[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 18 - Atraídos
Capítulo 18 – Atraídos
Alguns, sem
forças para confrontar a opressão, sem ânimo para encarar os algozes, sem
coragem para avançar em direção ao crescimento, conformam-se com a indesejável
realidade, procuram se convencer de que é o melhor mesmo que uma voz acusadora
toque seus ouvidos denunciando o crime que cometem ao se esconderem debaixo de
razões alimentadas por medo e angústia.
“Conformar-se
é o melhor caminho. Já me conformei”.
Deitada em sua
cama, já noite, procurando descanso para a mente atribulada através do sono
revigorante e protetor, Ana ouvia a resposta de Pedro repetidas vezes,
inconformada, indignada por perceber a rendição de um ser humano cujos olhos
anunciavam a diversidade de sonhos que possuía, a infelicidade por ser entregue
a uma vida mal quista, a falta de valentia para fazer valer suas vontades.
Mas por quê? Por
que se rendera tão facilmente? Por qual motivo preferiu aceitar o tormento ao
invés de lutar pelo que acreditava? Ela tinha certeza: ambos não queriam
aquilo, não estavam dispostos às decisões que tomaram por eles, a diferença era
que um possuía sede de justiça e o outro era imobilizado por temores que não
foi capaz de externar.
Queria mais que
tudo que a noite acabasse, que os primeiros raios de sol dissipassem as trevas,
queria que a manhã resplandecesse para que pudesse estar ao lado de seu
verdadeiro e único amor, depositar em suas mãos os receios que possuía, confiar
a ele os desabafos de um coração ansioso, de um espírito conturbado, de uma
jovem que sentia a aproximação de dores insuportáveis.
Abriu a sacada
na intenção de acompanhar o movimento do céu estrelado.
Abriu também um
sorriso ao contemplar o jovem rapaz recostado na árvore que sempre o acolhia.
Artur não
hesitou.
Escalou o muro
que tão bem conhecia.
Encurtou a
lastimável distância que os oprimia impiedosamente.
Apaixonados,
eternos amantes rendidos aos afetos que sentiam mutuamente, beijaram-se
saudosos, degustando do doce sabor que demonstrações de carinho são capazes de
proporcionar. Afastaram-se ofegantes, sorriam envergonhados, como em cada
reencontro as primeiras palavras não eram verbalizadas, as primeiras
declarações eram sentidas pelos amolecidos corações.
— Estava
pensando em você, precisava vê-lo, tocá-lo, preciso que me ouça! — Ana, repleta
de angústias e amarguras causadas pelas incertezas da vida, encarava seu amante
com pesar, com preocupação, comprovando o amargo teor de sua anunciação.
— Também não
pude tirá-la dos meus pensamentos, a tudo acompanhei, notei o visitante que
recebeu, vi os minutos que passaram conversando, preciso que me acalme e diga
que não devo dar atenção aos pavores que começam a nascer — apreensivo, tocou
as mãos da amada, observou o semblante iluminado pelo luar, almejava conforto.
— Temo
decepcioná-lo, talvez seus pensamentos sejam a realidade, a causa do meu
sofrimento... — abria o coração, precisava dividir tamanha dor, não seria capaz
de levá-la adiante sem o auxílio de alguém —. Meu pai permanece em sua
arrogância e atinge o seu ápice, nosso maior medo agora representa os fatos,
aquele rapaz é meu futuro marido, com quem o barão quer que me case — do rosto
sereno escorreu uma lágrima discreta, a tristeza a assolava duramente.
— Como imaginei...
— o nobre rapaz, cheio de tantos planos, repleto de inúmeros sonhos nos quais
fazia questão de incluir a querida Ana, não pôde conter o fervor da emoção, o
borbulho dos sentimentos, não foi forte o bastante para esconder as lágrimas de
densa angústia. Atraiu a jovem mulher para o seu corpo, abraçou-a com ternura,
queria ofertar consolo, mas também necessitava dele.
— O que vamos
fazer? — com a voz embargada, abafada pelo rosto escondido no peito do escravo,
Ana lançou a dúvida, sua maior pergunta, o que mais queria saber.
— Não quero
perdê-la! — o rapaz levou a mão aos cabelos macios, acariciou-os com sutileza,
derramava o choro amargurado, expressava a dor que ardia em seu ser —. Não
posso perdê-la! — sua vontade era gritar, alçar a voz, esbravejar suas súplicas
até que alguém o atendesse.
— Muito menos
eu... — apertou-se a Artur, aconchegou-se a ele, ao seu porto-seguro —. Serei
incapaz de amar outrem, não consigo me ver ao lado de outro homem, você é tudo
para a minha existência... — confessou sua maior verdade.
Palavra alguma
amenizaria o sofrimento daquela hora.
Palavra alguma
acalmaria os corações apavorados.
Mas a paixão que
os acorrentava era a única capaz de transportá-los a um momento de paz e
êxtase, a um momento no qual o mundo não existiria, as preocupações não
atormentariam e tudo o que importaria era o desejo de um para com o outro.
Os lábios foram
atraídos, uniram-se incontrolavelmente, fizeram as lágrimas cessar quando o
beijo apaixonado os levou a instantes de prazer, o prazer de terem um ao outro.
As peles se tocaram. Os corpos se colaram. A lua testemunhou os minutos de
romance que trouxe alívio às almas inquietas. Pela primeira vez estiveram como
homem e mulher inegavelmente atraídos, inquestionavelmente unidos, marcados
pelo amor.
¤
Uma mente
contristada, por mais que tente, não alcança descanso, não desfruta do sossego,
não é capaz de provar do doce gosto do alívio. Uma mente contristada abate-se
até o pó, não consegue imaginar um futuro, as expectativas mínguam como uma
flor que não é regada.
Apesar de
conformado, entregue ao que não almejava, Pedro sentia-se grandemente
contristado, não conseguia adormecer, a noite parecia agitada, atordoada, o
mundo parecia submerso em estrondosos conflitos. A guerra era interna. Seus
sentimentos entravam em confronto. Sua mente fervia.
Cansado de
buscar pelo inalcançável, levantou-se da cama, acendeu o lampião repousado na
escrivaninha, ajeitou o papel sobre a superfície de madeira, molhou a pena na
tinta, deixou que a alma se manifestasse através de palavras escritas.
Quando
compreendemos o que é ser gente, quando temos a plena capacidade de pensar e
raciocinar sobre o mundo, quando deixamos a visão infantil e descobrimos como
verdadeiramente as coisas funcionam, percebemos que a vida é injusta, é cruel,
é amarga. Não por ela, afinal, não passa de um conceito inanimado, mas pelas
pessoas que a ela dão significado, dão um sentido e pouco se importam se são ou
não egoístas, determinam a definição desse conceito apesar de que cada um deveria
ter assegurado o direito de dar seu próprio significado, causam opressão ao
resto da humanidade.
Preciso
proteger tanta gente, preciso lutar por tantos inocentes, e essa luta para mim
é silenciosa, é serena, há batalhas que só vencemos sendo discretos, passando
despercebidos pelo inimigo. Talvez me vejam como um covarde, como alguém
medroso, como um medíocre que aceita calado as injustiças, a verdade é que não
posso fazer barulho, não posso usar a força, não posso me opor ao sentido que
dão à vida como muitos fariam, eu não pagaria o alto preço, mas aqueles que
confiam em minhas promessas não seriam poupados tão logo reclamasse do que sei
que é injusto e desumano.
Por
isso renego a minha felicidade.
Por
isso me privo do meu amor.
Isso
não quer dizer que vou esquecê-lo, que passarei a viver como se ele nunca
houvesse existido, como se nunca o tivesse sentido, seria impossível, é
impossível fingir que não se sente o único amor que um dia confessamos possuir.
Mas preciso protegê-lo. Essa também é uma forma de dizer que o estimo e que não
suportaria contemplar passivo o seu sofrimento, o seu desmantelamento.
Não
amo mais ninguém.
E
é por esse amor tão importante que agora me rendo ao maior e mais angustiante
de meus pesadelos, entrego-me a alguém incapaz de me proporcionar o que já
possuo, mas que agora deixo livre, livre para viver, para alcançar a felicidade
que não poderei proporcionar.
Essa
é a consequência de darem um significado à vida e o julgarem como único
verdadeiro e possível: injustiças.
Logo cedo
enviaria a carta ao seu destinatário.
Alguém que nunca
deixaria o coração de Pedro.
¤
Muitas são as
mensagens espalhadas pelo mundo, tantas são direcionadas ao coletivo, servem
para todos os corações e outras tantas são lançadas como tiro ao alvo, possuem
destino e não podem ser desviadas.
Logo cedo,
acompanhado por seus auxiliares, o padre Miguel pisou na fazenda do barão de
São Pedro, sua visita não era por hábito nem casual, possuía uma séria mensagem
ao causador de tantos males, de tantas injustiças, ao homem de terríveis
poderes.
Pediu para que
os acompanhantes o aguardassem, assegurou não demorar.
Adentrou o
escritório do sujeito que abominava.
— Há quanto
tempo não nos vemos? — interrompendo seus afazeres, atrás da mesa abarrotada de
papéis, Frederico encarou o religioso, gesticulou para que se sentasse.
— Confesso que
não esperava que nosso reencontro acontecesse tão cedo — não aceitou a
cordialidade, era um homem de muitos princípios que se opunham aos dos
poderosos, por esse motivo era perseguido, aonde quer que fosse estava
acompanhado por homens fiéis.
— Ainda magoado?
— o barão vestiu o semblante irônico —. Não percebe que fui responsável por
grandes avanços nessa cidade? Não pode me condenar como tem feito...
— Avanço feito a
partir do sangue de inocentes não pode ser chamado de avanço, não passa de
estratégia de sujeitos ambiciosos — foi firme em suas palavras, não se deixava
intimidar —. Mas não estou aqui para o acusar, já sabe o que penso, não preciso
repetir, no entanto trago uma mensagem que não pode ignorar.
— Está perdendo
tempo por causa de uma mensagem? Não seria melhor delegá-la a alguém?
— Não é qualquer
mensagem, senhor barão, não poderia ser entregue de qualquer maneira — o padre
lançou o sorriso desafiador —. Venho em nome de Deus.
Frederico
gargalhou.
— A idade não
tem feito bem... — zombou.
— Seu tempo está
acabando, seus dias estão contados e o tormento que passará por ter nas mãos a
vida de indefesos pode começar a qualquer momento — o religioso profetizou —.
Essa é a última chance, você ainda pode escolher por voltar atrás em seus
passos desumanos, ainda há tempo para que a humanidade que ainda lhe resta se
sobreponha ao espírito imundo que permitiu dominá-lo. Redima-se com sinceridade
se não quiser padecer.
— Também tenho
um recado para Deus — o homem impiedoso se levantou —. Afrontar-me é um erro!
— Que Ele te
perdoe — o padre deu às costas, seria inútil tentar transformar o coração
infectado pela maldade —. Que a sua alma alcance misericórdia...
##
No próximo capítulo:
—
Quando estiver mais velha compreenderá que feridas no coração custam a se
fechar, ainda que cicatrizadas garantem sequelas profundas, é difícil voltar a
acreditar... — abriu os olhos apagados, levou o olhar à garota cheia de sonhos
e expectativas, cheia de vontade pela vida —. Meu tempo se foi, não tive sorte,
mas você ainda possui uma longa estrada a caminhar, pode ser forte e fazer
valer os nobres pensamentos que possui — aconselhou Sara como a mulher que lhe
dera a luz, ainda que não confessasse, ainda que não abrisse as cortinas,
amava-a com o amor materno.
De segunda a sexta, aqui no blog!
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