[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 06 - Ousada Imprudência


Capítulo 06 – Ousada Imprudência

20 anos depois

Algumas coisas favorecem tanto a elite dominadora que custam desaparecer, perpetuam-se pelas gerações, atravessam os anos sem perder a força, o vigor, o tempo passa e ao invés de experimentarem o desgaste se mostram a cada dia renovadas, revigoradas, nutridas energicamente.
Era o caso da escravidão.
Daquela maldita e desumana opressão justificada por um fato banal: perseguição a cor ignorantemente discriminada.
No entanto, esse mesmo tempo que parece revitalizar o preconceito, a discriminação, a crueldade, é o que faz nascer no peito oprimido o cansaço, o repúdio, o desprezo pela condição na qual vive, mais que revolta, faz brotar no coração o desejo por lutar, batalhar, confrontar e destruir os opressores.
O tempo fortalece a todos.
A guerra determina o vencedor.
A fazenda de Frederico, o barão da província de São Pedro, servia como palco para o espetáculo sangrento: escravos motivavam a rebelião, arrebentavam as amarras e davam voz ao grito que pulsava em suas almas: grito por liberdade!

Alguns instantes antes...

Joaquim, açoitado no tronco há vinte anos, servindo de objeto às mãos que descarregavam a fúria que fervia o sangue do homem cruel, não pôde resistir à surra impiedosa, teve que render o espírito guerreiro, a alma rebelde, não foi poupado do último suspiro.
Contudo, alguns meses depois, nascera a criança que se transformaria no rapaz que seguiria os seus passos, honraria a sua memória, cobraria daqueles que deviam a sua morte. Nascera aquele que herdara o espírito guerreiro, a alma rebelde, o desejo impetuoso de devolver a dignidade ao seu povo.
O destemido rapaz se chamava Artur, o jovem escravo que se colocou diante sua irmandade e motivou a valentia em cada sujeito desesperançoso.
— Até quando nos prostraremos ao nosso inimigo? Até quando nos permitiremos à humilhação que ninguém merece? Até quando estaremos debaixo da covardia que nos esconde do abominável opressor? — os olhos castanhos brilhavam, possuíam a força de um sonhador, a esperança de um jovem disposto a tantas conquistas —. De que adianta acreditarmos, crermos, se não agimos? De que adianta fazer tantas preces se não podemos confiar naquilo que suplicamos? De qualquer forma morreremos, que seja lutando!
A senzala se alvoroçou.
Homens encorajados se espantavam pela força do destemido rapaz, filho de Adelaide, fruto da mulher que certo dia provou da nojeira de um monstro.
Aprumaram-se.
Lutariam com Artur.
— Não será fácil, mas devemos tentar — recomendou —. Os mais fracos fiquem, intercedam por aqueles que colocarão suas cabeças em risco, façam votos para que abracemos a nossa liberdade!
Mulheres, crianças, idosos e aqueles que não tinham condições de combater ficaram na senzala, não poderiam participar da rebelião, eram considerados vulneráveis, seriam os primeiros a pagar com a vida o alto preço da afronta.
Artur e os seus abriram o portão de ferro, não se incomodaram com o som do atrito entre a chapa e o solo, acreditavam piamente que aqueles portões eram abertos para que nunca mais se fechassem. Esqueceram-se da cautela diante o poderoso e feroz adversário.
Era noite.
Mas os capangas do barão, de vigília em meio à escuridão, não deixaram de perceber os escravos sedentos por justiça. Na verdade eles não se preocuparam com discrição, não se preocuparam em atacar sorrateiramente, queriam o inimigo mais desperto do que nunca para que o gosto da vitória sobrepusesse às dores do passado.
Os capangas se apressaram em subir nos cavalos e tomar posse de seus armamentos, no entanto alguns foram derrubados por escravos ansiosos por virar a página da desoladora história que viviam.
Alguns perderam a miserável vida que levavam em nome do ódio banalizado.
Mas Frederico, relaxado em seus aposentos, procurando o desejado sono, ouviu a gritaria, correu à janela e contemplou a cena caótica que tomava sua fazenda, mais do que depressa exigiu que os soldados que tinha à sua disposição despertassem do sono e expurgassem quem se levantava contra o seu poderio.
Homens atacando homens.
Ferimentos na carne e na alma.
Os escravos procuravam resistir, golpeavam seus opositores na intenção de machucá-los, intimidá-los, espantá-los, mas eles próprios eram mortos.
O primeiro mártir soltou o grito de desabafo antes de cair ao chão tendo no abdômen uma lança atravessada.
Os assustados olhos de Artur avistaram outro companheiro sendo apunhalado covardemente e vomitando o líquido da vida. Foi quando ergueu os braços. Rendeu-se. Seus parceiros o imitaram.
Sob a ordem de homens tão astutos colocaram-se de joelhos, precisaram colocar as mãos para trás e deixar o peito vulnerável a qualquer ataque, a qualquer atitude traiçoeira, a qualquer vergonhosa covardia.
Respeitado, pisando firmemente sobre o chão que tinha sob os pés, Frederico se apresentou rodeado pelos soldados que juraram defendê-lo incondicionalmente. Colocou-se diante os homens acuados, o silêncio era apavorante, o medo pelo porvir imobilizava aqueles que até poucos instantes eram revestidos por invejável bravura.
— Quem é o responsável por essa insana palhaçada? — soou a corpulenta voz.

Enquanto a árdua batalha acontecia e guerreiros destemidos procuravam a sonhada salvação, Adelaide saía com o filho mais novo para o terraço, queria lhe conceder a chance de escapar, de viver outra vida, de estar protegido.
— Não sei se ainda quero partir, não sei se serei forte o bastante! — o adolescente, com seus dezessete anos, encarou a mãe debaixo do céu estrelado, iluminado pelo potente brilho da lua desinibida, sentiu medo, sentiu insegurança, sentiu também que não passava de um ingrato covarde —. Como ficarei sabendo que deixei minha família para trás? — seus olhos encharcaram-se, o sentimento que compactuava por aqueles que possuíam o seu sangue ardia no coração.
— Sabe que Artur e eu desejamos que viva o futuro que não podemos lhe dar, que não podemos lhe garantir — acariciou o rosto do filho sentindo as fisgadas da dor da despedida —. Você é talentoso, esforçado, não queremos que seja enterrado com toda a preciosidade que possui, com todo o significado que a nós representa — abraçou o garoto desconsolado —. Vá à nossa frente, seu irmão estará ao meu lado para que um dia possamos nos unir outra vez!
— Eu te amo — aconchegou-se naquele gesto de afeto, não sabia quando seria o reencontro, a próxima op0rtunidade de declarar à mãe todo o apreço que sentia.
Os corpos se distanciaram.
Adelaide viu o filho manco desaparecer em meio à sombra da noite.
Era melhor assim.
Se continuasse na fazenda seria morto por conta daquilo que chamavam de defeito, daquilo que o tornava menos apto ao trabalho exigido.
Sabia que no quilombo o abraçariam como ela o abraçou.

Tendo como resposta o silêncio daqueles que escravizava, Frederico se sentiu desrespeitado, desobedecido, sentiu que o temor que a ele deviam diminuía. Porém não estava disposto a tolerar rebeldes, não teria misericórdia com revoltados.
— Já que ninguém se manifesta, matem todos! — deu às costas.
— Fui eu! — firme na voz, Artur se entregou —. Eles não têm culpa de nada, foram incitados a isso, eu os convenci!
Desenhando nos lábios o sorriso debochado, o barão se virou ao rapaz honrado, encarou-o severamente, apesar de odiá-lo intensamente não se livrava do escravo que mais lhe rendia, mas já não sabia se permaneceria tão compassivo com alguém que desafiou o seu poder.
— Mas é claro que possuem culpa. Aceitaram fazer parte nessa conspiração imprudente. Serão culpados pela sua morte! — golpeou a barriga de Artur, viu-o se contorcer buscando alívio para o sofrimento —. Acha certo bancar o herói? Acha sensato se aventurar em territórios cheios de armadilhas? — puxou o escravo pelos cabelos —. Considero sua atitude como um gesto suicida! — empurrou o jovem para o chão, pisou em sua mão.
Voltando à senzala, curiosa por descobrir o que acontecia no aglomerado de homens, Adelaide se abateu grandemente ao ver o filho entregue às maldades do homem amargo em suas decisões. Não se permitiria a outra separação.
— Senhor, tenha compaixão! — o olhar contristado encontrou o prepotente, suplicou por misericórdia —. Não tire de mim o que me resta...
O barão se calou.
Não era piedade o que sentia.
Não era bondade o que faria.
Ninguém era capaz de desvendar suas razões.

— Ensine esse moleque a respeitar quem lhe concede pão — aconselhou em tom ameaçador —. Não haverá outra chance!


##
No próximo capítulo:

— Sabe que é impossível não me preocupar, não me afligir, não derramar lágrimas quando sei que alguém que estimo corre riscos sobre os quais não possuo o mínimo domínio, sabe que tenho medo de perdê-lo — acariciando o rosto do rapaz não mais para espalhar o medicamento, mas em um gesto de profundo afeto, de doce carinho, a moça observou o olhar que brilhava apesar de tantas adversidades, o olhar que não perdia as esperanças sobre os dias de glória —. Sinto muito que tenha se machucado, sinto muito que tenha sido meu pai o causador desse incômodo, sinto muito que não possamos ser como tantos casais... — seus olhos se encharcaram, o peito se afligiu, sentiu vontade de chorar, por algum momento se sentiu incapaz de aguentar tantos sofrimentos em nome da felicidade.

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