[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 46 - Humilhado


Capítulo 46 – Humilhado

Certas guerras são vencidas pelo silêncio que engana o inimigo de quem opta pela estratégia de emudecer-se, em certos confrontos erguem a taça da vitória aqueles que fingem sujeição ao adversário a fim de iludi-lo, de deixá-lo relaxado, despreocupado, a fim de fazê-lo alcançar uma paz traiçoeira, arruinadora.
Não fizeram barulho.
Nem se mostraram contrariados.
De mãos dadas, esbanjando sorrisos aos convidados que aplaudiam o aviso de Frederico, o casal se colocou ao lado do barão, asseguravam naquele gesto a união entre duas famílias, o respeito à ordenança que jamais conseguiriam derrubar aos gritos e furdúncios, porque, em uma guerra, há o momento certo de calar e há a hora exata de esbravejar.
Sebastião, no entanto, que participava da noite festiva, sorriu incrédulo, divertindo-se com a audácia daqueles que se saíam perfeitamente bem na encenação para acalmar a fúria do imprevisível homem.
Artur, por sua vez, vendo a bela dama diante de todos aqueles olhares, entrelaçando os dedos aos do rapaz ao seu lado, não pôde evitar o formigamento no coração, desejou ardentemente que fosse ele o acompanhante de Ana, que fosse ele a tocá-la naquele instante de exposição, que fosse ele o felizardo por receber de Frederico o direito e a liberdade de se casar com a mais bela donzela da região. O formigamento se transformou em dor quando aos seus ouvidos foi interrogado se aquele não era o mais belo casal visto, precisou se retirar da multidão, precisou se refugiar nas escadas que levavam à casa grande, sentou-se num degrau aleatório, permitiu que as lágrimas corressem.
— Dia difícil? — alguém se sentou ao seu lado, atento para que não os flagrassem —. Não se incomode em estar chorando, alivie o coração — era Bruno.
— Era para ser eu, deveria estar ao lado de Ana, mas tudo que me ofertam são chicotadas nas costas e as sobras dos manjares! — o jovem escravo reclamou.
— Entendo a sua dor, mas veja pelo lado positivo, isso prova que o seu sentimento é verdadeiro, está cercado por sinceridade, nada pode mudá-lo.
— De que me adianta sentir com veracidade se não posso exprimir o que sinto?
— Também tem alguém nessa festa que significa muito para mim, que representa o que você sente por Ana, mas sofreríamos dores que nem buscamos imaginar se ousássemos expor ao mundo nossos sentimentos. Nem tudo precisamos mostrar para que seja verdadeiro, contente-se em garantir a ela que saiba todos os dias que é amada, contente-se com o momentâneo segredo, o dia da liberdade não tarda — compartilhou esperança.

A festa chegou ao fim.
Os convidados seguiam o caminho de volta para casa acompanhados de seus lampiões, presenteados com o brilho da lua que não disputava com sombra nenhuma.
— Foi um prazer imenso recebê-los nessa noite tão especial, noite que ficará marcada na mente desse jovem casal que inspirou infinitos elogios — dando as mãos a Egídio, despedindo-se do velho amigo, Frederico estava mesmo crente quanto à submissão dos jovens rebeldes.
— Nunca fui tão parabenizado por algo que não fiz, não poderia ter encontrado esposa melhor ao meu amado filho — o sujeito, aliviado por terem visto Pedro prometido a uma mulher, também confiava na aceitação daqueles que antes se mostraram tão resistentes.
— É uma pena que precisem se despedir — o barão cumprimentou o futuro genro —, mas a saudade fortalece o que sentimos pelas pessoas, muito em breve terão a eterna companhia um do outro.
— Sem dúvidas — Pedro concordou.
Ficaram esperando o casal se despedir.
Mas nenhum dos dois deu o primeiro passo.
— Beijem-se! — falando com diversão, Frederico colocou os rebeldes em um momento constrangedor.
Pedro, sempre tão respeitador e modesto em suas ações, caminhou rumo à Ana que, constantemente pensativa no amor que sentia por Artur, fechou os olhos querendo evitar o gesto que veria como traição. Mas o rapaz, que também amava outra pessoa, viu ao longe o jovem escravo assistindo à cena, não o machucaria nem desonraria Ana conhecendo os seus segredos, curvou-se como um cavalheiro, beijou-lhe a mão.
— Apenas isso? — o barão protestou.
— Querido, não os envergonhe querendo que exponham intimidades, tudo a seu tempo, não acha? — Laís, perfeita estrategista, repousou a mão sobre o peito do marido falando com delicadeza e convencendo.
— De fato, na ânsia do meu orgulho quero apressar as coisas, mas chegará o dia que terão completa liberdade ao amor, o dia que Ana deixará essa casa para construir uma família! — era seu egoísta desejo.

¤

Estranhando não ter visto pelo restante da noite perambulando pela fazenda o parceiro que muito lhe devia, Frederico, logo pela manhã, dirigiu-se ao quartinho que testemunhara tantas repugnantes madrugadas. Abriu a porta sem qualquer receio, mas não foi capaz de entrar ao ver o sujeito desacordado e amarrado na cadeira que antes prendia o adolescente escravizado.
Não teve tempo de correr.
O garoto o surpreendeu com uma pancada na cabeça tão logo a porta se abrira, o robusto pedaço de madeira causou vertigem ao temido barão.
O adolescente correu.
Ninguém esperava por aquela valentia.
Rompeu os limites da fazenda.
O problema era que Frederico não perdera a consciência, apenas experimentara alguns instantes de tontura, mas logo recobrou o domínio sobre as pernas, subiu no próprio cavalo, não disse nada a ninguém, era uma questão de orgulho trazer de volta o escravo fugido.
O adolescente angustiado, sedento por refúgio e descanso dos muitos dias de sombras, lutava contra galhos, saltava sobre pedras, caía e se reerguia, ignorava os arranhões, a ardência dos machucados, nada se comparava ao medo que sentia do tronco, ao pavor de ser torturado e molestado por homens cruéis. Desistir seria um erro, se capturado lhe causaria danos insuportáveis, precisava correr.
Corria para se distanciar do som galopante que às suas costas soava.
Corria para nunca mais precisar temer o nome de Frederico Albuquerque.
Montado no animal veloz, sedento por vitória, Frederico avistou o ágil escravo confrontando os obstáculos que se apresentavam no caminho, posicionou a espingarda, não economizou munições.
Salvo de tantos disparos, o garoto não pôde se esquivar de ser atingido na perna, foi quando caiu sobre o chão, sem forças, ofegante, gemendo de dor, sabendo que provaria de cálice amargo.
Mas antes que o barão colocasse as mãos em seu serviçal, alguém pulou das árvores, a copa dançou com o vento, aterrissou com majestade, o mascarado encarou Frederico que, finalmente, cruzava com um grande inimigo.
— Não é possível! — mirou o armamento.
— A frustração é minha — o Protetor provocou —. Será que nunca aprendem? Homens como você foram derrotados sem qualquer piedade, não se acha exacerbadamente ousado para, sozinho, invadir os meus termos?
— Seus termos? — zombou —. Sempre achei que fosse ilusão, que aqueles incompetentes perdiam seus escravos e, envergonhados por não conseguirem capturá-los, inventavam a existência do monstro da floresta — não conhecia a força do adversário, desdenhou-a —. Mas hoje é um grande dia, levarei para casa dois escravos! — cantou vitória. Disparou contra o oponente que rolou sobre o solo se livrando dos ataques, disparou até a última munição.
O Protetor assobiou.
Seu cavalo preto galopou com fúria, avançou contra Frederico, lançou-o ao longe.
— Não, não sou uma lenda, muito menos desculpa de gente incompetente, sou a esperança de seres humanos humilhados por vermes como você! — aproximou-se do homem que cambaleava, desferiu-lhe um golpe contra a face —. Sou a resistência frente à perversão que miseráveis feito você exercem! — outro golpe, na barriga —. Sou o pesadelo de medíocres vagabundos que se inspiram nos seus gestos, seu desgraçado! — mais outro golpe, quebrou-lhe o nariz, derrubou-o no chão, ensanguentado —. Se soubesse como desejo a morte de demônios como você — levantou Frederico pelo colarinho, encarou-o nos olhos —, desistiria hoje mesmo de toda a sua malignidade! — cerrou os punhos, mas interrompeu a agressão ao ouvir gente se aproximando.
Colocou o adolescente sobre o cavalo.
Sumiu pela mata.

O barão ficou largado, derrotado, foi socorrido pelos homens que viram sua inesperada partida e decidiram segui-lo. Homens que o encontraram totalmente humilhado.


##
No próximo capítulo:

— Não, Ana, você e o rapaz que seu pai aceita como futuro genro formam um belo casal, é tudo o que essa sociedade intolerante deseja, é tudo o que ao meu lado não teria...
— E se eu não quiser arrancar suspiros, admirações ou anteder aos caprichos de uma sociedade que apenas me enoja? — olhou para o jovem escravo, mas este não retribuiu o olhar, manteve-se firme na visão das águas que fluíam —. E se tudo o que eu quero é apenas que você e eu sejamos felizes?

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