[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 04 - Inimigos Inimigináveis
Capítulo 04 – Inimigos Inimagináveis
Cada um de nós
tem suas próprias convicções, algo em que acreditar e pelo qual lutar,
combater, brigar. No entanto, nesse campo de ideias e conceitos, conflitos são
alimentados, opositores se levantam e confrontam entre si, todos se acham
dignos de razão e querem fazer valer os seus pensamentos.
Em uma sociedade
escravocrata, injusta, na qual uns se achavam superiores aos outros por
questões tão egoístas e cruéis e justificavam seus atos bárbaros pautados em
explicações tão preconceituosas e refutáveis, quem se levantava contra o
considerado “normal” era duramente criticado, perseguido e até sofria por sua
postura “rebelde”, sofria não apenas com o embate entre ideias, sua carne
padecia, nem sua alma escapava da ira de homens maldosos e opressores.
Eduardo Ferraz
era um desses “rebeldes”.
Homem rico, com
inúmeras honrarias pelo ótimo profissional que era, respeitado entre o seu
povo, famoso até mesmo em terras longínquas, ainda muito novo, quando
experimentava as fases da adolescência, incomodou-se com a visão de mundo que o
cercava, com a forma mesquinha pela qual semelhantes tratavam semelhantes.
Sempre crítico, questionou aos pais o porquê da escravidão, o porquê do povo
negro ser explorado de maneira tão exaustiva sem nada dever, sem nada ter a
pagar. As respostas não lhe eram dadas, apenas recebia um conselho: que não se
preocupasse com aquilo que não vivia.
Cresceu.
Viu o quanto as
coisas eram diferentes para ele e para os demais. Teve a liberdade de sair do
país, aprender alguma profissão, ingressar nas melhores escolas da Europa,
formar-se em medicina e retornar ao seu país pronto para exercer o que
aprendera, construir uma família e ter um futuro. Tudo isso lhe era possível de
realizar enquanto homens, mulheres crianças, jovens e velhos apenas possuíam o
direito de trabalhar em cafezais, em roseiras, em fazendas que a cada dia
enriqueciam sujeitos gananciosos, impiedosos. Enquanto lhe era garantido o
direito de sonhar, os escravos apenas tinham a condição de trabalhar calados,
obedecer passivos, seguir as ordens impostas para que não fossem torturados por
chibatadas até a morte.
Tal caótico e
incompreensível cenário o enojava, tal revolta ganhou ainda mais força quando
se casou e teve seu filho. Sua casa se encheu, os visitantes levaram presentes,
paparicaram a criança, parabenizaram os papais, mostravam-se orgulhosos e
felizes pela chegada de mais um Ferraz. Enquanto isso, nas senzalas que
exalavam dor, angústia, medo e toda sorte de sofrimento, quando nascia uma
criança não existia festa, não existia júbilo, a vida de ninguém parava,
ninguém parecia se importar e se os escravos ousassem qualquer coisa eram
duramente reprimidos.
Foi aí que se
encheu de coragem, força e começou a lutar pela dignidade de seres humanos
duramente rebaixados ao pó da terra. Começou dentro de casa, conscientizou a
esposa, propôs que cuidassem daquela criança para que respeitasse todo tipo de
gente, para que a única forma de reprovar alguém fosse a partir de um caráter
corrompido. Mas sua luta não ficou reclusa ao ambiente familiar, onde estava
seguro, onde suas ideias foram aceitas, onde ninguém levantaria a espada contra
a sua cabeça, sua luta passou a afligir a sociedade, a contagiar desconhecidos,
a tocar pessoas e a incomodar os detentores de destrutivos poderes.
— Como o tempo
passa rápido, seu filho já é um homem! — um antigo amigo, fazendeiro produtivo,
encontrou Eduardo no baile que acontecia para a elite de uma das províncias
nordestinas, logo o reconheceu, era de seu interesse reconhecê-lo.
— Toda vez que
ouço isso sinto o quanto envelheci — o inocente médico, homem de bom espírito,
apertou a mão do velho amigo, alguém que já não era o mesmo de antes, alguém
que não compartilhava da mesma opinião, alguém que já não o considerava como
ele imaginava.
— E sou obrigado
a dizer que quero envelhecer com essa mesma aparência, não é invejável? —
Victor Ferraz, o rapaz em questão, no fulgor dos seus vinte anos, mostrou-se
simpático, cumprimentou o desconhecido, deu a mão a um inimigo em potencial.
— Olhe naquela
direção — com a taça de vinho em mãos, o homem apontou para a direita onde
mulheres pareciam bastante entretidas com a curiosa conversa —. Não acha que
nossos filhos formariam um belo casal? — questionou arqueando a sobrancelha,
conhecia os princípios que regiam Eduardo, queria uma brecha para entrar em
assuntos nada amistosos.
O rapaz encarou
o pai, aguardaria pela sua reposta, naquele momento saberia se aquele a quem
admirava era mesmo sincero em seus ensinamentos.
— É uma bela
moça, tenho certeza de que encontrará alguém que a faça feliz — o médico deu
sua resposta —. Escolhi não determinar com quem Victor se casará, dei a ele o
direito de decidir quando e com quem unir-se-á, minha única exigência é que se
renda a alguém que possa amar de verdade.
— Não me lembro
de ter tido essa sorte.
— Não tivemos,
caro amigo, muitos de nós até hoje sofrem as consequências daquilo que nossos
pais escolheram. Ao menos tive sorte, aprendi a amar minha esposa, mas nem
sempre isso é possível.
Custou a
acreditar que o amigo de infância possuía comportamentos e falas tão
repulsivos, aguardou pacientemente por aquele baile para que pudesse conversar,
trocar experiências e assim concluiria o que esperava não ser verdade. Acabou
indignado. O homem confessou em seu peito que Eduardo se transformara num
terrível problema.
— Será que
podemos conversar a sós? — sugeriu —. Velhos amigos compartilham de antigos
segredos — forçou o sorriso.
— Fiquem a
vontade — o jovem rapaz se levantou —. Há muito que fazer nesse lugar.
Sendo encarado
pelos olhos misteriosos do fazendeiro magnata, líder de tantos outros que se
uniam contra as rebeliões de indivíduos insatisfeitos pela organização social,
o médico não se conteve, incomodou-se pelo silêncio, queria saber o que tinham
a conversar.
— Se ficarmos
calados o tempo nos afastará outra vez — disse divertido.
— Não se
preocupe, cavalheiro, costumo ser bastante claro e objetivo em minhas
intenções, não vou tomar seu tempo e ainda lhe farei uma oferta irrecusável! —
cruzou as pernas, tomou um gole da bebida que carregava e suspirou relaxado —.
Conseguiu uma família bonita, devo confessar, um filho de forte presença e uma
esposa elegante, é capaz de mensurar o quanto os ama?
Estranhando a
forma como o amigo falava, Eduardo organizou os pensamentos, talvez fosse
apenas estranhamento pelos anos sem contato algum.
— Como falei,
tive muita sorte de cultivar amor pela minha esposa, unimo-nos de uma forma
incrível e fomos presenteados com um valioso tesouro, nem sei dizer qual é o
tamanho da minha felicidade, nem mesmo do meu amor.
— Imagino que
seja imenso.
— Mal cabe no
coração.
— Seria uma pena
se de repente tudo isso acabasse, desmoronasse, desaparecesse como se nunca
tivesse existido. Já pensou nisso?
O médico
requisitado se calou, aquilo não era uma simples conversa entre pessoas que há
bastante tempo não se viam, soava como premissa de confronto entre dois homens
com posições inegavelmente distintas. Ameaçou se levantar, mas precisou se
conter.
— Sei que nunca
pensou nas tragédias que podem sucumbir suas conquistas, destruir suas memórias
e queimar para sempre a sua história por ser um sujeito intrometido e tolo! —
mantendo o semblante sorridente na intenção de disfarçar o ácido teor do
diálogo indesejável, o homem se mostrou um alguém de terríveis pensamentos —.
Não imaginei que pudesse se render aos rebeldes e fazer parte de uma luta
inútil e inválida, aquele povo não vale nem a comida que nos serve muito menos
os nossos esforços, são como verme! — antes que Eduardo pudesse retrucar, o
fazendeiro impiedoso gesticulou para que ficasse em silêncio —. Torci para que
fosse mentira pelo carinho que sentia, mas hoje tive a certeza que procurava —
levantou-se dirigindo o olhar prepotente ao humilde médico —. Sugiro que
reconsidere suas convicções, estarei na cidade pelos próximos dias e ficarei na
sua cola — chamou o garçom para que o servisse —. Se ama mesmo sua família
dirija energias para protegê-la e deixe que dos demais eu e os meus cuidaremos!
Antes que o
inimigo se afastasse, Eduardo o apertou no braço, encarou os olhos escuros, não
se intimidou.
— Se quis me
intimidar falhou grandemente, não hesitarei em destroçar os seus conceitos! —
retirou-se provocando ira no espírito arrogante.
Sem motivação
para permanecer no ambiente festivo, Eduardo reuniu sua família, despediu-se do
anfitrião e seguiu seu destino. Em silêncio dirigia a carruagem, um silêncio
estranho àqueles que o conheciam tão bem por muito estimá-lo.
Não conseguindo
conter a curiosidade, a mulher abriu a boca, mas não pôde proferir nenhuma
palavra, nem um verbo, um estrondo a calou, seu corpo caiu no meio da estrada
escura.
Novos e
sucessivos disparos aconteceram.
Victor
abaixou-se dentro da carruagem, levou as mãos à cabeça, procurou se proteger.
Eduardo fez o
mesmo, encolheu-se desesperado, angustiado, amaldiçoando aqueles que o
perseguiram e atacaram de maneira tão covarde, tão ardilosa.
Por combater
contra uma sociedade tão preconceituosamente estagnada, era feito vítima.
##
No
próximo capítulo:
Perder alguém. Essa é uma triste e dura
experiência da qual nenhum ser humano consegue escapar, é uma das únicas
certezas que temos na vida: teremos que dizer adeus a quem muito amamos. Apesar
de crescermos entendendo que as histórias um dia terminam, é impossível
alcançar a preparação necessária para a morte, somos egoístas no amor, queremos
sobretudo que ao nosso lado estejam aqueles que estimamos, passe o tempo que
passar, cheguem e partam quantas primaveras for, ansiamos por jamais largar a
mão que apreciamos tocar.
De
segunda a sexta, aqui no blog!
Livros
gratuitos:
Encontre
o blog pelas redes sociais:
Obrigado
pela companhia, um forte abraço e até logo!

Comentários
Enviar um comentário
Não deixe de expressar sua opinião, ela é muito importante!