[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 17 - Inesperadamente
Capítulo 17 – Inesperadamente
A vida, para
todos, reserva inúmeras surpresas, momentos inesperados, concretizações que nem
sonhávamos, fatos para os quais não temos tempo para o preparo. Certas vezes
somos agradavelmente surpreendidos, confessamos que fomos presenteados,
agraciados, que grandes sortes caíram sobre nós. Em outras, porém, somos
envoltos por temor, ficamos aterrorizados, a preocupação cega nossas almas,
enche-nos de dúvida, forja-nos a esperança que com tanta dificuldade procuramos
cultivar, escurece o que antes parecia iluminado.
Há pouco estava
com seu amado, ouvindo e proferindo sinceras declarações, libertando do peito
os mais íntimos sentimentos, e agora, tão de repente, tão inesperadamente,
recebia a pior notícia que poderia receber, era confrontada com o maior dos
pesadelos, com a pior das surpresas, com a mais trágica realidade.
“Receberemos
meu futuro genro”.
A curta frase
foi capaz de espremer o coração de Laís, apertar-lhe a garganta, fazê-la
relembrar de dores passadas, de angústias sofridas, de quando determinaram que
seria entregue a um homem vil, desconhecido, dado ao materialismo do mundo,
miserável de virtudes capazes de despertar o amor. Imaginava a dor da filha, o
medo que se manifestava, as dúvidas desnorteadas que subiam ao seu pensamento,
que assolavam-na, que ofuscavam o brilhante futuro que muito ansiava.
Tocou a mão
trêmula da jovem mulher.
Estava ao seu
lado.
Dentro da
carruagem, sentindo-se derrotado e aprisionado, ao atravessar a porteira da
fazenda do mais temido e respeitado barão que imperava sobre a região, Pedro
observou os escravos curiosos que interrompiam suas obrigações a fim de
descobrirem a razão do estranho movimento, da visita de desconhecidos. Mais do
que curiosidade, o jovem rapaz notou medo, angústia em cada olhar, aflição
causada pela incerteza quanto ao futuro, quanto ao que acontecia: escravos
novos chegavam? Alguém seria vendido? Dúvidas que assolavam amargamente.
Não conseguia
acreditar que teria que conviver com alguém de mente tão mesquinha e ignorante,
não queria aceitar que deveria se calar diante as explícitas injustiças que
reinavam naquele lugar. Temia que não fosse capaz de se conter. Temia que por
sua causa gente inocente fosse punida. Era por isso que, submisso, estava ao
lado do pai: por amor aos que queria proteger.
Os homens
desceram da carruagem.
Foram bem
recepcionados pelo humorado Frederico.
— Nunca contei
tanto os minutos como fiz hoje, sou grato pela pontualidade! — abraçando o
antigo amigo, logo apertou a mão de Pedro.
— Sei o quanto é
atarefado, não o incomodaria com atrasos que poderiam ser evitados, conheço o
quanto preza pelo cumprimento de cada cláusula do contrato — Egídio, disposto a
atender ao desejo do aliado, mostrou-se simpático, à vontade perante a presença
do sujeito repulsivo —. Este é o meu filho, creio que possa se lembrar dele.
Que espécie de
pai escolhe alguém que nem ao menos conhece para ser esposo de sua filha? Foi o
que Ana, cheia de revoltas, pensou indignada.
— Da última vez
que o vi estava se transformando em um homem, hoje vejo que saiu puxando ao
pai! — o barão teceu o elogio.
— Que privilégio
ouvir isso de um admirável amigo! — mais uma vez se encurvou à pomposa presença
de Frederico, gesto que enojava o rapaz decepcionado, que comprovava o jogo de
interesses envolvido em tão desprezível acordo.
— Vamos, entrem!
— Laís, cansada de assistir ao alisar de egos, interveio —. A comida vai
esfriar...
Não havia
apetite. Apenas o desejo para que tudo acabasse o quanto antes.
Enquanto se
alimentavam, ou ao menos tentavam visto que o desejo pela comida não existia,
os jovens tiveram que se sentar na mesma direção, um de frente para o outro,
mas não trocavam palavras, muito menos olhares, recolhiam-se em seus
pensamentos, optavam pelo silêncio, apenas ouviam o diálogo entre dois homens
que se orgulhavam das tantas conquistas que a aliança entre eles proporcionou.
Os lábios não se
moviam.
Mas as mentes
gritavam desesperadas.
O que seria de
sua história com Artur? Como realizaria o sonho infantil de ser livre para
expor ao mundo o que verdadeiramente sentia pelo rapaz que não se apartava de
seus intentos? Como encararia as íris castanhas e brilhantes e diria que o que
existia entre eles teria que ser enterrado para sempre? Como venceria o ardente
amor e a avassaladora paixão que enlouqueciam sua alma? Como seria feliz tendo
que dar às costas à razão de sua alegria? Ana não tinha respostas, apenas
dúvidas inesgotáveis.
Pedro, por sua
vez, pensou na luta que todos os dias enfrentava para garantir aos injustiçados
o pouco de dignidade que mereciam. Seria impossível colocar em prática seus
planos revolucionários estando debaixo do severo olhar de um dos mais poderosos
e invencíveis escravocratas. O que seria daqueles que dependiam da sua bravura?
E quanto ao seu coração? Teria que arrancá-lo das mãos especiais que o possuíam
e entregá-lo a quem nunca teve a chance de conhecer? Seria mesmo condenado a
uma história cujo autor não fosse ele?
O silêncio
permaneceu governando sobre os jovens predestinados a uma vida incerta,
contrária ao que desejavam.
Silêncio
incômodo ao maior interessado naquele indesejável casamento.
— Ouvindo suas
histórias e conhecendo minha filha como tão bem a conheço — era o que pensava
—, devo concluir que não poderia fazer escolha melhor. Egídio, meu companheiro,
se estiver de acordo nossos filhos formarão uma bela família, através deles o
nosso legado perpetuará!
— Não seria
ignorante ao ponto de me opor a mais acertada decisão que poderíamos tomar,
concedo minha bênção!
— E quanto a
nós? — até então calada, reservada aos seus pensamentos, Ana se manifestou
ousadamente, encarou o pai intimando-o a ouvi-la, a dar-lhe a atenção que nunca
foi capaz de dar —. O que sentimos não importa? O que queremos de nada vale?
Não temos o direito de decidir sobre o próprio futuro? Seremos apenas
comunicados ou teremos a chance de também sermos ouvidos?
— Ana, agora não
é o momento... — Laís, usando de voz baixa, procurou acalmar a filha.
— Do meu lado
está tudo certo, meu filho já concordou — Egídio encarou o rapaz forçando-o ao
silêncio.
— Não fale por
ele — a jovem insistiu na ousadia.
— Ana, ouça sua
mãe, tudo que conseguirá agindo dessa forma é dor e sofrimento — o conselho de
Frederico mais pareceu uma ameaça fiel —. Por que não aproveita a oportunidade
para conhecer melhor seu futuro esposo? A varanda seria um ótimo ambiente para
que tivessem privacidade.
— Como pode ser
tão tirano?
— Obedeça! —
engrossou a voz.
Encorajada pelo
amor que sentia, sensibilizada pelos afetos que em seu ser cresciam, Ana estava
disposta a se manter irredutível perante a determinação que não planejava
seguir, mas usou o bom senso, a modéstia, aceitou a sugestão do barão, conhecia
o rapaz, tentaria influenciar seu modo de se comportar diante a opressão.
Levantou-se
bruscamente.
Não esperou para
que o jovem a acompanhasse.
— O que está
esperando? — Egídio cutucou o filho que prontamente foi atrás da bela moça.
A falta de
coragem pode nos imobilizar, o medo pode nos tornar vulneráveis à opressão, à
cruel dominação de poderosos impiedosos e egoístas, a ausência de valentia a
fim de combater contra quaisquer injustiças torna-nos reféns de nossos anseios.
Seus desejos
eram outros.
Mas o medo
distanciava Pedro de quem ele realmente era.
Da varanda, em
pé ao lado daquela que lhe seria dada por esposa, o rapaz observou com maior
atenção o movimento dos escravos ao redor da fazenda, trabalhavam
exaustivamente, limpavam o suor do rosto e prosseguiam na servidão, eram
afincos naquilo que deviam fazer.
— É sempre
assim? — depois de longos minutos o silêncio deu lugar às palavras, começava um
diálogo.
— Todos os dias.
Chova ou não. Esteja frio ou calor. Eles não têm opção. Se quiserem contemplar
o amanhecer de mais um dia precisam trabalhar... Sobreviver é o salário que
recebem.
— Acha justo?
— É claro que
não — a donzela, tendo acesso a todos os recursos para que desfrutasse de uma
vida luxuosa, não se deixava conformar, aquilo a irava, causava repulsa em seu
ser —. E você? — virou-se ao jovem rapaz —. Concorda com a escravidão?
— Repudio
qualquer forma de opressão, nascemos para sermos livres sendo como somos —
encorajado pela declaração de Ana, Pedro declarou seu pensamento, expôs o
quanto se assemelhavam na forma de enxergar o mundo.
— Então por que concordou
em aqui estar? Como é capaz de se permitir a esse tipo de opressão? Não ser
livre para estar com quem verdadeiramente se ama? — confrontou.
Pedro pensou em
qual resposta dar. Cogitou a ideia de revelar sua história, de compartilhar com
Ana os seus sonhos, mas preferiu o silêncio, não queria ser julgado, muito
menos condenado, nem colocaria em risco a vida e a dignidade daqueles que
estavam debaixo de suas asas.
— Contra certas
correntes é inútil lutar, quanto mais nos esforçamos mais nos machucamos —
tornou a observar o cenário de crueldade —. Conformar-se é o melhor caminho. Já
me conformei...
##
No próximo capítulo:
—
Não quero perdê-la! — o rapaz levou a mão aos cabelos macios, acariciou-os com
sutileza, derramava o choro amargurado, expressava a dor que ardia em seu ser
—. Não posso perdê-la! — sua vontade era gritar, alçar a voz, esbravejar suas
súplicas até que alguém o atendesse.
De segunda a sexta, aqui no blog!
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