[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 13 - Decisão


Capítulo 13 – Decisão

Há tantas formas de incomodar, há tantas maneiras para que consigamos causar desconfortos, desde ser espontâneo de mais até ser calado ao extremo, aqueles que nos rodeiam sempre encontram uma forma para dirigirem seus palpites recusáveis sobre nossas vidas, nossas vontades, nossas escolhas. É mais que injusto. É incompreensível que as pessoas se importem tanto com as decisões que não lhes dizem respeito.
Pedro Almeida, um jovem de discrição inegável, sofria com as expectativas que não criara, que não lhe pertenciam, expectativas impostas em seu caminho por sujeitos insatisfeitos com os próprios passos. Depois que perdera a mãe para uma enfermidade cruel, as coisas se complicaram, ela o compreendia e o aceitava, escutava seus desabafos sem julgamentos, disposta apenas a colher lágrimas inevitáveis e ofertar conselhos necessários.
Inteirado com os negócios do pai, era seu braço-direito na administração, desde que alcançara a confiança de Egídio para tão importante posto vinha alcançando recordes na produção e no faturamento, não considerava os negros, que para a família trabalhavam, como escravos, antes os tratava com toda a dignidade possível, só não ia além a fim de evitar suspeitas.
Mas seus dias não eram preenchidos apenas por estudos e dedicação ao trabalho, descobrira na escrita uma forma de aliviar a alma, expor sentimentos tão intensos que existiam em seu coração. Seus textos emocionavam, suas poesias encantavam e seus contos faziam os assíduos leitores sonharem no universo criado pela sua imaginação. Publicava nos periódicos da região, suas produções chegavam em Portugal, era famoso mantendo o silêncio, mantendo-se na reservada solidão, recusando qualquer aproximação de pessoas que o feririam, o magoariam ou exigiriam dele o que nunca seria capaz de dar.
O que o jovem e talentoso escritor não sabia era que as reviravoltas sairiam das histórias, deixariam os livros e se manifestariam em sua vida, quando menos esperasse, quando menos acreditasse que o pior de seus pesadelos o afligiria com a mudança da realidade.
Sofreria dores amargas.
Dores talvez incuráveis.

— A viagem foi melhor do que imaginávamos, fechamos contratos maravilhosos e firmamos acordos com homens que sabem aproveitar um bom negócio! — Egídio, entrando no escritório do casarão e encontrando o filho focado em suas obrigações, esbanjou contentamento pelos dias que precisou estar longe —. Tudo bem por aqui?
— Fico feliz que tenha alcançado seus objetivos o que, na verdade, não é novidade alguma — encarou o pai com simpatia —. Está para nascer alguém tão convincente quanto o senhor Egídio Almeida — recebeu o homem com um abraço fraterno.
A relação entre ambos sempre fora agradável, tratavam-se como amigos, os sentimentos ficaram ainda mais intensos quando a matriarca daquela família faleceu deixando um irrecusável pedido: que se amassem sobretudo, que fossem o apoio um do outro. A promessa era sagradamente cumprida até aquele dia, quando tudo poderia mudar, quando o mais importante acordo que firmaram anos atrás correria o risco de simplesmente ser esquecido.
— Não me exalte dessa forma, sabe que é tão sedutor quanto eu, só tem me dado motivos para agradecer pela decisão que tomei ao lhe conceder a oportunidade que pediu — repousando o paletó sobre o cabideiro, o cafeicultor se sentou diante o rapaz, o assunto que precisavam tratar era urgente, inadiável —. Aliás, na próxima viagem mandarei a você em meu lugar, precisa conhecer o barão e criar intimidade com aquele que muito em breve será parte da sua história — foi a maneira que encontrou para entrar no assunto que temia, no assunto que sabia ser complicado, no assunto que não aguentava mais evitar.
— Seria uma ótima oportunidade — concordou —. Apesar de dispensar possíveis amigos, nunca falei ser contra parceiros econômicos, apenas não entendi uma coisa, por que o barão faria parte da minha história? — o estranhamento motivou a indagação, a pergunta ansiava por sua resposta —. Não pode estar pensando em se afastar dos negócios!
Egídio não era um homem cruel embora compartilhasse conquistas com Frederico, possuía um bom coração, tanto que não se opôs aos desejos de Pedro por tratar de forma humana aqueles que perversamente eram tratados como animais, porém possuía orgulhos, um ego, não aceitava que seu nome estivesse no meio de assuntos que repudiava e era exatamente o que ouvia: murmúrios que, em sua concepção, difamavam o filho.
Queria proteger o rapaz.
Queria um pouco mais: salvar a honra dos Almeida.
— Meu filho, você já está com os seus vinte anos, é um moço honesto, obediente, admirado em muitos lares, bem falado por muitas moças que se encantam por sua nobreza, por quem você é — encarava o jovem Pedro com seriedade, suas palavras firmes soavam com sutileza, não queria discussões, queria um acordo, agia como se estivesse na presença de possíveis consumidores —. Apesar de todas essas qualidades você permanece solteiro, recusa-se aos bailes, evita os amigos e nunca o vi galanteando as belas moças que vivem na região. Precisa se casar, ter sua própria família, garantir vida longa ao nosso nome e eu já escolhi sua esposa!
A cada palavra que ouvia, a cada verbo que assimilava, a cada frase que procurava compreender, Pedro se enojava, sentia-se oprimido, confuso, não reconhecia o próprio pai e nem aceitava que dele viria o que mais temia: a decisão que jamais tomaria. Por alguns segundos não teve resposta que não fosse o silêncio, organizou os pensamentos, não queria confrontar, ser agressivo, queria apenas alcançar auxílio e compreensão.
— Pai, não deve se importar com a minha escolha e nem precisa se preocupar com o que a sociedade pensará de seu filho, sei que é isso o que o aflige, sei que é por isso que agora estamos nessa conversa, mas entenda... — não pôde completar.
— Dessa vez é você quem terá que entender — sem cerimônia, agindo com impulsividade, Egídio interrompeu a fala do bom moço, aquele assunto não estava em discussão, a decisão repousava sobre a mesa —. Conversei com o barão, pedi a ele que concedesse sua filha, esse foi o mais importante contrato da viagem, irrevogável, inquestionável! — na intenção de deixar o filho com os próprios pensamentos, acreditando que em poucos instantes tudo estaria organizado, o cafeicultor se levantou, preparou-se para partir.
— Nada é inquestionável! — pela primeira vez Pedro não se calou após uma ordem determinada, não aceitou passivamente como sempre fez, não poderia se sujeitar a algo tão pessoal, tão particular, a algo que somente ele poderia determinar —. Não fui consultado sobre casamento algum, ninguém veio me perguntar o que penso sobre me unir a alguém e passar o resto dos meus dias ao lado dessa pessoa e ninguém tem o direito de me forçar a algo que mudará a minha vida para sempre! — não se deixou intimidar, ao contrário, dispôs-se a defender sua integridade —. Nesse assunto cada cláusula é questionável.
— Você é meu filho! — proferiu a fala como se referindo a uma propriedade.
— Exato, seu filho, não um escravo que por medo do tronco lamberia suas botas se assim exigisse! — casamento era seu pavor, sua angústia, não poderia se permitir a isso, não poderia se entregar a quem não amava, a quem nem ao menos conhecia, não poderia se render a outra pessoa sendo já conquistado por alguém —. Não pode me falar uma coisa dessas, não pode se comportar como um autoritário exigente, não pode querer que me case sem amor!
— E quem foi o ignorante que lhe contou que deve existir amor num casamento? — Egídio, ironizando a fala do rapaz, questionou —. Isso é ilusão, coisa da sua mente criativa, uma ideia que apenas serve para a venda de livros, não acredite em tamanha bobagem! — para ele, era um conselho.
— Quer dizer que todas as suas lágrimas quando minha mãe partiu não passaram de fingimento? Não representavam amor?
— Sua mãe e eu quando nos casamos não sabíamos nem os nossos nomes, o amor nasce com o tempo, mas o matrimônio não passa de mais um contrato a ser assinado, é como todas as outras aquisições! — falou ignorantemente.
— Comigo quero que seja diferente, quero que exista um amor para que ele não precise ser construído, mas nutrido, sustentado, fortalecido a cada manhã...
— A vida não é como suas poesias, Pedro! — Egídio cerrou a face —. Se quer tanto que haja amor, em poucos dias o levarei para conhecer sua noiva, assim pode ir se acostumando com a ideia — estava irredutível, jamais voltaria atrás na decisão, ainda mais por esta ter o envolvimento de Frederico Albuquerque.
— Ela concorda com tamanha loucura?
— Vocês não têm com o quê concordar ou discordar, resta-lhes apenas aceitar. Mais tarde farão o mesmo com os seus filhos e assim sempre será!
— Sempre será assim enquanto existirem pessoas sem o menor senso crítico que derrubem uma tradição tão egoísta. Lamento dizer, mas não faço parte dos omissos.
— Mas faz parte dos rebeldes — o olhar sempre afetuoso de Egídio deu lugar ao intimidador, estava decidido, nada mudaria sua mente —. É bom que repense sobre seu ato de oposição. É bom que reconsidere sua postura perante a minha ordem, posso não estar mais disposto a tratar como humanos aqueles que podem colocar minha cabeça na forca, a dignidade deles está em suas mãos! — foi a forma que encontrou para fazer valer suas palavras, para ameaçar alguém que amava, alguém que não queria que vissem como um imundo, imundo aos olhos da sociedade.
Sem a presença do pai, Pedro repousou o corpo no encosto da cadeira, atordoado, passou as mãos sobre a face, a preocupação afligiu seu ser, os olhos se encheram d’água e a opressão gritou aos seus ouvidos: ser feliz, para ele, era o mesmo que ser condenado.
Abriu a gavetinha que mantinha trancada.
Tirou dele um papel dobrado.
Ali estavam as mais preciosas palavras que poderia receber.
“Você é importante para mim”.
As lágrimas desceram.
Lágrimas de amor.


##
No próximo capítulo:

— Não poderia contemplar um homem já velho, exausto pelo injusto trabalho, ser brutal e covardemente agredido sem me manifestar, sem defendê-lo! — nunca expôs seus pensamentos, jamais revelou que era contra o comportamento do pai e de seus serviçais, mas estava cansada de presenciar tantas atrocidades e, por medo, nada fazer. Ao invés de se revestir de prepotência, encobriu-se de valentia, começaria naquele momento sua luta —. Vocês almejam o quê? Que esses homens, que essas mulheres e até mesmo que as crianças trabalhem até caírem de joelhos sem a capacidade de se levantarem? São pessoas! Seres humanos! Quando perceberão isso?


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