[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 15 - Solidão



Capítulo 15 – Solidão

Em muitos momentos nos sentimos sozinhos, desamparados, angustiados pela opressora solidão. Mas na verdade estamos rodeados de muita gente, cercados pela multidão, no entanto não temos o apreço de ninguém, o carinho de ninguém, o auxílio de ninguém. Pior solidão não há. Dolorosa e angustiante solidão.
Era ainda muito cedo, o sol nascia tímido por entre as montanhas, os pássaros aos poucos despertavam e faziam do amanhecer um espetáculo sonoro quando Rute se levantou ainda sentindo o vazio de todos os dias, de todos os momentos, de todo o sempre. Vivia numa cidade movimentada, desenvolvida, tinha muito a fazer se assim o quisesse, mas a solidão a trancava dentro de casa, prendia-a entre as paredes, não permitia que seus olhos contemplassem semblantes novos e nem que seus ouvidos descobrissem novas histórias.
Parou em frente ao quarto de Sara.
Observou-a adormecida.
Sentiu vontade de tocá-la, deitar-se ao seu lado, fazer como todas as amáveis e carinhosas mães.
Mas não lhe era permitido.

Anos atrás

Ignorou os avisos daquela que a amava, daquela que conseguia enxergar além dos seus olhos, daquela que não confiava em seu namorado, daquela que nunca pretendeu determinar com quem a filha deveria se casar, mas que também não permitiria que qualquer um quebrantasse o seu coração.
Mas Rute ignorou tão importantes avisos, desprezou os conselhos de alguém sábio e experiente, cegou-se amorosamente, não acreditava que o rapaz a quem rendera o coração pudesse magoá-la, fosse falso nas palavras, fingido nas demonstrações de amor.
Infelizmente, sua mãe sempre esteve certa, Rute era a única pessoa naquele relacionamento que sentia amor, que se permitia ao puro sentimento, da outra parte apenas existia interesse, um interesse nem um pouco sentimental, completamente carnal.
— Não entendo como podemos tão de repente nos apaixonar por uma pessoa, tornar tão dependente dela, tão dependente daquilo que representa, daquilo que significa — ao final da tarde, quando as primeiras estrelas ornamentavam o céu de tom avermelhado, o casal se encontrou na fazenda dos pais do rapaz, aproveitaram que não tinha ninguém em casa para que pudessem conversar, trocar palavras românticas, imaginar planos para o almejado futuro —. Eu te amo... — sentados na varanda, sentindo o vento sutil, o rapaz beijava o rosto da namorada enquanto proferia suas mentiras, enquanto iludia uma moça inocente.
— Fico imaginando os próximos anos, quando estivermos casados, quando abraçarmos nossos filhos, quando os veremos saltitando de um lado para o outro, espero que seu pai não se incomode pela euforia que tomará conta desse lugar cheio de tanto silêncio — recostada sobre o amado, sentindo-se em paz entregue aos seus braços, Rute tocou seu rosto, alisou-o, amava-o intensamente, amava-o ao ponto de não apenas imaginar o futuro como vê-lo acontecer diante os seus olhos.
— Ele nunca se incomodaria, sempre reclama que desde que cresci essa casa nunca foi a mesma, aposto que será um vovô bobo por seus netos, diferente do pai exigente que foi... — embriagado não pelas virtudes da jovem mulher, pelas características espirituais que despertam o amor, mas pela beleza invejável que nele acendia a passageira paixão, o efêmero desejo, o rapaz insistia em seus afagos, em suas carícias, já não resistia aos próprios instintos, desejava ardentemente saciar sua carne —. Sempre tão bela, tão elegante, às vezes me pergunto se sou digno da companhia de tão adorável mulher — os beijos já não se resumiram ao rosto, dirigiram-se ao pescoço, deixavam ofegante a respiração daquela que não suspeitava das egoístas intenções.
Percebendo que o clima entre eles se encaminhava para algo mais sério, para a consumação das atrações que unem aqueles que se desejam, Rute murmurou para que o namorado se afastasse, parasse com tais investidas, mas não foi atendida, precisou ser enérgica, precisou empurrá-lo e assim ganhou distância.
— O que pensava em fazer? — encarou-o atordoada, exigia uma resposta.
— Amar aquela que me aprisiona em sonhos nos quais sempre se faz presente — ousado, ignorando as ações de Rute, o rapaz se aproximou, tocou suas mãos, foi sutil ao beijá-las —. Confia em mim? — encarou-a fixamente —. Pode dizer se me ama?
— Sabe que amo, sabe que é quem mais amo, sabe que não seria a mesma sem você, já falei tantas vezes, mas...
— Não existe mas — calou-a selando os lábios, fazendo-a afrouxar na resistência —. Não seria capaz de machucá-la — depositava seus beijos traiçoeiros sobre a pele que o seduzia —. Não seria capaz de magoá-la — mentiu —. Acredite em mim...
Amava-o verdadeiramente. Que problema teria ao se entregar para ele? Ao permitir-se a um momento de romance? Não tinha nada a sofrer, acreditava no inimigo, rendeu-se a ele.
Já era noite quando Rute despertou com os sentimentos de vergonha e culpa ao contemplar aquele que ao seu lado era envolto por sono profundo. Levantou-se cautelosamente relutando contra o choro insistente. Vestiu-se em meio ao breu do quarto iluminado por poucas velas. Sozinha, desamparada, correu pelas estradas desertas, correu como se fugisse da morte, fugia da humilhação que sentia.
Os dias se passaram.
Dias de silêncio.
Rute não revelava seu segredo a ninguém e tentava esconder ao máximo a ansiedade que sentia. Olhava para a estrada na esperança de enxergar o amado montado em seu cavalo, vindo em sua direção para uma visita, um encontro, uma conversa que assegurasse que o amor ainda existia.
Mas ele não veio.
Depois daquela noite nunca mais apareceu.
Partiu de Portugal.
Sem nem se despedir.

Lágrimas rolaram pelo rosto abatido, o coração saudoso ainda sangrava, o ferimento estava aberto, parecia que jamais cicatrizaria. Saiu da presença da filha, o fruto daquela noite, o fruto de um erro, a única recompensa pelo sofrimento de amor não correspondido.

¤

Os animais, quando fogem do predador num instinto de sobrevivência, desesperam-se, mal enxergam os obstáculos que se apresentam no caminho, machucam-se e nem notam as feridas, usam todas as forças a fim de suspirarem aliviados, a fim de continuarem vivos. Assim também fazem os homens.
O escravo corria.
Empurrava galhos, dissipava folhas, abria caminho.
Saltava.
Sentia o coração apertado, violento, apressado.
Sentia também a aproximação do inimigo.
Tropeçou assustadoramente.
Não pôde se levantar tamanha era a dor.
— Seu desgraçado! — o homem bruto, montado em seu cavalo, sentindo o suor correr pela testa, não agiu com sutilezas ao agredir o escravo fugido com o chicote impiedoso —. Vai sofrer a dor que nunca experimentou!
O que o agressor parecia ter esquecido era que aquele território não pertencia aos seus termos, não respeitava à sua presença e nem se intimidava com sua arrogância, aquele era o espaço de um sujeito odiado, há muito procurado, um sujeito valente.
— É melhor desistir de ameaças tão covardes! — montado no cavalo preto, vestido pela longa capa e disfarçado pela máscara famosa, o Protetor surgiu por entre as árvores, apresentou-se ao opressor —. Isso se não quiser padecer as tais dores!
— Você! — o homem se enfureceu —. É bom que não se meta nos meus negócios. Sua fama tem corrido pelas redondezas, sua existência tem incomodado a muitos. Sua vida é desejada! — falava como se anunciasse maus tempos ao indivíduo destemido.
— Eu sei quem sou e o que represento, o que talvez não saibam é que não tenho medo e nem me acovardo — avançou contra o sujeito amargurado, mas precisou se conter ao ficar na mira do armamento.
— Desça do animal! Sem movimentos bruscos!
Pacífico, o Protetor obedeceu, levou as mãos ao alto, demonstrava rendição.
— Nem um passo! — desceu do cavalo, caminhou por entre as folhas caídas, chegou-se ao cidadão cuja identidade todos cobiçavam saber.
Victor sabia o que estava acontecendo, reconhecia que era tido como lenda, estava presente em histórias de fazendeiros que queriam contar vantagem ou nos discursos de escravos que encorajavam outros a tentar uma fuga. Fato era que desejavam descobrir seu rosto, conhecer o mortal por trás de toda aquela construção, o desejo era tanto que enfeitiçava seus algozes, deixava-os atônitos em sua presença, fazia-os assumir posição de risco.
O homem se chegou ao Protetor.
Queria apenas uma coisa: tirar-lhe a máscara.
Com sorriso debochado, o guerreiro puxou o inimigo contra si despertando-o do transe, imobilizou suas mãos, forçou os braços para trás, tomou posse sobre a arma antes lhe dirigida.
— Apenas covardes tiram proveito dessas coisas — lançou o artefato —. Homens de verdade resolvem as coisas no braço! — esbofeteou o rosto do sujeito, causou a sua queda estonteada.
O Protetor correu de encontro ao escravo foragido, colocou-o sobre o cavalo vigoroso, partiu rumo ao quilombo para onde levava quem conseguia ajudar.

Dirigindo-se às terras do barão, colocando-se diante a sua presença, o fazendeiro derrotado reclamou o último ocorrido, juntava-se ao número daqueles que eram vencidos, pediu auxílio para o poderoso sujeito.

— Não se preocupe, não é o primeiro a reclamar e temo que não seja o último, mas colocaremos as mãos nesse verme e o faremos nos recompensar por cada escravo que ajudar! — Frederico prometeu.


##
No próximo capítulo:

— Seu pai me procurou, não gostou de saber que a ajudei a se levantar no dia em que Sebastião a empurrou, proibiu-me de me aproximar, proibiu-me até mesmo de proferir o seu nome — acariciou o rosto sutil da amada namorada, em simples toques sentia a alma se acalmar, o peito se aliviar, sentia um pouco de paz —. Mas veja só o que estou fazendo... Não só estou perto como a toco, não só menciono o seu nome como a anuncio que é o amor da minha vida, a mulher com a qual quero construir um futuro, a rainha dos meus melhores sonhos...

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