[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 16 - Desejos
Capítulo 16 – Desejos
Cada um encontra
uma maneira para que as dores sejam aliviadas, cada um usa de determinada
estratégia para que o pesadelo de tormenta seja silenciado, ofuscado e
esquecido. Isso é natural. O ser humano sempre procurou formas de vencer o
sofrimento ou ao menos suavizá-lo.
Felipe, o jovem
escravo salvo pelo Protetor, filho de Adelaide e irmão do honrado Artur,
encontrou na música sua válvula de escape para as opressões de uma realidade
injusta e impiedosa. No entanto, os homens dominados por espíritos perversos,
jamais satisfeitos com a dor que proporcionavam aos seus semelhantes, também
não se cansavam de atormentar suas vítimas, de fazer valer a mente cruel e
violenta que comandava seus passos. O garoto foi proibido de produzir o
agradável som que conseguia, foi arrancado da única coisa capaz de lhe ofertar
paz, que o fazia se lembrar de que, apesar do tratamento rude e injustificável,
era membro da humanidade.
Contudo, apesar
das proibições, nossos desejos nunca se esvaem, somente nós mesmos podemos
trocá-los, esquecê-los, tirá-los de nós, homem nenhum é capaz de mexer em
nossos mais íntimos sentimentos. O instrumento foi tirado de suas mãos, mas não
foram capazes de arrancar do talentoso Felipe seu desejo pela música, o sonho
de ser um grande músico, de através do violino tocar o coração das pessoas,
mostrar que era muito mais do que um escravo forjado de sua nação, separado de
seu povo, era um homem quanto qualquer outro, digno de admirações e aplausos.
Andando pela
casa de Victor, o bom sujeito que o acolheu em seu lar, o jovem escravo se
entusiasmou ao encontrar o violino repousado sobre a cama do anfitrião.
Esqueceu os bons modos. Adentrou o quarto alheio. Foi seduzido pelo objeto de
apreciação. Não conteve a emoção ao, depois de tanto tempo impossibilitado,
possuir entre os dedos aquilo que o atraía, que o envolvia, que alimentava seus
sonhos, que o enchia de esperanças, que o fortalecia para que um dia tivesse a
chance de desfrutar da liberdade.
Trêmulo, tamanho
era o contentamento, Felipe deslizou o arco sobre as cordas afinadas, fechou os
olhos a fim de melhor apreciar o adorável som das notas que tocava. Lembrou-se
de uma querida melodia. Executou-a com o sentimento de um verdadeiro músico.
O som estava
perfeito.
Era encantador.
De volta em
casa, procurando pelo hóspede que com tanto apreço cuidava e protegia, Victor
percebeu o som harmonioso soando por aquelas paredes, confessou em seu intento
que o violinista era bom, era sensível, era capaz de fazer balançar os
corações. Interrompeu os passos na porta do quarto. Admirou-se por contemplar o
jovem músico completamente entregue ao seu dom, rendido ao que de melhor
conseguia fazer.
Por alguns
minutos contemplou a boa música.
Até que o
artista devolveu aos próprios olhos o direito de ver a luz.
— Perdoe-me! —
como se tivesse cometido algum gravíssimo delito e precisasse de remissão para
que não sofresse as severas consequências, Felipe guardou apressado o
instrumento, arrependeu-se pela fraqueza que deixou vencê-lo, não deveria ter
sido tão ousado contra alguém que de bom grado o recebera.
— Perdoar-lhe
por ser um jovem de especial essência? — Victor, visivelmente emocionado,
adentrou o cômodo —. Não hesite em exercer aquilo que o agrada, a partir de
hoje esse violino é seu! — presenteou o garoto, não fazia parte do grupo dos
opressores, pertencia àqueles que se necessário eram capazes de doarem as
vestimentas do corpo —. É sobre isso que tanto falo! Seu povo não merece estar
submerso num mar de aflições, angústias e escravidão. Entre vocês há escultores
maravilhosos, pintores admiráveis, músicos magnânimos, toda a sorte de talentos
preciosos e indispensáveis para que o nosso mundo seja um lugar mais vívido e
belo! — acreditava fielmente no que dizia, era seu mantra, a razão pela qual
lutava, via os negros como eles eram: seres humanos —. Com quem aprendeu a
tocar tão bem?
— Não sei ao
certo, apenas sei que é o que mais me agrada fazer! Enquanto estive na fazenda
do barão por alguns dias toquei, ofertei aos meus companheiros um pouco de
música, ela nos pacifica. Porém, os homens daquele lugar silenciaram a mim, não
pude permanecer em minha vontade, tive que me render à coibição se quisesse
sobreviver...
— Pois então não
se apavore mais com esses medos e receios, aqui você é livre, livre para ser
quem é, para fazer o que almeja, para esbanjar o dom que possui! — orgulhava-se
pelo jovem garoto —. Farei o possível para que essa cidade o aplauda! —
prometeu.
¤
Aquele que ama
mais parece um enlouquecido, parece perder a noção do que é ou não perigoso,
parece desconhecer os limites da sua fragilidade, parece esquecer de que no
mundo há inimigos terríveis sedentos por causar dores e motivar lágrimas de
angústia. Aquele que ama não teme o mal, importa-se apenas em provar do amor.
Na beira do
riacho que tantas promessas e declarações apaixonadas testemunhara, ao nascer
do sol e romper da manhã, o casal que em segredo alimentava um amor fatal mais
uma vez encurtou as distâncias, matou a saudade, saciou a vontade de contemplar
os olhares um do outro, de tocar um ao outro, de envolver-se através do beijo
repleto de desejos e sentimentos.
Era assim em
cada encontro.
Assim era em
todos os reencontros.
Pura emoção.
— Sonhei que
estávamos longe de tudo isso, distantes de toda a perseguição, em um lugar no
qual tínhamos liberdade de destrancar os corações sem a preocupação de sermos
descobertos e acorrentados por amar, por alguns instantes, ao abrir os olhos,
ainda que imaginariamente, experimentei o quão bom seria se tivéssemos o
direito de sermos felizes — deitada sobre o peito do namorado, observando as
poucas e leves nuvens que vagarosamente passeavam sobre o azulado céu da manhã,
Ana contou o sonho que lhe ofertou uma agradável noite, o sonho que reproduzia
seu maior desejo: o de ser livre para amar, para estar com a razão de seus
pensamentos apaixonados.
— Temo pelo dia
no qual só poderemos estar juntos se fugirmos, se nos escondermos em regiões
nas quais seria impossível que nos encontrassem — passeando os dedos pelos fios
macios que não se enjoava de tocar, mostrando preocupação na forma como
pronunciou o pensamento, Artur também encarava o céu quase límpido, mas seus
intentos o levavam para o último confronto que teve com Frederico, quando o
barão o proibiu até mesmo de mencionar o nome de Ana.
— O que quer
dizer? — perdendo a paz, criando hipóteses na mente, a jovem moça ergueu-se,
apoiou os cotovelos sobre a relva, levou o olhar apreensivo àquele que muito
amava, por algum momento pensou que este começava a se cansar, pensava em
desistir.
— Seu pai me
procurou, não gostou de saber que a ajudei a se levantar no dia em que
Sebastião a empurrou, proibiu-me de me aproximar, proibiu-me até mesmo de
proferir o seu nome — acariciou o rosto sutil da amada namorada, em simples
toques sentia a alma se acalmar, o peito se aliviar, sentia um pouco de paz —.
Mas veja só o que estou fazendo... Não só estou perto como a toco, não só
menciono o seu nome como a anuncio que é o amor da minha vida, a mulher com a
qual quero construir um futuro, a rainha dos meus melhores sonhos...
O semblante de
Ana alternou entre o sorriso envergonhado pelas declarações que recebia para o
olhar apreensivo pela revelação que seus ouvidos receberam, irou-se por aquilo,
mas o que poderia fazer? Arriscar seu único grande amor?
— Está se
colocando em perigo por mim...
— Por você eu
desceria ao mais profundo abismo — beijou a delicada mão em um gesto
cavalheiro, repousou a dama novamente em seu corpo, não queria preocupá-la com
questões que não poderia resolver —. Não se incomode com esses pensamentos, sei
o que estou fazendo, até onde estou disposto a ir... Morreria, mas morreria
feliz por saber que fui digno de receber o mais especial e nobre dos amores: o
seu amor!
— Sabe que temo
pela sua vida e que nunca me perdoaria caso algo terrível acontecesse, mas não
posso pedir para que vá embora, que me esqueça, não suportaria sua ausência,
parte de mim seria cruelmente arrancada... — acariciando o braço que a
envolvia, contemplando o bando de pássaros que por seus olhos sobrevoaram, Ana
declarou o sentimento de sua alma rendida à paixão, entregue ao afeto de um
rapaz especial —. Fugiria com você, não hesitaria nem um segundo, mas não posso
deixar minha mãe, não posso deixá-la na companhia de um sanguinário perverso.
— Compreendo seu
dilema, seria também incapaz de dar às costas a mulher que me deu a vida, não
me resta opção se não suportar as amargas dores de um amor proibido que um dia
será a mais perfeita das realidades...
— Cultivo a
mesma fé...
¤
Aproximando-se a
hora do almoço, atendendo às exigências do poderoso barão, mãe e filha
colocaram-se a postos para a visita inesperada que receberiam para a refeição.
Estavam aflitas, curiosas, não conseguiam imaginar quais surpresas o
imprevisível homem lhes reservava.
A carruagem
adentrou os termos da fazenda chamando a atenção dos escravos que enfrentavam
mais um dia de labor.
Da casa grande,
acompanhando com os olhos a chegada do velho amigo, Frederico abriu um sorriso
satisfeito.
— Comportem-se.
Receberemos meu futuro genro!
Aquele homem era
imprevisível.
Continua...
##
No próximo capítulo:
—
E quanto a nós? — até então calada, reservada aos seus pensamentos, Ana se
manifestou ousadamente, encarou o pai intimando-o a ouvi-la, a dar-lhe a
atenção que nunca foi capaz de dar —. O que sentimos não importa? O que
queremos de nada vale? Não temos o direito de decidir sobre o próprio futuro?
Seremos apenas comunicados ou teremos a chance de também sermos ouvidos?
De segunda a sexta, aqui no blog!
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