[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 05 - Valente Missão


Capítulo 05 – Valente Missão

Perder alguém. Essa é uma triste e dura experiência da qual nenhum ser humano consegue escapar, é uma das únicas certezas que temos na vida: teremos que dizer adeus a quem muito amamos. Apesar de crescermos entendendo que as histórias um dia terminam, é impossível alcançar a preparação necessária para a morte, somos egoístas no amor, queremos sobretudo que ao nosso lado estejam aqueles que estimamos, passe o tempo que passar, cheguem e partam quantas primaveras for, ansiamos por jamais largar a mão que apreciamos tocar.
Porém a partida chega.
O momento da despedida é inevitável.
E esse momento fortemente indesejado costuma dar avisos de que está para chegar, como se quisesse nos preparar para aquilo que machuca e fere profundamente. Seja através de doenças, da idade avançada, geralmente assistimos aos últimos instantes de pessoas especiais.
No entanto, geralmente não quer dizer sempre.
Às vezes somos surpreendidos de maneira ainda mais inesperada e malquista.
Estamos todos bem, desfrutando de juvenil saúde, de inesgotável força, de contagiante motivação por viver os preciosos dias que nos são concedidos nesse mundo, quando, de repente, sem quaisquer avisos, sem nenhum tipo de sinal, alguém nos deixa, parte, tem o ponto final de seu livro decretado, sua história encerrada, seus dias findados. O sofrimento é maior. A dor é intensa. É impiedosa.
Ajoelhado sobre o pó da terra, com as mãos e as vestes sujas de sangue, acolhendo a esposa em seus braços, Eduardo chorava amargamente a morte da mulher amada, seu coração sangrava, sua alma gritava, o mundo desabava sobre sua cabeça naquela hora de tão agonizante sofrimento. A esposa fora atingida por alguns dos disparos, não teve tempo nem mesmo para se despedir.
Ao lado do pai, acariciando-lhe os ombros em uma demonstração de apoio, Victor não escondeu as lágrimas de grande pesar, amava a mãe, admirava-a como a mais doce e mais sábia das mulheres, não conseguia compreender como puderam ser tão covardes contra alguém que apenas o bem praticava. Mas seu lamento foi interrompido quando, ao passar a mão pelas costas do pai, encontrou um hemorrágico ferimento.
— Pai! — trouxe o rosto do honrado homem de encontro ao seu, contemplou os olhos ofuscados, viu o filete de sangue escorrer de sua boca —. Pai, precisa de um médico! — colocou-se em pé, cheio de desespero tentou erguer o pai, mas este se recusou a qualquer movimento —. Pai! — o jovem rapaz, um moço de bons atributos e admiráveis princípios, aumentou a voz em meio à agonia, não queria perder a família, não queria perder tudo o que tinha.
— Não daria tempo, meu filho, apenas alimentaríamos vãs esperanças — Eduardo, com dificuldade na fala, segurando firmemente aquela que conquistara seu coração há muitos anos, ofertou um sorriso ao querido e único filho, um sorriso cuja intenção era encorajar, declarar que apesar de toda a tragédia as coisas ficariam bem —. Precisa me ouvir, deve saber que por defender os negros, por lutar por aquela gente vergonhosamente injustiçada, conquistei inimigos perigosos, homens com poderes que não se pode combater, foi por confrontar os desgraçados que agora estamos aqui, humilhados, cercados pela dor... — buscou fôlego, a vida o deixava.
Victor jamais veria o pai como o causador daquele triste episódio, jamais o culparia pela terrível cena que eram obrigados a viver, sempre o teve por grande herói e seria assim que para sempre o consideraria: o homem mais valente que conhecera, em quem se inspirava para seguir seu próprio caminho.
— A culpa não é sua! — abraçou o pai, abraçou-o fortemente, desejando nunca soltá-lo —. Precisa saber que é um guerreiro destemido, enquanto todos se omitiram e oprimiram você combateu pelo que acreditava, deve se orgulhar por isso, eu muito me orgulho!
— Não imagina o quanto é bom ouvir isso — Eduardo, aninhado ao pescoço daquele que vira crescer em todos os aspectos, derramou no ombro do filho o choro amargo —. Pegue suas coisas e vá embora, parta, o mal está à espreita aguardando por oportunidades.
— E vocês? — questionou com a garganta embargada.
— Nossa missão encerra aqui, nesse lugar, você é responsável por manter vivo o nosso legado!
Naquele momento o rapaz foi incumbido de duro encargo, faria o impossível para não decepcionar, entregaria sua vida para que os pais jamais fossem esquecidos, vestir-se-ia da mesma coragem que os movera.
Sentiu o último suspiro daquele que amava.
Não tinha mais o que fazer.
Restava-lhe apenas lutar.

Se alguém o indagasse negaria veentemente, porém, cavalgando pela estrada iluminada pela lua, agradecendo aos céus pelo cavalo que fora poupado da morte, Victor Ferraz sentia medo, angústia, um pavor muito grande. Sentia também profunda tristeza, nunca acreditou que aquele dia poderia chegar, muito menos quando ninguém o aguardava. A forma inesperada como a barbárie acontecera tornava tudo ainda mais difícil de suportar.
Mas seguiu em frente limpando dos olhos as insistentes e intermináveis lágrimas, permitia-se ao pranto, permitia que os sentimentos desesperados fossem desafogados de seu espírito, só não permitia que os tais o imobilizasse. Sentiu o nó se formar. Teria que dar às costas ao lugar que não deixaria suas lembranças afetivas.
O nariz debilitado não percebeu o cheiro de querosene.
Triste desatenção.
Preocupando-se com o essencial, o jovem moço tomou posse sobre um caixote simples, nele colocou o relógio que ganhara do pai, os livros escritos pela mãe e o retrato pintado à mão que exibia o amor e a união que reinavam sobre aquela casa, sobre o ambiente que não dava margens às desavenças, antes se fechava para qualquer respingo de desentendimentos.
Antes de seguir seu rumo, partir para qualquer horizonte, refugiar-se em qualquer lugar que lhe desse abrigo, Victor se sentou nos pés da cama dos pais, fechou os olhos por alguns segundos, pensou ter sentido a presença deles ao seu lado, era a última despedida.
Mas seu corpo se abalou quando as vistas contemplaram o clarão provocado por chamas audaciosas e as narinas finalmente perceberam o sufocante cheiro do fogo.
Estava encurralado.
Já sentia o calor destruidor dos inimigos insatisfeitos.
Revestido por uma coragem que nunca teve, Victor avançou contra o fogo, pôde experimentar a fervura da ira daqueles que intencionavam destruir sua família, apagar a sua história, teve sorte ao se desviar das madeiras que caíam do teto.
Em tempo hábil de salvar o cavalo, montou no animal, agarrou-se ao caixote que manteria viva a estadia das pessoas que mais amava nesse mundo injusto, cavalgou velozmente, não olhou para trás, às suas costas uma casa ardia em chamas.

Ainda no baile, deliciando-se em conversas com aqueles que compactuavam com suas ideias perversas, o desprezível amigo de Eduardo recebeu certa mensagem ao pé do ouvido. “Foram extintos”. A resposta que deu foi um cruel sorriso, sua maldade vitimava pessoas de rico coração, de espírito exemplar, pessoas que mesmo após a morte eram capazes de fazer valer suas palavras.


Quando o sol despontava no meio de montanhas, após horas exigindo que o cavalo viril o carregasse sem desmoronar, Victor decidiu que precisavam descansar. Parou em frente à estalagem, acomodou o animal no estábulo e alugou o quarto onde se renderia ao sono, instante no qual se desligaria da bruta realidade que vivia. Ao repousar a cabeça as lágrimas surgiram como a chuva de tenebrosas tempestades, a solidão apertou seu peito, a desesperança afligiu sua alma e a ira firmou no coração uma certeza: viveria por aqueles que foram privados da vida.


##
No próximo capítulo:

— Até quando nos prostraremos ao nosso inimigo? Até quando nos permitiremos à humilhação que ninguém merece? Até quando estaremos debaixo da covardia que nos esconde do abominável opressor? — os olhos castanhos brilhavam, possuíam a força de um sonhador, a esperança de um jovem disposto a tantas conquistas —. De que adianta acreditarmos, crermos, se não agimos? De que adianta fazer tantas preces se não podemos confiar naquilo que suplicamos? De qualquer forma morreremos, que seja lutando!

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