[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 57 - Terno Cuidado


Capítulo 57 – Terno Cuidado

Sorte.
Sorte é algo altamente cobiçado, grande objeto de desejo, sinônimo que muitos dão à felicidade. Um sujeito sortudo, como acreditam, é um sujeito agraciado, abençoado, é o escolhido dentre a multidão para que não sofra as mesmas moléstias. Talvez a sorte não se faça presente a todo o momento, mas quando surge torna a hora inesquecível, faz a vida ter outra cor.
Por sorte, dificilmente Frederico errava o alvo, o Protetor foi atingido no braço, a dor tocou sua alma e o pavor invadiu sua mente ao perceber que, por dentro da manga,  o braço sangrava. Precisava de ajuda. Mas como buscaria auxílio usando seu disfarce? Como sairia daquela situação sem revelar ao menos para uma pessoa quem ele era?
Teria que ser forte.
Contara com a sorte.
Agora agiria sozinho.
— Consegue ir para casa? — ainda que com dificuldade, Victor desceu do cavalo, por trás da máscara seus olhos encontraram o semblante preocupado de Sara, estavam próximos do centro de São Pedro, em poucos metros a garota estaria de volta aos seus.
— E deixá-lo para trás? — a adolescente se mostrou prestativa —. Sei que é uma figura misteriosa, já ouvi histórias nas quais assumiu o protagonismo, até mesmo amigos próximos falaram sobre você, mas nunca acreditei, até hoje duvidei, porém acabaram as dúvidas. Não conseguirá se curar sozinho, precisa de ajuda, terá que renunciar ao disfarce e se mostrar a mim se não quiser causar alvoroço na cidade — aconselhou.
— Não precisa se preocupar... — resmungou ao sentir a fisgada da dor.
— Você se arriscou por mim, estou em dívida e não descansarei enquanto não pagá-la! — era irredutível.
Victor conhecia a jovem garota, seu gênio forte, quando tomava alguma decisão ninguém era capaz de mudar seu pensamento. Seria inútil relutar, ficariam ali por horas.
— Está bem. Aceitarei sua ajuda por saber que ainda tenho muitos a salvar de garras peçonhentas, mas preciso que guarde segredo — tirou o chapéu e a máscara —, pela segurança de todos nós.
—                                           Eu sabia! — Sara se alegrou com a confirmação de suas suspeitas —. Vi como saiu correndo por dentro da mata, reconheci sua voz quando se apresentou na estrada, acha mesmo que nunca o reconheceria?
— Precisa me prometer que guardará segredo — de sua testa corria o suor, a ardência o incomodava como brasa viva —. Pessoas seriam ameaçadas por minha causa.
                     
— Confie em mim, confie também em seus amigos, eles merecem a verdade — ofereceu-se para ajudar o Protetor a retirar a capa que o cobria, sentiu-se mau ao perceber o ferimento —. Vamos, precisamos dar um jeito nisso.

Após minutos de caminhada, fazendo o possível para que ninguém percebesse o grave problema que precisavam solucionar, Victor e Sara chegaram à casa do guardião dos escravos. Com a ajuda do preocupado Felipe, Sara colocou o velho amigo na cama, tirou sua camisa para que o machucado ficasse visível, percebeu que necessitariam de ajuda, Rute precisava estar ali.
— Não a incomode com isso — o Protetor tentou mudar o rumo que as coisas tomavam —. Meu pai era médico, aprendi muitas coisas, sei como remover uma bala, só preciso que sigam meus comandos.
— Você precisa de alguém que possa realmente ajudar — a adolescente insistiu —. Voltarei em poucos segundos!

Ao receber a notícia, Rute não tardou em se colocar a caminho, esqueceu-se de tudo o que acontecera, ignorou os muitos pensamentos que a mantiveram afastada daquele a quem queria se entregar. Lamentou-se pela demora de tal valentia, imaginou que pudesse perder outra vez a chance de ser feliz vivendo um amor, arrependeu-se por alimentar tantas inseguranças.
— Meu Deus! — se assustou com a realidade, o sangue de Victor era derramado sobre os lençóis.
— Não precisava ter se incomodado — o homem logo se manifestou, temeu estar atrapalhando, tudo o que menos queria era importunar a mulher que o fascinara.
— Sara disse que sabe como remover uma bala — Rute não deu atenção à fala, estava mais preocupada em ajudar do que demonstrar em palavras que não era nenhum incômodo, suas ações falariam por si —. Apenas preciso que me instrua.
— No armário na cozinha há uma maleta, é do que precisará.
À fala enfraquecida, Felipe se esforçou para não perder tempo, encontrou a maleta que guardava equipamentos como pinça e pano para estancar o sangramento, retornou com o material preciso.
— E agora? — a mulher indagou.
— Use a pinça para tirar o projétil. Tome cuidado para que não o pressione ainda mais profundamente. Não hesite em puxá-lo com cuidado, ignore minha dor, será melhor do que deixá-lo aí.
A bala, embora cravada no músculo de Victor, não estava tão enterrada, por sorte não atingiu nenhuma veia fatal, com cautela e paciência seria removida sem causar complicações.
A mão da mulher estava trêmula, seus olhos não se desviavam do objeto a ser arrancado, sua mente a atormentava com muitas preocupações. Sentia ter nas mãos uma vida, mas não era a de qualquer um, era a vida de um alguém que se tornara especial.
A pinça agarrou o projétil.
Ao início do movimento, Victor mordeu os próprios lábios fazendo Rute parar.
— O que foi?
— Dói... — murmurou —. Mas ignore a minha dor. Precisa tirar!
— Respire fundo — a pinça tornou à bala —. Vamos resolver logo isso.
Os adolescentes se angustiavam vendo o homem apertar os lençóis enquanto o projétil era retirado, suspiraram aliviados quando a bala foi exposta a todos os olhares.
— E agora?
— Pegue um ferro em brasa — o paciente recomendou com certa apreensão na voz —, pressione contra o ferimento.
— Isso é mesmo necessário? — era possível sentir a dor apenas imaginando.
— Não posso morrer com uma infecção — alarmou —. É tudo o que podemos fazer.
O procedimento foi realizado.
Victor mordeu os lençóis para que não gritasse feito um descontrolado ou chamaria a atenção que não queria. A notícia não poderia se espalhar, chegaria aos ouvidos do barão que, esperto, ligaria os pontos: não seria pura coincidência o Protetor e Victor terem se ferido juntos a menos que fossem a mesma pessoa.
Passado o pior, Rute envolveu o braço de Victor com panos que esconderam a ferida e ajudariam a interromper o sangramento, sentiu-se alguém importante cuidando da saúde de outra pessoa, uma importância que nunca acreditou ter.
— Obrigado — fraco, consequência do sangue perdido e do esforço feito para suportar as dores, o bom homem lançou um sorriso de gratidão àquela que tão prestativa concedeu ajuda.
— Não precisa me agradecer — Rute, desejando para sempre cuidar daquele que ganhava seu apreço, cobriu o Protetor e fechou as cortinas do quarto —. Descanse — apreciou a sensação experimentada ao se aproximar de seu corpo e sentir seu calor  —. Voltarei mais tarde para ver como está — o distanciamento entre os corações se encurtou, a coragem para viver um amor nascia na sofrida alma.


Continua...

##
No próximo capítulo:

— Rute, nunca guardaria rancores, não precisa pedir desculpas, sempre teria condições de compreendê-la, sei que o passado feriu seu coração, sei que chegar até aqui não foi fácil, sei que o meu tempo não é como o seu, entendo que precise de mais calma para que se sinta segura e possa se entregar a alguém, sempre a entenderia...
— E se eu disser que já me sinto segura? E se eu disser que adorei conhecê-lo? Até hoje me lembro daquele beijo, tenho a certeza de que eles quis dizer alguma coisa, tenho plena convicção de que quero viver o que me oferece.

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