[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 08 - O Protetor
Capítulo 08 – O
Protetor
Deitado
sobre a relva molhada pelo orvalho da manhã, o adolescente despertou quando o
raio de sol, atravessando os espaços por entre as folhas das copas corpulentas
de árvores robustas, tocou seu rosto anunciando que a noite se fora, o dia
chegara e com ele os perigos que o cercavam.
Espreguiçando-se,
observando o ambiente ao redor na esperança de encontrar algum fruto que lhe
servisse de café da manhã, Felipe, o filho de Adelaide, irmão de Artur, o foragido
da fazenda de Frederico, aprumou a sacola nos ombros e passou a cambalear sobre
as folhas que cobriam o solo.
Felipe
era um garoto corajoso e sonhador, seu passatempo predileto era criar música,
tirar som dos instrumentos que encontrava. Amava violino. Uma vez, responsável
por buscar água no poço, deparou-se no caminho com o instrumento de cordas
abandonado, levou-o consigo, fez os ajustes necessários e levou música à
senzala. Porém, aqueles que dominavam e oprimiam os negros, não se sentiram
confortáveis com o dom do adolescente, não se conformaram que alguém que
subestimavam possuía um talento tão admirável. Silenciaram-no. Proibiram-no de
fazer o que mais gostava, aquilo que o aliviava da cruel perseguição.
Nunca
negou que amava a família, mas também nunca escondeu o desprazer que sentia por
viver uma vida tão miserável. Queria se arriscar, queria ter a oportunidade de
mostrar ao mundo que não servia apenas para puxar carroças, para trabalhar
incansavelmente por um prato de comida, mas que tinha algo a oferecer, o seu
melhor, a sua música!
Encorajado
pela mãe, que o enxergava realizado, e motivado pelo irmão, que ansiava vê-lo
voar, Felipe se alimentou de forças e esperança, aceitou a oportunidade de
fugir, de se libertar, de fazer história e provar aos seus irmãos que eles não
deveriam se render, aceitar calados a ignorância do homem branco, mas que
precisavam lutar pelos próprios ideais, pela própria ascensão.
Não
tinha nada a não ser a vontade de crescer.
Essa
vontade o acompanhava na mata imensa.
Deveria
seguir ao quilombo, lugar onde escravos foragidos se reuniam e viviam seguros
da prisão, aguardavam por ele, asseguravam que lá teria condições de se
desenvolver como o músico que sonhava. No entanto, seguindo nos passos
tortuosos, ouviu vozes raivosas.
Interrompeu
o caminhar.
Encostou-se
na árvore volumosa.
Fez
o mais absoluto silêncio que conseguira.
—
Foi tudo planejado, não há a menor dúvida! Aproveitaram a confusão para que o
insolente fugisse, mas não pode ter ido longe, não passa de um manco que pensa
ser digno de aplausos, pobre coitado... — um dos homens armados disse ao outro,
trabalhavam para Frederico, estavam à procura do foragido.
Felipe
conseguiu ouvir a ameaça, foi quando o receio soprou em seu ouvido, angustiou
sua alma e trouxe dúvidas a sua mente. Deveria ter imaginado que era loucura,
era insano, era imprudente seguir com o plano. A quem intencionava enganar? Ao
poderoso barão? Ao homem cruel que não se rendia em guerra alguma? Concordou
que não passava de um manco, concordou que não deveria sonhar com a música, não
era digno de reconhecimentos, deveria se reduzir à insignificância com a qual
era tratado.
Prestes
a desistir de tudo, recordou-se de uma promessa.
A
mais importante.
Poucos dias antes...
Ao final da tarde, quando os
escravos se dirigiam à senzala na ânsia de descansarem os corpos pelo árduo dia
de labuta, Artur levou o querido irmão ao riacho onde se encontrava com Ana,
contou a ele o que ali acontecia, a perigosa história de amor que vivia e o que
o fortalecia para tal loucura.
— Não quero perder quem amo, quem
garante prazer aos meus dias, quem me oferta sonhos tão prazerosos em muitas
noites, não quero perder aquela que representa o futuro, a vitória, a eterna
felicidade — encarou o adolescente —. Um dia você compreenderá que em nome do
amor somos capazes de coisas das quais correríamos, coisas que evitaríamos,
esse sentimento tão nobre é a arma do guerreiro!
— Sempre percebi que a filha do
barão tem uma maneira diferente de nos tratar, mas nunca imaginaria que ela e
meu irmão são tão próximos ao ponto de arriscarem suas vidas... Vale mesmo à
pena?
— Qual é o seu maior sonho?
— Você sabe... — levou o olhar
juvenil às águas cristalinas —. Queria que as pessoas ouvissem minha música...
— Não se acha digno de tal
conquista?
— Talvez...
— Talvez não, você é, nós somos! —
colocou a mão sobre o ombro do irmão —. Não acredito que estejamos nesse mundo
para vivermos como os animais, para sermos míseros serventes que satisfazem uma
gente cruel e gananciosa, temos algum propósito e todo o esforço que fizermos
por ele valerá muito a pena! — foi encarado pelo olhar do mais novo, o olhar
que necessitava de coragem —. Ana me ama, sinto isso todas as manhãs, e eu a
adoro, não posso negar o que sinto e nem permitir que me digam quem eu devo ou
não amar, esse sentimento é independente de conceitos, apenas existe e se eu
precisar sofrer por ele estou disposto a todas as dores porque acredito que sou
um ser humano como todos os outros, sou digno de ser feliz!
— Está dizendo isso para me
encorajar?
— Acredito em você, no seu tamanho,
na sua força e quero muito vê-lo sobrevoar os limites impostos, quero que seja
feliz, que possa esquecer as angústias desse mundo enquanto se preocupa apenas
com a própria realização — lançou um sorriso ao menor —. Quero dizer ao mundo
que o meu irmão é o melhor violinista que poderia conhecer!
— Não sei se conseguiria
deixá-los... — amava a família como seu mais precioso bem.
— Nossa distância será momentânea e
a sua felicidade recompensará a saudade — trouxe o mais novo para um abraço
cheio de fraternidade —. Promete que vai escolher aquilo que o fará feliz?
— Prometo que seremos felizes...
Se
desistisse, se naquele momento de adversidade retrocedesse no caminhar, não
garantiria alegria àqueles que confiavam no seu potencial, que seriam capazes
de tudo para que ele realizasse seus sonhos.
Queria
fazer a família feliz.
Mais
do que o orgulho dos outros, queria orgulhar a mãe e ao irmão.
Respirou
fundo.
Avançou.
Porém,
os homens maldosos ouviram os passos apressados, gargalharam ao avistar o
garoto manco caminhando desesperado, fizeram disparos aleatórios, instauraram
pavor no coração do pobre Felipe que, perdendo o equilíbrio, tombou sobre o
chão.
—
A valentia de vocês, bando de imprestáveis, é uma verdadeira e incontestável
piada! — um dos homens exclamou —. Pena que não gostamos de rir.
Os
opressores avançaram.
Mas
foram paralisados pela surpresa indesejável.
Montado
no cavalo preto, vestindo a capa famosa pelas redondezas e escondendo o rosto
atrás da máscara que muitos adorariam arrancar, o Protetor surgiu no meio da
mata, galopava furioso, o animal relinchava poderoso.
Os
homens se assustaram, conheciam a fama do sujeito impiedoso com os inimigos,
cruel com aqueles que oprimiam e escravizavam seres humanos, bondoso com
aqueles que precisavam de misericórdia.
Tentaram
correr.
Mas
o Protetor os cercou.
—
O que pensavam fazer?
Ninguém
respondeu.
—
O que pensavam fazer?! — pulou do cavalo, tirou da bota esquerda o canivete
afiado, o terror dos capangas.
Disparos
altivos.
Era
uma emboscada.
Tinham
certeza de que o Protetor surgiria para defender o inofensivo adolescente, era
a valiosa oportunidade que buscavam para colocar as mãos em alguém que por
fazer o bem era terrivelmente odiado, homens pularam das árvores, fechavam o
cerco.
Sem
tempo para cobrar dos inimigos todo o mal que deviam, o Protetor assoviou para
o animal que se colocou em posição de corrida, jogou o jovem escravo no lombo
do cavalo, montou no quadrúpede em um gestou ousado, suplicou aos céus para que
os tiros raivosos não os atingissem.
Já
próximos da cidade, longe da fazenda do barão e de seus termos, o Protetor
recomendou a Felipe que entrasse na primeira hospedaria que encontrasse, um
amigo especial o receberia com conforto e segurança. Conhecendo aquilo que
sempre acreditou que não passasse de um personagem lendário, o adolescente
obedeceu, confiou no sujeito misterioso, não tinha ninguém mais em quem pudesse
acreditar.
Voltando
solitário para a mata, o Protetor adentrou a caverna onde escondia seu fiel
companheiro, tirou a roupa de guerreiro, ajeitou os cabelos desgrenhados,
agradeceu por ter tido a oportunidade de mais uma vez honrar a memória do pai.
O
Protetor tinha um nome, uma identidade, uma história: chamava-se Victor Ferraz.
Continua...
##
No próximo capítulo:
— Sabe, Felipe, que ninguém ouça
o que vou dizer, mas o que acontece nesse mundo tão bruto me enoja
constantemente, fico pensando o que passa em suas mentes, o que sentem seus
corações... — não se incomodou pelo silêncio do jovem garoto, sua intenção era
fazê-lo se sentir bem, livre de quaisquer imposições, livre de quaisquer
regras, livre para ser quem era —. Eu sinto raiva, ódio e me sinto um covarde
por não conseguir fazer nada para mudar isso, tudo o que eu queria era que
houvesse justiça e que fôssemos vistos como iguais independente de cores,
iguais porque somos humanos.
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