.
— E se o meu pedido for que dê a mão de sua filha em casamento ao meu filho? Aceitaria?

— Pensei que nunca fosse me fazer essa proposta — o barão tomou um gole do líquido que esfumaçava sobre a mesa —. Que genro melhor eu poderia encontrar? Considere-se atendido!


##
No próximo capítulo:

— Exato, seu filho, não um escravo que por medo do tronco lamberia suas botas se assim exigisse! — casamento era seu pavor, sua angústia, não poderia se permitir a isso, não poderia se entregar a quem não amava, a quem nem ao menos conhecia, não poderia se render a outra pessoa sendo já conquistado por alguém —. Não pode me falar uma coisa dessas, não pode se comportar como um autoritário exigente, não pode querer que me case sem amor!

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