[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 19 - O Prazer da Liberdade
Capítulo 19 – O Prazer da Liberdade
A liberdade é a
maior dádiva que pode ser concedida aos homens. Ser livre para viver a própria
existência é um tesouro que muitos só dão valor quando o perdem, quando são
forjados de seu poder de escolha, quando são ultrajados daquilo que nos garante
a possibilidade de inventar, criar, refletir, decidir dentre as opções qual a
melhor agrada.
Felipe, por sua
vez, até poucos dias acorrentado por uma sociedade fria e injusta, aprisionado
sendo inocente, encarcerado sem nada dever, agora aproveitava a chance que
tinha para desfrutar da liberdade, não se cansava de exercer o dom que possuía,
não se enfadava de agradar a própria alma a partir do melodioso som que tirava
do violino.
Som que
atravessava as paredes.
Som que tocava
os corações.
Rute, vizinha de
Victor, rendida aos dias de intensa solidão, sequestrada por um passado cruel
que insistia em se fazer presente, ainda de manhã, quando o sol é agradável
àqueles que sabem apreciá-lo, recostou-se na varanda de seu quarto, atentou-se
a música que soava, que entrava em seus ouvidos e trazia calma ao seu espírito
atordoado. Queria saber quem era tão talentoso músico. Queria saber por que
nunca havia tocado antes, por que escondera por tanto tempo a preciosidade que
era capaz de oferecer aos sedentos por paz.
— Linda melodia,
não acha? — Sara adentrou o cômodo de sua ama, repousou sobre o criado-mudo a
bandeja de café, aproximou-se da mulher mascarada —. Nossas manhãs têm sido
mais leves desde que decidiram nos presentear com som tão belo...
— Quando mais jovem,
quando as coisas pareciam mais fáceis e o futuro se dizia um grande presente,
amava tocar, meus dedos dançavam sobre o piano, ficava horas incansáveis
protegendo minha mente de pensamentos estrondosos através de músicas sutis e
envolventes, era um prazer... — nostálgica, mantendo os olhos fechados a fim de
apreciar a mais discreta das notas, Rute fez uma visita ao passado, antes do
tempo se fechar, antes das nuvens encobrirem o céu e o sol perder seu lugar.
— Adoraria vê-la
tocar... — a garota se mostrou curiosa, sabia que o piano na sala era mais do
que um enfeite, representava parte da triste história daquela que perdera a
satisfação das coisas que antes não se imaginava sem —. Não pode deixar que os
maus momentos levem embora sua alegria pela vida, nossa experiência nesse mundo
é efêmera, não podemos perder o precioso tempo...
— Quando estiver
mais velha compreenderá que feridas no coração custam a se fechar, ainda que
cicatrizadas garantem sequelas profundas, é difícil voltar a acreditar... —
abriu os olhos apagados, levou o olhar à garota cheia de sonhos e expectativas,
cheia de vontade pela vida —. Meu tempo se foi, não tive sorte, mas você ainda
possui uma longa estrada a caminhar, pode ser forte e fazer valer os nobres
pensamentos que possui — aconselhou Sara como a mulher que lhe dera a luz,
ainda que não confessasse, ainda que não abrisse as cortinas, amava-a com o
amor materno.
— Serei
tremendamente feliz quando vir o brilho no seu olhar... — assegurou empática —.
Tome o café, preparei com todo o carinho, em poucos minutos irei às compras, se
quiser me acompanhar será um prazer — como sempre, fez o convite.
— Quem sabe um
dia... — como sempre, negou —. Aproveite e compre um vestido para você, não se
importe com preços, mas apenas com o seu gosto.
— Mas há poucos
dias sugeriu o mesmo...
— É o mínimo que
posso fazer, minha querida, se ainda estou em pé devo à sua companhia!
Ao dar a última
nota, Felipe abriu um sorriso espontâneo. Quando provou da boa felicidade?
Quando imaginou que faria o que mais gostava livremente? Parecia um sonho, mas
tinha consciência de que vivia a melhor das realidades.
— Ainda não
consigo acreditar que aprendeu a tocar apenas sendo curioso, com tanta
perfeição fica difícil de convencer! — Victor, sempre espantado com a desenvoltura
do jovem violinista, orgulhava-se por contribuir com alguém que via sentido na
vida quando entre os dedos colocava o violino.
— Eu acredito
que nascemos com algum propósito, uns o encontram de repente, outros precisam
procurá-lo, mas todos temos algum objetivo — Felipe, permitindo-se aos belos
encantos do filosofar, descobrindo que viver era muito mais do que servir, dava também conselhos,
oferecia reflexões, inspirava o bom homem a prosseguir em seus intentos.
— Precisamos
fazer algo para que essa cidade o ouça. Você merece ser reconhecido pelo seu
dom e as pessoas precisam entender que não importam as diferenças, somos todos
de uma mesma família, temos muito a contribuir uns com os outros, precisamos
nos enxergar como irmãos!
— Não quero
reconhecimentos, quero apenas tocar minha música, permitir que meu coração
fale...
— Se se
mostrasse ao mundo poderia até mesmo encontrar um amor... — tentou encorajar.
O jovem garoto
ficou pensativo por alguns instantes, nunca pensou em formar uma família, em construir
com alguém uma história incrível, afinal, esteve condenado à servidão, fadado a
viver por interesses alheios e egoístas, mas agora, desfrutando da liberdade,
descobriu-se livre para pensar no amor. Mas ainda assim sentia receio, não
queria arriscar, embora sentisse segurança ao lado daquele que tão bem o
acolhera não se sentia preparado para lutar contra um povo preconceituoso,
inflado em ódios incabíveis, em anseios perversos.
Preferiu mudar a
resposta.
— Você encontrou
o seu amor?
Victor ficou em
silêncio, refletiu sobre os anos de vida, relembrou o passado, quando perdera
os pais em nome da maldade, da perversão, em nome de interesses nojentos de
homens desprezíveis. Não teve um amor que o ajudasse nos dias difíceis.
— Passei minha
vida honrando a memória de meus pais, em alerta para que nenhum inimigo me
atacasse desprevenido, vejo que não me atentei ao meu coração, os anos se
passaram e sozinho estou...
Alguém bateu à
porta.
O desabafo
precisou terminar.
Simpático, como
sempre o era, Victor não tardou em atender o inesperado visitante, não
escondeu, também, o espanto
— Sara?!
— Estou indo às
compras, mas antes precisava vê-lo, é meu dever agradecer por estar garantindo
manhãs, tardes e noites mais agradáveis, sua música nos envolve de uma forma que
nada pode se comparar... — a boa garota, amiga do educado sujeito há um bom
tempo, exibiu toda a admiração —. O que me espanta é que tenha escondido todo
esse talento!
Por uma questão
de segurança, Victor pensou em esconder a verdade, aceitar os elogios e ser
tido como um artista de ímpar sensibilidade, mas achou injusto tomar para si a
glória daquele que de fato a merecia, considerou que Sara era alguém de
confiança, mais que isso, alguém de nobre alma que não se incomodaria com a
verdade.
— Importa-se de
entrar por alguns minutos? Prometo não tomar muito do seu tempo.
— Alguns minutos
não fazem mal — a jovem moça cruzou a entrada —, ainda mais se for para ouvir
de perto o que tem confortado meus dias.
— Precisa saber
que não sou eu o músico que tem alegrado suas horas.
— Mas poderia
jurar que o som vem daqui.
— Sim, não está
enganada, mas não sou eu o artista — o anfitrião conduziu a convidada até a
sala de sua casa, ofereceu-lhe para que se sentasse —. Antes de lhe conceder o
prazer de conhecer o verdadeiro autor preciso que me prometa guardar segredo,
nem todos estão preparados para a descoberta que fará.
A garota
assegurou que era de confiança, estava ansiosa por dar os parabéns ao merecedor
de sinceros aplausos. O bom homem pediu licença, disse que voltaria em breves
segundos, traria consigo o violinista que anonimamente encantava a vizinhança.
Felipe se
apresentou.
Tímido.
Acanhado.
Apresentou-se
como o músico que impressionava, que encantava, que fazia suspirar, que fazia
sonhar quem fosse agraciado pelo divino som que ofertava, o músico que também
poderia se impressionar e encantar-se, o músico que se impressionou e se
encantou pela beleza da admiradora que não sabia ter.
Sempre
extrovertida, Sara parabenizou o jovem garoto pela bela arte que fazia, mostrou-se
grata por alguém que de tão imensa nobreza compartilhar o de que melhor tinha a
dar, mostrou-se também indiferente às diferenças, importava-se apenas com o ser
humano.
Pediu uma
música.
Felipe não
negou.
Enquanto se
entregava ao momento de pura emoção que apenas a música é capaz de causar, Sara
percebeu algo estranho em seu ser, passou a observar o músico que tinha a sua
idade com olhos que iam além da admiração, com olhos de carinho e interesse, um
interesse que não conseguira explicar, apenas sabia que era agradável de
sentir.
Da liberdade
nascia um novo amor.
Continua...
##
No próximo capítulo:
—
Não subestime o dom que possui de maneira tão rude, já imaginou quantos
adorariam possuir o talento contido em seus dedos? — não acreditava na
filosofia pregada contra os negros, ao contrário, via-os como deveria, como
seres humanos livres para a vida que desejassem. Não hesitou em chamar a
atenção daquele que ganhara o seu carinho —. De que importa a cor da sua pele?
Se você não acreditar que é merecedor, ninguém vai.
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