[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 03 - O Preço do Pecado
Capítulo 03 – O Preço do Pecado
Portugal
Ao
longo da vida as pessoas constroem segredos, guardam mistérios e lançam energia
a fim de esconderem fatos que jamais gostariam que fossem revelados. No
entanto, há segredos que não podem ficar ocultos por muito tempo, eles
resplandecem, rompem as mais fortes barreiras, assemelham-se ao brilho
fulgurante do poderoso sol que, em todas as manhãs, dissipa as trevas, toca os
montes e atravessa as frestas sem necessitar de permissão.
Rute
Soares, uma jovem sonhadora, era dona de um segredo que por mais que quisesse
não poderia ocultar dos olhos do mundo, seu segredo era imoral, destruidor,
poderia acarretar no seu próprio fim.
Apaixonou-se
por um rapaz de presença atraente, cobiçado pelas donzelas que ansiavam pelo
dia no qual seriam abordadas pelos nobres cavalheiros que propusessem um futuro
de amor. Seus olhos eram voltados apenas ao jovem sedutor, seus pensamentos não
se libertavam do sujeito galanteador e seus ouvidos desprezaram os conselhos da
sábia mãe. Não foi capaz de resistir aos próprios desejos. Não foi capaz de escapar
das investidas conquistadoras do rapaz. Entregou-se a ele se esquecendo das
graves consequências que seu ato renderia, esquecendo-se da rígida sociedade
que a rondava.
Ele
fugiu.
Ela
ficou com a dor da decepção.
E
com o fruto daquele amor não correspondido.
Tão
logo descobriu a gravidez seu espírito muito se angustiou, o desespero tomou
conta de seu ser, o sentimento de desamparo foi a maior e mais insistente
companhia, o pavor pelos dias vindouros causava arrepios de aflição, a vida já
não era vista através de um olhar sonhador, era vivida por um coração
completamente dilacerado.
Conforme
o tempo se passava o segredo ganhava forças contra quaisquer tentativas que
fossem postas para contê-lo, não tinha mais como negar, Rute deveria enfrentar
os julgamentos de seu próprio povo, mas antes precisaria confrontar o homem de
princípios inflexíveis: seu pai.
—
Querido, precisamos conversar, é um assunto que atingirá nossa família de uma
maneira nunca antes pensada, mas suplico que seja moderado e sensato em sua
decisão, não podemos destruir quem amamos — ao início da noite, quando as
janelas eram fechadas e os lampiões alimentados, Isabel, a mãe da pobre moça,
adentrou o escritório do marido mostrando urgência em seu discurso.
—
Tem certeza de que é algo que não pode esperar? — o homem atarefado,
preenchendo e analisando formulários da fazenda que lhe rendia tantos lucros,
mal tirou os olhos dos papéis.
—
Se não quiser ser confrontado por afirmações que o assustarão sobre a nossa
filha nos dará a atenção que precisamos — arrastou a cadeira para que Rute se
sentasse —. Podemos receber sua compreensão?
Tirando
os óculos, relaxando as mãos sobre a mesa, o fazendeiro cedeu sua atenção, não
era um homem mau, apenas irredutível quanto às questões éticas e morais que influenciaram
seu desenvolvimento, não voltaria atrás e nem questionava aquilo que aprendera
a seguir.
—
E, então? Sou todo ouvidos.
Isabel,
que já conhecia a situação da jovem e se mostrara uma mãe cheia de compreensão,
amor e apoio, ofertou à filha o olhar compassivo, o olhar que declarava o
quanto a amava e que para sempre estaria ao seu lado, pouco importavam as
condições.
Como
se estivesse em um tribunal, sendo julgada por crimes perversos e abomináveis,
Rute procurou forças dentro de si para encarar os olhos do pai, conhecia-o bem
o bastante para defini-lo como alguém de bom coração, mas intransigente com
aqueles que julgava de mau comportamento. Seus olhos estavam encharcados e a
garganta parecia sufocar-se. Não poderia adiar por mais tempo aquilo que em
breve o mundo saberia, precisava ser valente, forte, corajosa.
—
Estou grávida.
Paulo
crescera recebendo a educação ultra religiosa dos pais que com tantas regras e
determinações o criaram. Tais incumbências não o abandonaram ao alcançar a vida
adulta, construir sua própria família e trilhar seus próprios caminhos.
Repudiava atos pecaminosos. Repudiava ainda mais os pecadores.
Encarando
a filha com severidade, o fazendeiro procurava raciocinar a frase tão curta,
simples de estrutura, explosiva em seu significado. Não. Aquilo não poderia ser
verdade. Não queria que fosse verdade.
—
Já falei que não gosto de ser importunado por brincadeiras — colocou os óculos
—. Não sei por que insistem...
—
Pai, não é nenhuma brincadeira, eu estou esperando um filho! — aflita, Rute
atraiu a atenção do homem cheio de tantas rígidas convicções, sua fala era
convincente, seu olhar não dizia outra coisa se não que a declaração feita
representava a mais nova realidade que viveriam.
—
Rute...
—
Paulo, não dificulte as coisas querendo acreditar que nada disso é verdade,
jamais brincaríamos com algo assim, nossa filha está gerando uma criança, nós
seremos avós e nada do que fizermos ou dissermos mudará isso, tudo que nos é
permitido é que estejamos unidos! — Isabel, conhecendo o semblante surpreso do
esposo, discursou o que acreditava, faria o possível para que aquela família
não assistisse a cenas de tormento.
Paulo,
fechando os olhos e levando as mãos ao rosto denunciando o incômodo que sentia,
suspirou profundamente, observou a jovem mulher por alguns instantes, em algum
momento fez parecer que agiria como um pai, mas naquela condição pouco lhe
interessava os laços familiares, zelaria pela moral custasse o preço que fosse.
—
Sabe como resolver essa situação, faça o que deve ser feito — suas palavras
atingiram o coração já quebrantado, horrorizaram a moça indefesa.
—
O que quis insinuar? — sua esposa indagou.
—
Não estou insinuando, mas ordenando, já que a besteira está feita quero que a
corrijam!
—
E qual seria a sua forma de correção? —Isabel confrontou o homem de pesadas
crenças.
—
Não querem que meu nome esteja entre os falantes dessa cidade, querem? Não
querem que essa família seja vista como átrio de perversões, querem?! —
colocou-se em pé —. Não tenho o menor interesse em saber como aconteceu, por
que aconteceu, muito menos com quem aconteceu, a única coisa que me importa é
que se livrem dessa gravidez! — dirigiu o olhar ameaçador à esposa, seus punhos
estavam cansados, seu maxilar contraído, a raiva o tomava embora ele tentasse
contê-la —. O que estão esperando?!
—
É impossível acreditar que um homem governado por tantas doutrinas de santidade
agora se use de tamanha crueldade!
—
Não suportaria ver o fruto do pecado correndo por essa casa, pulando no meu
colo e me chamando de vovô!
—
Pode se ouvir?
—
Poupe sua indignação e ajude essa pecadora a alcançar remissão!
Seu
ventre se condoeu, suas entranhas arderam e seu peito se oprimiu. Rute, apesar
das difíceis circunstâncias e da doída ilusão que lhe causara ferimentos, não
queria se desfazer do próprio filho, não queria cometer o que o pai lhe
obrigava, pela primeira vez defenderia seus próprios ideais.
—
Não! Não é assim que resolverei as coisas, não é assim que quero que elas
terminem. Terei o meu filho e nada tenho a ver com as suas convicções, o que
falarão ou pensarão também nunca me influenciará, as pessoas terão que me
aceitar, a mim e ao meu filho, gostem ou não! — em pé, sem qualquer receio,
enfrentou o pai com todos os seus julgamentos.
—
É a última vez que aviso: livrem-se disso! — como se ignorasse as palavras da
filha, Paulo permaneceu em sua postura.
—
Ela já disse o que será feito! Ao invés de condená-la deveria ser o auxílio de
que ela necessitará! — Isabel firmou a voz.
—
Não tenho nada a ver com isso, nada! — dirigiu-se até a esposa —. Ela está a
ponto de humilhar essa casa, acha mesmo que permitirei?
—
Não aja como um monstro!
—
Não me desrespeite! — empurrou a mulher e avançou contra a jovem assustada,
apertou-a pelos braços, encarou profundamente as íris que remetiam à cor do mel
—. É a sua última chance, diga que me obedecerá e saia daqui pronta para
colocar um fim nesse pesadelo.
—
É assim que enxerga o neto que terá? Como um pesadelo?
—
Rute...
—
Não farei o que está pedindo, jamais desistiria de um filho, ele não tem culpa
de nada!
—
Desgraça! — descontrolado, lançou a filha para trás, lançou sem piedade, causou
a queda da jovem mulher na lareira que aquecia o ambiente, viu seu rosto arder
em chamas.
Aos
gritos desesperados, Rute sentia o rosto ser consumido pelo fogo, ainda mais
angustiada, Isabel correu ao encontro daquela que amava, jogou o copo d’água
que conseguiu encontrar, condoeu-se pela agonia presente no gemido da moça.
—
É assim que pretende alcançar remissão para a sua alma? — questionou o esposo.
—
Não era minha intenção feri-la — seu coração poderia sentir arrependimento pelo
ato irracional, mas sua razão permaneceu endurecida diante o que via como
vergonhoso —. Não me oporei mais a essa gravidez indesejável, se fazem tanta
questão que essa criança nasça não reclamarei, no entanto ela não nascerá aqui
— revelou seus intentos —. Arrume as coisas de sua filha — encarou a esposa —,
o Brasil será seu lar!
##
No
próximo capítulo:
Novos
e sucessivos disparos aconteceram.
Victor
abaixou-se dentro da carruagem, levou as mãos à cabeça, procurou se proteger.
Eduardo
fez o mesmo, encolheu-se desesperado, angustiado, amaldiçoando aqueles que o
perseguiram e atacaram de maneira tão covarde, tão ardilosa.
Por
combater contra uma sociedade tão preconceituosamente estagnada, era feito
vítima.
De
segunda a sexta, aqui no blog!
Livros
gratuitos:
Encontre
o blog pelas redes sociais:
Obrigado
pela companhia, um forte abraço e até logo!

Comentários
Enviar um comentário
Não deixe de expressar sua opinião, ela é muito importante!