[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 50 - Atrás da Verdade


Capítulo 50 – Atrás da Verdade

Na vida estamos sempre nos preparando para as boas coisas, aos alegres sorrisos, às grandes conquistas. Imaginamos momentos felizes, de paz e repletos de sossego nos quais nossos olhos irradiam o prazer de estarmos vivos. Nunca buscamos estar preparados para as dificuldades, às decepções, às muitas frustrações que podem surgir em nosso caminho e que, por não serem aguardadas, aparentam tamanho maior do que possuem, intensidade mais profunda do que de fato é.
Para Laís nada mais fazia sentido.
A tristeza a trancava no quarto.
Tristeza por um amor que chegara ao fim.
— Está tudo bem? — há dias reparando no desânimo que perseguia sua mãe, Ana se cansou de esperá-la para que desabafasse, foi atrás de respostas, foi oferecer seu auxílio.
— Vai ficar... — deitada, sem coragem para prosseguir, a baronesa se esforçou para articular as poucas palavras, o choro que tentava segurar amassava sua garganta, delegava árduo peso à sua alma.
— Não é o que parece — a jovem mulher se aproximou da querida mãe, agachou-se ao seu lado de modo que os olhos ficaram na mesma altura e lhe foi permitido contemplar o semblante amargo daquela que sempre sorria —. O que está acontecendo? Há dias não é mais a mesma pessoa, pouco conversa. Talvez não tenham percebido ou nem ligado, mas sinto falta do seu brilho, sinto falta daquela que sempre esteve ao meu lado na tentativa de oferecer alegria. Confie em mim. Deixe-me fazer o que sempre recebi. Deixe-me ajudar.
Encarando os olhos que tinham a cor das folhas de outono, recebendo tanto carinho e notando o zelo da filha para com ela, Laís não pôde evitar se recordar de Heitor, do quanto parecia com Ana na maneira de falar, na forma de expor os sentimentos, no modo como a acolhia. Foi inútil continuar na batalha contra as lágrimas. Perder o sentido da vida é como perder a própria vida, apesar de permanecermos vivos é como se não passássemos de números em tantos registros, mais um para povoar o mundo.
— É lastimável depositarmos toda a nossa confiança e todas as nossas expectativas em algo que de repente se revela uma grande ilusão, é árduo demais provar do amargo gosto da desilusão, uma dor que nunca imaginei que experimentaria — sentando-se, a baronesa confessou aquilo que a afligia, revelou o motivo de tão profundo dissabor —. Eu o amava com a minha vida, seria capaz de me render à morte por amá-lo, e talvez ainda o ame para sempre, mas ele me deu às costas, esqueceu-se de uma promessa, cansou-se de acreditar em algo que a cada dia se mostra mais distante da realidade... Heitor não me ama mais, confessou isso olhando nos meus olhos sem qualquer sutileza, sem se preocupar com a dor que me causaria, sem se importar com todas as vezes que expus a imensidão que a mim ele significa.
— Não pode ser verdade, deve haver algum mau entendido — Ana, estranhando aquela história, sentou-se com a mãe, recolheu suas mãos e procurou o íntimo de seu olhar —. Ele se dispôs a nos ajudar na fuga, pelo que sempre me contou ele a amava mais que qualquer coisa — para a moça nada fazia sentido, ao contrário, despertava indagações.
— Não, Ana, não queira me fazer acreditar que entendi errado, que interpretei equivocadamente o que esses ouvidos escutaram. Ele confessou sem hesitar, confessou olhando nos meus olhos como sempre fez quando queria me convencer de algo, assegurou que não me ama. Fico me perguntando se algum dia amou... — abaixou os olhos —. Talvez tudo que signifiquei a ele foi diversão, piada, instrumento que acariciou seu ego por ter nas mãos a esposa de um dos homens mais poderosos...
— Não. Não permita que pensamentos como esse invadam sua mente, não é verdade, tudo o que viveu não foi mentira, esse amor que existe desde muito cedo não foi fingido, há explicação para essa turbulência e eu imagino qual tenha sido — ergueu a face da mãe, não a deixaria sucumbir ao desânimo.
— E qual seria essa explicação? — a forma como falou deixou claro que não acreditava em nenhuma desculpa, afinal, ela bem sabia as ácidas palavras que ouvira.
— Quem garante que meu pai não os tenha descoberto? — despertou na mãe uma lembrança, quando Frederico revelara que suspeitava de suas traições, confessou sentir que não parecia ser uma suspeita de homem ciumento ou possessivo, aos seus olhos mais pareceu uma afirmação —. Quem garante que não foi atrás de Heitor e o intimidou com ameaças?
— É uma hipótese...
— É mais que uma hipótese para alguém que se sentiu a mais amada das pessoas, não acha? Fique tranquila, a verdade surgirá! — afirmou o que planejava: ir atrás da verdade, ir atrás de Heitor.

¤

Nunca mentiu, nunca ousou faltar com a verdade, muito menos com a mulher que todos os dias confessava amar, que em todas as manhãs era a primeira a invadir seus pensamentos quando despertava, que em todos os anoiteceres invadia os seus sonhos e garantia leves noites. Mas precisou mentir. Precisou enganá-la. Evitava pensar na dor que lhe causara, era capaz de senti-la.
Cansado daquele fardo, enlouquecendo pela culpa que crescia e pelo desespero de imaginar que nunca mais teria Laís em seus braços, Heitor se dirigiu à igreja, colocou-se na presença do confessionário, precisava admitir os seus pecados, rogar por misericórdia e suplicar por conselhos de salvação.
— Não sei ao certo como começar, mas se não o fizer temo que acabe vagueando pelas ruas sem nenhuma direção, não sabia que amar pudesse garantir insuportável penitência...
— Sinta-se livre, filho, apenas eu ouvirei suas palavras e elas estarão para sempre guardadas — o padre Miguel já imaginava quais eram as angústias do fiel, sempre soube que mais cedo ou mais tarde elas se manifestariam, quanto mais tardassem mais arderiam.
— Eu amo uma mulher, amo desde que era um garoto curioso, repleto de sonhos, inocente quanto a realidade desse mundo tão injusto e cruel. E esse amor era mútuo. É mútuo. Na maneira como me olhava, na forma como me abraçava, do jeito que me beijava, em cada um desses gestos ela anunciava o quanto me amava e eu me sentia o mais sortudo dos homens por isso, o mais privilegiado de todos os seres humanos... Mas tanto eu quanto ela sofremos por isso, fomos proibidos de exibir ao mundo o que sentíamos, não tivemos escolha que não fosse viver esse amor às escondidas, em ocultos, distantes dos muitos olhares. Mas o que por si só resplandece não pode ser encoberto. Fomos descobertos. Ameaçados. Ela não aceitaria que nos distanciássemos, que como amigos terminássemos o que sempre existiu, o que sempre foi tão bom... Precisei mentir... Precisei encarar aquele doce olhar como se odiasse aquela que por ele é ornamentada. Precisei dizer que já não a amava enquanto tudo o que mais quero é despertar em cada amanhecer contemplando o seu sorriso... Por amá-la e querê-la viva precisei fingir um ódio impossível de existir...
— Eu sei quem é ela, filho, não precisa omitir o nome da mulher que conquistou seu coração... Não o culpo por amá-la, nem os condeno por não saberem como evitar esse amor, como derrotar o invencível. Você e Laís sempre me pareceram um belo casal!
Heitor se espantou, sentia surpresa ao mesmo tempo em que regozijo, alcançava a compreensão de quem menos pensou compreendê-lo.
— Não posso negar que agem de maneira errada, colocando em risco suas vidas, mas também sou incapaz de julgá-los por terem sido condenados por uma sociedade altamente hipócrita, de conceitos egoístas e comportamentos contraditórios. Posso entendê-los e rezo todos os dias para que a luz da liberdade os alcance...
Pareceu mentira.
Mas Heitor alcançou o que procurava: coragem.

O comerciante ainda estava de joelhos diante o altar elevando suas preces quando Ana adentrou o templo sagrado procurando pelo padre que a batizara.
— Sei que o senhor é quem mais conhece o povo desse lugar, preciso que me ajude, que me leve até um homem chamado Heitor.
— Hoje é um dia de bênçãos, minha querida — o religioso apontou para aquele que orava —. Ei-lo aí!
Ana e Heitor.
Havia algo em comum entre eles: uma íntima ligação.

¤

Sem que ninguém o visse ou perseguisse, Artur se enfiou na mata, avançou por entre as árvores tomando o cuidado necessário para que não ser surpreendido por animais peçonhentos. Chegou à caverna, encontrou seu prisioneiro acordado, completamente vulnerável.
— É mesmo muita sorte que tenha sobrevivido — tirou da cintura de Sebastião o chicote que a muitos açoitara —. Só não sei se ela é sua ou toda minha! — chicoteou a parede, seus olhos ferviam de raiva.


Continua...


##
No próximo capítulo:

Dizem que os olhos são as janelas da alma e isso é verdade sua boca diz que acabou, mas sua alma grita para que continue, é o que os seus olhos proclamam quando fala de minha mãe, é o que sei que é verdade — tocou as mãos do homem que a ouvia —. Não minta para você mesmo, não se esconda por medo, a luta pelo amor sempre valerá a pena!

De segunda a sexta, aqui no blog!



Livros gratuitos:

Encontre o blog pelas redes sociais:

Obrigado pela companhia, um forte abraço e até logo!

Comentários

Mensagens populares deste blogue

[Conto] Vazias de Amor

[Conto] Homens de Paz

[Conto] Fascínio Coibido