[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 22 - "Eu estou aqui"
Capítulo 22 – “Eu estou aqui...”
Os verdadeiros
amantes, aqueles que não fingem afeto nem forçam algo inexistente por interesse
em segundas e egoístas intenções, sentem a distância como uma dor
imobilizadora, sentem o silêncio como o estrondo de maus tempos, sentem a
ausência como o prenúncio de tempestades cruéis, em nada sutis, em muito
destruidoras.
Mas ao romper da
distância, à cisão do silêncio e à quebra da ausência, voltam a sorrir, a
sonhar, a acreditar no amor, a confiar em tal sentimento, a vivê-lo completos e
despreocupados. Quem ama de verdade vence quaisquer obstáculos.
Artur e Ana
venceram.
Contemplaram-se
mais uma vez.
A filha do barão
de São Pedro, mantendo os olhos erguidos a fim de contemplar as íris castanhas,
próxima daquele que incitava seus tantos e profundos suspiros, sentiu o peito
transbordar de contentamento, sentiu a esperança retornar, o beijo que rompeu
com a distância fez renascer o sol.
— Não imaginava
que pudesse sofrer tanto com sua ausência... Fui tola ao cair em
questionamentos, não posso acreditar que cometi tão grave equívoco ao dar
ouvidos a preocupações sem sentido... Para quê sentir medo se tenho a sorte de
possuir a companhia do mais nobre dos cavalheiros?
Sentindo-se
reconfortado, percebendo que não era o único a passar por conflitos incômodos,
o jovem rapaz alisou os cabelos compridos, encarou os olhos que sempre o
levavam ao dourado das folhas de outono, agradeceu em secreto pela dádiva de
viver aquele amor.
— Não pode se
culpar nem pense que eu a culparia, se conseguisse invadir minha mente e
descobrir os inúmeros medos que aqui residem sentiria pena, também tenho
receios, também tenho dúvidas sobre o porvir, mas mais que todas essas coisas
possuo uma certeza que nunca se esvai, que nunca se abala, que nada pode
diminuir: eu te amo, entregaria minha vida por esse amor!
O coração da
donzela balançou, sua alma foi docemente tocada e os olhos que brilhavam não
puderam conter as lágrimas da sincera comoção que a tomara. Sentir-se amada de
um jeito tão profundo era incomparável a qualquer outro prazer existente no
universo.
— Não pode
imaginar o quanto me alegro por ouvir tal declaração, isso apenas me fortalece
e encoraja a permanecer em meu propósito, em confiar que terei a liberdade de
viver ao lado do único que amo, do único que continuarei amando pela eternidade
— levou as mãos discretas ao rosto cuja textura tão bem conhecia, tão
grandemente apreciava —. Esses dias me trouxeram uma verdade dolorosa: sou
incapaz de viver feliz se não o tiver junto a mim, sinto medo do que possa nos
acometer, sinto medo de que as forças opositoras sejam mais fortes que nós, o
futuro deixaria de existir...
— Não se importe
de sentir medo, não tente se privar dos receios, eles estarão sempre ao nosso
encalço, mas não permita que tais angústias a afastem de mim, coloquem em incerteza
o que não me canso de confessar, eu estou aqui... — cobriu a mão que acariciava
seu rosto, envolveu-a afetuosamente, era um gesto de proteção, a promessa de
segurança —. Esse amor que vivemos é mútuo, não queira carregá-lo
solitariamente, precisa confiar em mim, quero que conte com meu auxílio, que ao
menos procure nesse pobre apaixonado o conforto de que precisa, farei sempre o
possível para ver um sorriso nesse rosto lindo — beijou amoroso a mão que não
se enfadava de segurar —. Exatamente como esse que seus lábios acabaram de
desenhar... — beijou-a romântico, transbordou todo seu afeto.
¤
Tememos por
aqueles que amamos, não importa qual seja o tipo de amor que cultivamos, se
amistoso, fraterno ou romântico, jamais desejamos o mal daqueles que estimamos,
ao contrário disso não poupamos esforços em defendê-los, em protegê-los,
fazê-los felizes.
Adelaide e Laís,
duas mulheres que mantinham em oculto uma amizade leal, amavam seus filhos
incondicionalmente e, por esse amor imenso, sofriam junto a eles a existência
daquele sentimento coibido, daquela paixão que procuravam manter em segredo,
mas que a cada dia se tornava mais impossível de esconder.
— Não sei se o
que fazemos é correto, nem gosto de imaginar quais seriam as consequências se,
por uma infelicidade, o pano se rasgasse e tudo fosse descoberto, mas também
não posso aprisionar dois amantes, acorrentar jovens com tantas expectativas,
com um desejo inspirador de se manterem em sintonia — Adelaide, enquanto abria
a massa do pão que preparava, confessou à amiga aquilo que tirava seu sono, que
apertava seu coração materno.
— Não queira se
preocupar dessa forma, minha amiga, o que estamos fazendo de abominável? Não
acredito que lutar pelo amor seja motivo de condenação e, mesmo que pegas,
mesmo que perseguidas, ainda valeria a pena cada segundo de dor, ao menos
teríamos a certeza de que possuímos uma alma pura enquanto muitos se corrompem
em ódios infundados... — a baronesa, aproveitando a ida de Frederico à cidade,
ajudava a escrava na cozinha, preparava o recheio dos pães, sentia-se realizada
ao cozinhar, ao exercer um talento que herdara da mãe.
— Como consegue
ser tão ousada? — a negra questionou —. Não teme perder a vida?
— Pelo amor vale
qualquer sacrifício.
— Muito me
admiro por defender de maneira assídua algo de que foi privada.
— Do amor
ninguém nos priva, pensam que sim, mas não conseguem, não são capazes — levou o
olhar à curiosa mulher —. Como sabe, casei-me com Frederico amando outro homem,
mas o que não contei é que ainda o amo, ainda sinto o gosto desse amor, o
prazer dessa paixão. Não esfriaram o que compactuo por ele. Não puderam
encerrar nossa história. Se preferem serem feitos de ingênuos, que assim seja!
— riu divertida.
— Por isso me
convenceu de que é inútil tentar afastar nossos filhos...
— Eles se amam,
Adelaide, quanto a isso nada podemos fazer, apenas ajudar.
¤
Talvez
nunca tenham ouvido, talvez nunca alguém se encheu de coragem para encará-los
nos olhos e confrontá-los com uma verdade irrefutável, a acusação exata, a
denúncia que os condena: cada um de vocês faz parte de uma sociedade hipócrita
e injusta, governada por homens bárbaros, ardilosos e aproveitadores!
É
incompreensível a forma como tratam sua própria espécie, seus iguais, é
absurdamente repudiável a vida que concedem a homens, mulheres, crianças,
jovens e idosos que de diferente apenas possuem a cor da pele, mas que são tão
humanos quanto o mais forte dos reis, isto é, se este compreender que ser
humano é compartilhar amor, fraternidade, lealdade, dignidade, respeito e
compreensão. Quem repudia esses valores indispensáveis não passa de animal!
Os
negros não são inferiores a nenhum de nós, ao contrário, somos nós os
desprezíveis ao acreditarmos que eles existem para nos servir, para
satisfazerem nossos egoístas intentos. Se alguém me perguntasse quem são os
animais eu responderia com toda a firmeza: os verdadeiros inúteis são aqueles
que seguram chicotes nas mãos.
De
que lhes vale frequentar a missa? De que lhes agrega ouvir a leitura bíblica se
ao saírem das igrejas, onde vestem-se de falsa santidade, permanecerão em seus
comportamentos mesquinhos, miseráveis e abomináveis? Vocês não entenderam nada
e pagarão essa ignorância provando do calor do inferno!
Nossos
irmãos, os negros, pessoas dignas de respeito e acolhimento, exigem liberdade!
O
autor não importa.
Com tão
agressiva publicação circulando nas mãos dos moradores de São Pedro, a
província entrou em alvoroço, uns repudiavam a petulância do escritor,
acusavam-no de heresia, de covardia por não assinar seu nome, por não se
levantar nas praças e encarar a sociedade nos olhos fazendo seu discurso
traiçoeiro; outros, porém, aplaudiam as duras palavras, elogiavam a coragem do
desconhecido autor em expor aquilo que elas também pensavam, aquilo pelo qual
almejavam lutar, começavam a se motivar.
Frederico,
contudo, assim como outros poderosos, ao receber a publicação saindo do banco
onde guardava suas economias, blasfemou contra o ousado literato, rasgou o
folheto cheio de fúria, pisou sobre os recortes como se pudesse matar as
palavras, mas não era capaz, ninguém nunca poderá extinguir as palavras.
O escritor
secreto, por sua vez, sabia exatamente qual era seu objetivo: incomodar,
enlouquecer e, por fim, revolucionar.
##
No próximo capítulo:
—
Eu sou o pai, eu sei o que é melhor para ela e já tracei seu destino. Agora
está relutante, pensando bobagens, mas tão logo comece a viver a minha vontade,
verá o quanto foi bom ter alguém que a guiasse.
—
Guiar é diferente de arrastar! — discordou outra vez —. Guiar é ser paciente,
cuidadoso, cauteloso, é deixar que andem com as próprias pernas, mas sempre por
perto a fim de evitar quedas fatais. Mas arrastar é levar à força, com
brutalidade, com impiedade, causando arranhões e cortes, despertando a raivosa
relutância!
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