[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 09 - Sentir-se Humano
Capítulo 09 – Sentir-se Humano
Com
a trágica, revoltante e inesperada morte dos pais pelas mãos de homens devassos
e gananciosos, Victor se encheu de coragem e vontade por manter vivo o legado
da família que amava, da qual herdara o nobre espírito, o coração disposto a cuidar,
o sutil trato para com as pessoas sem repudiar quaisquer diferenças, repudiando
apenas aquele que era possuído por perversão.
Viajou
pelo país dominado por europeus, por homens brancos, ricos, que se achavam
superiores pela cor da pele, pelo sangue que possuíam, pela origem que tinham.
Homens miseráveis de alma. Apodrecidos em seus intentos. Dignos de pena por se
permitirem a uma insana crueldade. Estalou-se no sudeste, na província de São
Pedro, onde ninguém o reconheceria, o descobriria, onde também seu peito ardia
pelas injustiças que aos olhos eram expostas.
Queria
imitar os passos daqueles que tinha por heróis, queria cumprir a promessa que
firmara com o pai em seus últimos minutos, mas não queria ser silenciado, não
queria que a história se repetisse, não queria que mais uma vez os oprimidos
perdessem alguém que se dispunha a libertá-los. Decidiu agir, lutar, confrontar
os temidos, zombar da cara dos prepotentes, fazer-se mais forte que os
poderosos, faria tudo isso sem nunca revelar o rosto. Não se sentiria um
medroso, ao contrário, usava de uma valente estratégia.
E,
então, cheio de sonhos e esperanças nasceu o Protetor.
Aquele
que estendia a mão aos escravos fugidos.
Aquele
que fazia o sonho da liberdade se transformar em algo real.
Desvestido
do disfarce que o tornava lendário, montado em um jumentinho que parecia
exausto dos anos de constante trabalho, Victor voltou à cidade, torceu para que
o garoto a quem salvara tivesse lhe dado crédito, agradeceu ao vê-lo sentado
num canto atendendo a recomendação do moço que trabalhava na hospedaria.
Sendo
grato ao seu amigo, o guerreiro se sentou ao lado do adolescente ansioso,
observou-o com piedade, viu no jovem um alguém indefeso, assustado, amedrontado
pela vida, alguém que desejava apenas por um pouco de paz.
—
Ele me contou que salvou alguém corajoso, que não se deixou intimidar pelas
ameaças e tentou alcançar aquele que por certo é o seu maior objetivo, devo
dizer que estou honrado por conhecer um jovem tão destemido — estendeu a mão —.
Chamo-me Victor, pode confiar em mim — simpático, exibia sorrisos, queria ser
ao solitário o amigo que necessitava.
—
Felipe — receoso, o garoto aceitou o cumprimento, sentia vontade de correr,
avançar por entre as árvores o quanto pudesse, mas se lembrou que seria ridiculamente
inútil, subestimava-se todos os dias por aquilo que chamava de defeito.
—
Sabe, Felipe, que ninguém ouça o que vou dizer, mas o que acontece nesse mundo
tão bruto me enoja constantemente, fico pensando o que passa em suas mentes, o
que sentem seus corações... — não se incomodou pelo silêncio do jovem garoto,
sua intenção era fazê-lo se sentir bem, livre de quaisquer imposições, livre de
quaisquer regras, livre para ser quem era —. Eu sinto raiva, ódio e me sinto um
covarde por não conseguir fazer nada para mudar isso, tudo o que eu queria era
que houvesse justiça e que fôssemos vistos como iguais independente de cores,
iguais porque somos humanos.
“Iguais porque somos humanos”.
A
declaração tocou Felipe, mexeu em seu íntimo e fez nascer o desejo de que todos
pensassem daquela forma, sua mãe não sofreria, seu irmão viveria o amor que
quisesse, seu povo desfrutaria da doce liberdade.
—
Sinto-me como um animal, ou até menos que um animal — quebrou o silêncio
expondo seu profundo sentimento, aquilo que o afligia, que não saía de seus
intentos, o mais indigno sentimento que um homem pode experimentar.
Naquele
momento, sem esperar por algo tão forte e impactante, Victor sentiu o coração
dilacerar, a alma se angustiar e o espírito se irar. Em seus quarenta anos de
vida, vendo e ouvindo tantos absurdos cometidos de semelhantes contra
semelhantes, o guerreiro nunca ouvira a resposta de um jovem, alguém tão novo,
tão puro, a resposta que alimentou seu anseio por transformar toda uma
sociedade adoecida.
—
Nunca mais se sinta assim — empático, com a humanidade aflorada, Victor evitou
as cerimônias, não se importou com estigmas, esqueceu-se até mesmo que gente
maldosa pudesse flagrar sua ação, mas ofertou ao escravo acostumado com açoites
e grosserias um afetuoso e carinhoso abraço.
Espantado
com a atitude daquele que faziam parte do grupo dos opressores, Felipe se
permitiu àquele momento no qual dois seres humanos permitiam que as almas se
comunicassem, se tocassem, rompessem com as falas ignorantes de um povo intolerante.
Quando foi que pensara que um branco o tocaria daquela forma? Se alguém lhe
dissesse jamais acreditaria que um branco fora capaz de amar um negro. Mas era
o que vivia. Muito estimou a descoberta.
—
O Protetor é um amigo querido, alguém que admiro, alguém que me enche de
esperanças — Victor encarava seu ouvinte, estava emocionado, estava certo de
que garantiria ao injustiçado a vida que de fato merecia —. Ele me pediu para
que o protegesse, fosse seu parceiro, cuidasse de sua segurança e estou disposto
a ser um grande amigo, alguém que estará ao seu lado sempre que precisar, mas
não posso forçá-lo a isso, não posso lhe impor as minhas vontades, quero que
aceite minha amizade.
Felipe,
impressionado com o tratamento, lembrou-se de sua família, daqueles que jamais
sairiam do seu coração, daqueles que queria salvar da escravidão. Sua decisão
seria tomada pensando neles, por amor a eles.
—
Se eu aceitar promete que me ajudará a resgatar minha mãe e meu irmão?
—
Prometo que farei o possível para que possam se abraçar despreocupados quanto
ao mundo, possam se amar livremente!
—
Fico feliz por ganhar um amigo! — mais uma vez envolto no abraço amistoso, no
abraço que subliminarmente rogava perdão pelos atos bárbaros cometidos em nome
de inexplicáveis preconceitos, o adolescente agradeceu aos céus por estar se
sentindo humano pela primeira vez, era uma experiência inestimável, queria que
todos provassem dela.
¤
Vinte
anos se passaram.
Vinte
anos de completa escuridade, de dias nublados, acinzentados, dias que não
tinham cor, não tinham emoção, não faziam sentido e nem davam expectativas,
dias que passavam vagarosamente, dias de nula alegria, de nenhuma satisfação.
Encarando-se
no espelho, pensando em quando se livraria da máscara que cobria parte do seu
rosto, que escondia a cicatriz do dia que queimara a face ao revelar ao pai que
estava grávida e este reagir rudemente, se é que poderia se livrar dela, Rute
pensou também que a vida já não lhe dava razões para acreditar num futuro
luminoso, cheio de realizações, no qual pudesse amar completamente e fosse
amada infinitamente, um futuro que idealizou quando jovem, quando as coisas
pareciam tão fáceis e prazerosas.
Por
recomendação do pai, vestia-se de preto, suas roupas não tinham outra cor se
não esta, precisava manter o título que carregava nas costas, a forma como era
conhecida pelos arredores. Aquele que a expulsara de Portugal anunciou em
terras brasileiras que a filha viúva precisava recomeçar em outro lugar, onde
nada a remetia ao homem que amou, onde estivesse livre para voltar a sorrir.
Mas
quem se interessaria por uma mulher tão sombria quanto ela? Quem se aproximaria
de alguém cujo rosto precisava ocultar? Não se sentiu acolhida, antes provou do
isolamento de uma sociedade que nunca soube lidar com aqueles que não atendem
às suas egoístas expectativas, rendeu-se à solidão, vivia no casarão reclusa do
mundo, escondida das pessoas, sendo chamada de Viúva Solitária, servindo de
histórias assustadoras às crianças desobedientes e chacota às moças que
ansiavam pelo matrimônio.
Passava
os dias com os próprios pensamentos.
Vez
ou outra observava a rua da janela de seu quarto que ficava no segundo andar.
Sua
única companhia era a da criada.
—
Dona Rute, sei que sua resposta não muda, mas eu jamais me cansarei de tentar
tirar dos seus lábios o belo sorriso que sei que possui — Sara, a garota que
trabalhava para a mulher descrente, tirou-a de seus devaneios —. O que acha de
um passeio no jardim? Está um belo dia de sol lá fora, não deveria perder as
graças da vida.
Encarando
a garota tão jovem, Rute recordava-se de sua juventude, de suas esperanças, de
seus desejos, da força que possuía, do quanto era bom ter o direito de sonhar.
—
Com algumas pessoas a vida é injusta e o sol que nos oferta queima-nos até as
raízes... — disse desconsolada.
—
Será que algum dia poderá me contar o que aconteceu? Tenho-a como uma mãe, sabe
disso, sabe que quero vê-la feliz... — aproximou-se de sua ama.
—
Agradeço pelo seu apreço... — abraçou a adolescente —. Mas não se importe com
minhas infelicidades, preocupe-se em ser o que não pude ser, em ser feliz! —
depositou um beijo sobre os fios dourados, acariciou-os com ternura, queria
chamá-la de filha, mas não podia, a única coisa lhe permitida era viver
mentiras.
##
No próximo capítulo:
—
Sofrer por amor... — a mulher liberou um discreto sorriso —. Se esse fosse o
único sofrimento pelo qual devêssemos passar jamais reclamaria. Sofro por amar,
é verdade, a razão da minha angústia é o amor, haveria motivo mais nobre?
Prefiro sentir esse amor devastador do que ser dominada por conceitos que me
transformariam num monstro cruel e infeliz. Sei que algum dia terei a
recompensa — não deixava de acreditar no amor porque ainda o vivia, ainda o
tinha por entre os dedos, sobre os lençóis, debaixo de sua cabeça.
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