[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 47 - "Você me ama!"


Capítulo 47 – “Você me ama!”

A cada manhã a brisa era ainda mais fria, aos poucos o inverno se aproximava, o outono cedia seu lugar. A cada manhã, corações terrivelmente acorrentados, buscavam se aquecer um no outro, procuravam refúgio do frio, ansiavam pelo calor do íntegro e imenso amor que compartilhavam. Naquela manhã, no entanto, após a festa orquestrada pelo poderoso barão de São Pedro, Ana estava solitária na beira do rio cujas águas nunca se cansavam da infindável corrida, mantinha-se encolhida e preocupada, pensou que o namorado não viria.
Mas, ainda que atrasado, propositalmente atrasado, ele chegou. Sentou-se ao lado da amada, não a tocou como de costume, nem a beijou para espantar o frio, apenas se sentou ao seu lado imergindo-se em longos instantes de silêncio até que a quietude fosse dissipada.
— Formam um belo casal — ele disse de repente encarando a correnteza enérgica, sentindo o vento calmo tocar sua pele, trazer o gelo da manhã.
— Sempre achei que formamos um belo casal — ela havia entendido a colocação de seu amante, mas ignorou o que sabia, não queria que pensamentos como aquele trouxessem dúvidas ao coração que às suas mãos fora entregue.
— Não, Ana, você e o rapaz que seu pai aceita como futuro genro formam um belo casal, é tudo o que essa sociedade intolerante deseja, é tudo o que ao meu lado não teria...
— E se eu não quiser arrancar suspiros, admirações ou anteder aos caprichos de uma sociedade que apenas me enoja? — olhou para o jovem escravo, mas este não retribuiu o olhar, manteve-se firme na visão das águas que fluíam —. E se tudo o que eu quero é apenas que você e eu sejamos felizes?
— Você não entende a bobagem que está cometendo ao insistir em uma relação que apenas traz angústias? — virou-se à dama que reinava sobre seus devaneios, precisava convencê-la quanto aos argumentos que tinha, precisava afastá-la —. Eu vi, Ana, eu vi o quanto são belos dando as mãos, o quanto combinam caminhando lado a lado, eu vi o quanto poderiam ser felizes, o quanto poderiam viver despreocupados!
— Não, você não acha essas coisas, você me ama, está estampado em seus olhos esse amor que nunca pode acabar, o mesmo amor que mora aqui dentro — encarando ar ardentes íris castanhas, a filha de Frederico colocou a mão sobre o próprio peito, onde sentia as muitas emoções daquele amor avassalador se manifestarem, um amor eterno, perigoso —. Está inseguro e não sabe como lidar com isso, quis intensamente estar ao meu lado em todos os momentos que de longe assistiu, eu também ansiei por isso, ansiei para que fosse você o meu acompanhante, não o tirei do meu coração nem um mísero instante. Se isso o conforta — acolheu as mãos machucadas pelo trabalho árduo da servidão —, nada pode mudar o que sinto por você, nem suas palavras que proferem o que não é verdade nem a recomendação dos outros, nada pode transformar esse desejo que nutro todos os dias, o de passar o resto da vida ouvindo sua voz dizer que me ama, respondendo a você o quanto representa para mim!
— Mas Ana...
Calou-o.
Ana calou aquele que amava com a união entre os lábios que tão bem se conheciam, através do beijo que intensificou a chama que nunca se abalava, que vento nenhum conseguia apagar, que frio algum tinha o poder de coibir, a chama da paixão que os marcava sutilmente, marcava-os pelo amor que nascera tão de repente para jamais morrer.
Sorridentes, com a face tímida de sempre, encararam-se sem palavras, duvidar daquele amor era a verdadeira bobagem que poderiam cometer.
— Ele não é um concorrente, não se preocupe com isso e, mesmo que quisesse, jamais teria chance, meu interesse é na sua companhia — acariciando a face que muito conhecia o toque singelo de seus delicados dedos, a jovem mulher professou a verdade, a imutável verdade —. Ele é um aliado, alguém que não concorda com a escravidão e que lutará ao nosso lado!
— Sei o quanto ma ama, mas pensar que posso ser privado de você, que seja condenado a vê-la construindo os nossos planos com outra pessoa, é algo que me apavora. Não sou egoísta, muito menos quero possuí-la como apenas minha, só sou um bobo apaixonado, o homem que só será feliz se fazê-la feliz — rendido ao que sentia, aliviado das momentâneas confusões que se levantaram depois de uma noite agitada, Artur envolveu a amada com o braço, como em todas as manhãs aninhou-a em seu pescoço, por alguns minutos aquecer-se-iam do outono que progressivamente ganhava forças e se fazia notório.
— E você não precisa se esforçar tanto para me garantir a felicidade — entrelaçou os dedos, fechou os olhos e suspirou descansada, sentia constante paz compartilhando momentos tão especiais com aquele ao qual se entregara cegamente —, sua existência me faz feliz...
As palavras cessaram por algum tempo.
Quando existe amor até o silêncio garante alegria aos apaixonados.

¤

Laís, sedenta pela companhia de Heitor, sentindo a dor da saudade pelos muitos dias sem vê-lo, não pôde mais conter seus impulsos, dirigiu-se à cidade onde tinha esperanças de encontrá-lo, ouvir sua voz, receber seu estimado carinho.
Mas foi negativamente surpreendida.
Bateu à porta do estabelecimento de seu amante. Sorria para o sujeito atrás do balcão, mas este mantinha-se de cabeça baixa, ignorava-a.
— Heitor? — sem entender, animada pelos poucos metros que se colocavam entre ela e o amado, a baronesa avançou em seus passos pronunciando o nome que amava dizer —. Heitor?
Continuou sendo ignorada.
Confusa, colocou-se atrás do balcão chamando pelo homem que nunca a tratou de maneira fria, que nunca a desprezou, mas que naquele dia a encarou com inexplicável desdém, um olhar nunca antes dirigido.
— Vá embora! — ordenou antes que a mulher o tocasse.
— Mas Heitor... — Laís insistiu constrangida.
— Nunca mais volte! — falando com grave voz, saiu da presença daquela que sempre confessou amar, deixou-a sozinha com a frustração que invadia o seu ser e atordoava sua alma.

¤

O amor nasce como uma delicada flor: a semente é plantada no solo que já a aguardava, é regada com a fonte da vida, em poucos dias seu broto rompe a terra, em algumas semanas floresce esbanjando perfume e beleza. O amor é assim, nasce sutilmente, floresce de repente.
Usando de estratégia, Felipe se dirigiu a sós ao bosque ornamentado por bela vegetação, em poucos minutos Sara chegou com sua presença fazendo companhia ao mais novo amigo. Mas entre eles não era amizade que existia, a semente do amor fora plantada desde o primeiro encontro, lutava para romper as barreiras da insegurança, do medo, da vergonha.
— Isso é que é vida! — o adolescente exclamou respirando o ar puro da região, apreciando o aroma da natureza, apreciação que só tinha a sua beleza se acompanhada da liberdade —. Podemos estar num paraíso, mas se não formos livres para sermos quem somos de nada vale a mais preciosa das paisagens.
— A vida é muito mais do que a mente de homens ignorantes faz dela... Quantos sorrisos maravilhosos deixam de admirar por pensamentos tão injustificáveis? Quanto carinho deixam de receber por julgarem de maneira errada o seu próprio povo? — a garota encarou o querido amigo, alguém que ganhou nobre espaço em sua vida —. Ao menos tenho a sorte de ser livre dessas mentes deturpadas, sou livre para conhecer sorrisos embriagantes, para ganhar amigos leais!
Naquela troca de olhares tão próxima, o jovem garoto sentiu o peito arder, as mãos formigarem e os pensamentos se alvoroçarem diante das íris que remetiam ao mais belo dos mares. Confessou que gostava de ouvir a voz suave, confessou que queria para sempre ouvi-la.
Mas deixou o transe antes que a proximidade entre os rostos causasse o inevitável.
Apenas deram as mãos.
Prosseguiram no passeio.

A cada dia a sementinha plantada ganhava volume em ambos os corações, era uma questão de tempo até que se rendessem aos encantos irresistíveis do amor.


##
No próximo capítulo:

— Tem hora que me pergunto por que precisa ser assim. Por que não podemos ter o direito de amar? Que pecado há nisso? E, então, me recordo de que somos cercados por pessoas arrogantes, sufocadas em tristezas das quais não querem se libertar, antes fazem mais e mais prisioneiros — sentou-se a fim de melhor visualizar a imensidão do horizonte, repousou a cabeça sobre o ombro do namorado que, sempre tão romântico e protetor, passou o braço em torno de Laís —. Fugir seria uma opção se não fosse impossível...

De segunda a sexta, aqui no blog!


Livros gratuitos:

Encontre o blog pelas redes sociais:

Obrigado pela companhia, um forte abraço e até logo!

Comentários

Mensagens populares deste blogue

[Conto] Vazias de Amor

[Conto] Homens de Paz

[Conto] Fascínio Coibido