[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 07 - Indesejável Despedida


Capítulo 07 – Indesejável Despedida

A opressão é violenta, é a precursora de terríveis tragédias, causa feridas nos mais fracos, machucados que não cicatrizam, que ardem a cada dia, que todas as manhãs despertam junto ao sol. Os oprimidos, sedentos por liberdade, desejosos por voarem e sobrevoarem aos limites da vida, angustiam-se frustrados, indignados por não alcançarem o privilégio de viverem uma vida plena, feliz, a vida que almejam.
Ana Albuquerque, apesar de ser filha do barão, sentia-se oprimida, acorrentada, presa por pensamentos tolos que decidiam sobre suas vontades, que ditavam os seus caminhos e definiam o seu destino. Era oprimida pelos conceitos da sociedade na qual o pai era venerado, temido, respeitado como um governante de imensos poderes. Era oprimida por um sentimento fatal.
Cresceu acreditando que os negros eram bem cuidados, protegidos, que trabalhavam para sobreviver, que eram tratados da forma como mereciam. Contudo, conforme o tempo passava, sua mente amadurecia, permitia-se aos ensinamentos da mãe, declinava-se aos preceitos daqueles que, enojados, queriam mudar a história. A crença preconceituosa se desfez facilmente. Ainda que em segredo, ocultando de Frederico os pensamentos que a dirigiam para a postura resistente, a jovem moça se desvinculou dos preceitos desumanos e tomou para si as dores de um povo injustiçado, condenado a servir sua própria espécie.
A revolta ganhou maior intensidade quando Ana fez a mais angustiante ao mesmo tempo em que agradável descoberta de sua curta vivência nesse mundo, foi quando aceitou que era apaixonada por um alguém especial, que gostava de um rapaz que não deixava seus intentos, que amava o jovem Artur, o escravo odiado pelo barão.
Ainda crianças, nascidos praticamente ao mesmo tempo, descobrindo as curiosidades da vida juntos, Ana e Artur firmaram uma amizade unida, exemplar, uma amizade que suas mães não ousaram arruinar, ao contrário, uniram-se para que a saudável relação entre as crianças pertencentes a universos tão distantes pudesse se fortalecer e, quem sabe, ter a força necessária para alterar o sistema opressor.
Juntos vivenciaram as dúvidas e incertezas da adolescência, construíram planos, sonharam com futuras realizações, foi quando passaram a distinguir a realidade que os separava, que os tornava tão diferentes, que a uma privilegiava e ao outro arruinava. Porém, não deram importância ao surreal, mantiveram-se naquela relação que deixou de significar uma simples amizade para ganhar a forma do mais poderoso amor.
Ao descobrirem que se amavam, provaram de terrível amargura: as chances de juntos permanecerem, de terem a própria família, de viverem a mesma história, eram mínimas, praticamente não existiam, teriam que lutar uma batalha para a qual não se sentiam preparados, contra a qual não confiavam que venceriam. Tentaram se afastar, tentaram dessa forma afogar um sentimento superior ao nosso entendimento, superior ao nosso controle, um sentimento que governa nossas ações e domina os nossos desejos.
Foram incapazes de derrotar o amor, a amarga distância teve que ser encurtada em nome do laço íntegro e verdadeiro que os unia, que os envolvia, que prometia prendê-los um ao outro por toda a eternidade. Tiveram que confessar a inviabilidade de viverem sem aquela intensa união, era preferível sofrer, chorar, agonizar pelo simples fato de se amarem.
Escolheram viver o amor.
Na hora certa levantar-se-iam contra todos que se opusessem, para eles não importariam as opiniões, os espantos, as ameaças. Apenas se interessavam por mostrar ao mundo que contra o amor não há conceito que prevaleça.

— Supliquei tanto pela sua vida, não poupei lágrimas enquanto mantinha os joelhos dobrados, meus pressentimentos eram ruins, sabia que era loucura enfrentar alguém tão insano, mas quem o convenceria disso? — na beira do rio que cortava a fazenda e seguia seu rumo, Ana passava o óleo no rosto do namorado, fazia o possível para que o ferimento cicatrizasse, fazia o possível para demonstrar a quem amava que sempre estaria ao seu lado.
— Não precisa se preocupar tanto, nem se afligir, se fosse para ter essas delicadas mãos passeando em minha face, eu cometeria tamanha loucura inúmeras vezes — sentado sobre a grama, recebendo os cuidados daquela cujo aroma era capaz de acelerar sua alma, Artur sentiu também o coração se aquecer por ter a certeza de que era verdadeiramente amado, era enriquecido pelo amor de uma pessoa que em muito admirava.
— Sabe que é impossível não me preocupar, não me afligir, não derramar lágrimas quando sei que alguém que estimo corre riscos sobre os quais não possuo o mínimo domínio, sabe que tenho medo de perdê-lo — acariciando o rosto do rapaz não mais para espalhar o medicamento, mas em um gesto de profundo afeto, de doce carinho, a moça observou o olhar que brilhava apesar de tantas adversidades, o olhar que não perdia as esperanças sobre os dias de glória —. Sinto muito que tenha se machucado, sinto muito que tenha sido meu pai o causador desse incômodo, sinto muito que não possamos ser como tantos casais... — seus olhos se encharcaram, o peito se afligiu, sentiu vontade de chorar, por algum momento se sentiu incapaz de aguentar tantos sofrimentos em nome da felicidade.
— Não deve se culpar por nada que tenha acontecido, a escolha foi minha, eu quis enfrentar esses miseráveis, eu quis mostrar ao meu povo que passivos e calados nunca despertaremos do pesadelo... — levando os dedos ao rosto delicado, o jovem escravo não permitiu que a lágrima de sua amada caísse em vão, colheu-a dos olhos que remetiam ao pôr-do-sol —. E nem deve se preocupar pelas coisas que poderei sofrer, que poderemos passar, escolhemos juntos lutar pelo que queremos, estaremos juntos nas consequências dessa escolha!
— Precisa me prometer que tomará mais cuidado daqui por diante, que fará o possível para que não o firam — levou as mãos aos cabelos do amante, a sensação dos dedos por entre os fios era agradável à sonhadora Ana —. Pode me prometer que evitará se meter em confusões?
— Não posso desistir...
— Não quero que desista, mas se estamos mesmo juntos apenas quero que me ouça, que siga o meu conselho, com precipitação travaremos confrontos inúteis, mas preparados e organizados abriremos os portões e arrebentaremos as correntes para nunca mais sermos aprisionados!
A coragem que existia em Ana, a valentia, o desejo que alimentava por ajudar um povo que tantos desprezavam, eram valores que, aos olhos de Artur, embelezavam-na mais, deixavam-na ainda mais atraente e ele se apaixonava não apenas pela beleza física, mas pela alma valorosa.
Desejoso por aquilo, o jovem rapaz atraiu a boa donzela para si, encarou-a nos olhos, cedeu o sorriso que a balançava, beijou-a com ternura, saboreando o suave gosto do amor que quanto mais os anos passavam mais crescia, mais evoluía, mais se intensificava.
— É claro que prometo — repousou o rosto sobre o ombro da amada —. Faria qualquer coisa por amá-la...
No entanto, aquele momento de tão agradável paz e intimidade entre um casal que se amava apesar das circunstâncias para que experimentassem sentimentos contrários, precisou se encerrar quando da mata, por sobre as folhas caídas no solo, o som de passos pôde ser ouvido. Indesejavelmente, os jovens se separaram, escondiam mais uma vez o tesouro que guardavam.
— Aqui está você! — Sebastião, o capanga de Frederico, munido por armamentos que o deixavam com aspecto intimidador, fez soar a repulsiva voz aos ouvidos de Ana —. Seu pai está à sua procura.
— Diga que não demoro — molhando os pés na correnteza, Ana respondeu.
— Seu pai não gosta de esperar...
— Isso é um problema dele — sempre independente, não cedia aos caprichos de ninguém, de forma velada se mostrava alguém que mais cedo ou tarde questionaria os duvidáveis posicionamentos de uma sociedade tão hipócrita.
Insatisfeito pela resposta, Sebastião seguiu seu caminho.
Após alguns minutos de extremo silêncio, Ana gesticulou para que Artur saísse da água, esteve escondido na borda do rio.
— Preciso ir, mas estarei ansiosa para que o sol nasça outra vez e contemple o seu rosto.
— Passarei o dia pensando na mais bela das moças...
Beijaram-se sutilmente.
O beijo da despedida.

Indesejável despedida.


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No próximo capítulo:

— Talvez não, você é, nós somos! — colocou a mão sobre o ombro do irmão —. Não acredito que estejamos nesse mundo para vivermos como os animais, para sermos míseros serventes que satisfazem uma gente cruel e gananciosa, temos algum propósito e todo o esforço que fizermos por ele valerá muito a pena! — foi encarado pelo olhar do mais novo, o olhar que necessitava de coragem —. Ana me ama, sinto isso todas as manhãs, e eu a adoro, não posso negar o que sinto e nem permitir que me digam quem eu devo ou não amar, esse sentimento é independente de conceitos, apenas existe e se eu precisar sofrer por ele estou disposto a todas as dores porque acredito que sou um ser humano como todos os outros, sou digno de ser feliz!

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