[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 53 - Vingativa Justiça - Parte 1


Capítulo 53 – Vingativa Justiça (Parte 1)

Justiça.
Para as pessoas de boa índole, bons princípios, que procuram andar no caminho da retidão, a justiça é um dos mais valiosos bens, ela proporciona equilíbrio e equidade, ou ao menos deveria proporcionar. As pessoas de boa essência, no entanto, não estão livres de passarem por processos amargos, horas de tormenta, investidas injustas de inimigos perversos. E, então, arruinadas, feridas, machucadas a partir de gestos covardes e impiedosos, confiam na justiça, muitas cansam de esperar, parece que ela nunca virá. Por fim, acham uma maneira alternativa de justiça, encontram uma forma de cobrar de seus algozes cada centavo devido: a vingança se transforma em um prato sedutor.
Artur era alguém de boas intenções, coração puro, um jovem exemplar, mas estava farto de ver o seu povo, igualmente honesto, sofrer sem explicações plausíveis, estar condenado a uma vida indigna e inaceitável, estava farto de aguardar pela justiça. Naquele momento, tendo em mãos um de seus maiores algozes, não poderia perder a chance de fazer sofrer aquele que sempre causou sofrimento, de arrancar lágrimas daquele que não poupou crianças do assombro, de tirar sangue daquele que pouco se importou com a integridade de tantas mulheres. Não perderia a chance de exercer sua própria justiça, uma vingativa justiça.
Levando o filho para fora da cozinha, guiando-o ao terreiro, Adelaide encarou seu sublime olhar, compreendia as razões de Artur, mas conhecia muito bem aquele que criara, ele não era como os abomináveis e, ainda que pensasse ser capaz de fazer justiça com as próprias mãos e tirar a vida de um sujeito que considerava repugnante, sofreria quando as tensões passassem e a consciência de seus atos o atormentasse.
— Eu sei que está com raiva, também sinto ira por um homem que agiu covardemente, que usou de astúcia para alcançar um sórdido prazer, mas reafirmo o que já disse, não vale a pena sujar as mãos com quem vale tão pouco — levou a mão ao rosto que tão bem conhecia, à face que vira se modificar ao longo dos anos, semblante que denunciava a nobreza de espírito —. Olhe só para você, um moço bondoso, admirado, respeitado pelo que representa àqueles que o rodeiam, não vale a pena jogar tudo isso fora, não quero que acabe com a sua vida.
— Mas ninguém verá, ninguém ficará sabendo, não poderão me culpar e eu só terei paz se ele estiver morto, por minha causa a senhora sofreu coisas que nem quero imaginar — ainda que estivesse assumindo um lado sombrio, era por amor, respeito e zelo por aquela que amava.
— Simplesmente não imagine, já foi, já passou, tenho certeza de que já o assustou, ele não seria capaz de encostar um dedo em mim! E mesmo que ninguém veja, sua consciência para sempre o acusará...
Por alguns instantes Artur refletiu nas coisas que acreditava, no bem que procurava seguir, na humanidade que queria provar que existia dentro de si, através da qual calaria a todos que o consideravam um desalmado pela cor de sua pele. Mas parecia irredutível. Como venceriam o inimigo se na oportunidade que tinham de destruí-lo se acovardassem?
— Não — respondeu —. Homens como Sebastião não se assustam, nunca aprendem com o castigo, sempre se acham maiores e mais fortes que quaisquer correções — afastou-se da mãe, seguiria com o próprio plano —. De hoje aquele desgraçado não passa! — correu.
Adelaide, arrepiada com o descontrole que envolvera seu amado filho, permitiu que o receio se convertesse em choro, elevou suas preces, suplicou para que Artur fosse esclarecido nem que faltasse um segundo para a consumação de seus atos.

Se quisesse a ajuda da luz do dia, Artur precisava agir com rapidez, em poucos minutos o sol se esconderia e a noite alcançaria a todos com suas potentes trevas. Convenceu Bruno a ajudá-lo na confecção de cordas resistentes, não existia outra forma de matar Sebastião se não imobilizando-o por completo, o rio no qual o lançariam se encarregaria de sumir com o corpo.
Adentrou a mata na companhia do amigo.
Na cintura, portava uma arma de fogo.

Entediado pela demora do retorno de seu adversário, Sebastião procurou passagens pela caverna, mas nada encontrou. O portão metálico era impossível de abrir, quando instalado fizeram questão de um cadeado poderoso, resistente a arrombamentos, queria entender como Artur conseguira a chave. Talvez tivesse sido abandonado para morrer sozinho, de fome e sede, mas não aceitaria tal situação, não se convenceria de que um negro o trancafiaria para morrer. Precisava escapar.
Sorriu ao perceber que já não precisaria se descabelar na busca por soluções. Ouviu vozes na mata. Expiou pelas frestas. Flagrou Artur e Bruno, praguejou contra o soldado, zombou do escravo.
Colocou-se atrás da porta
Surpreenderia o inimigo.

Conforme se aproximava da caverna, Artur ouvia as palavras se repetindo aos seus ouvidos, e se ela tivesse razão? E se para sempre fosse condenado ao atormentador remorso de sua ação? Enlouqueceria? Não, não poderia enlouquecer, procurou se justificar considerando que o que fazia era justiça, cobraria de um sujeito tão impiedoso todas as maldades que praticara.

— Vou averiguar ao nosso redor, ter a certeza de que não seremos vistos — Artur entregou a chave ao parceiro —. Enquanto isso o amarre, tomarei conta do resto.
— Tem certeza de que é o que fará? — antes que Artur partisse, Bruno o indagou —. Há maneiras melhores de fazer justiça, não precisamos nos igualar aos ordinários para isso.
— Acha que devo ter misericórdia por alguém que arranca sangue das costas do meu povo?
— Acho que precisa se proteger do que não conseguirá evitar.
Artur não respondeu.
Prosseguiu.

Respirando fundo, como se procurasse forças para encaixar a chave no cadeado, Bruno destravou o portão, fez soar o atrito entre o ferro e o chão, deu o primeiro passo.
O segundo. E o terceiro.
Não pôde dar nem mais um. Sebastião o agarrou por trás, encurralou-o contra a parede da caverna, forçou seu rosto contra a superfície áspera enquanto imobilizava suas duas mãos às suas costas.
— Sempre o considerei um fraco, uma verdadeira mocinha que não se cansa de correr atrás do cavalheiro ideal, sua traição custará caro! — falava aos seus ouvidos, exalava o cheiro da maldade —. O que Artur lhe prometeu para que fizesse parte dessa conspiração, hein?! Será que não sabe que ele já tem dona? Não percebe que está sendo usado? — insinuava seus julgamentos.
— O que quer dizer? — Bruno falou com dificuldade, sentia a face ser espremida contra a região ríspida.
— Agora não importa — puxou para trás os cabelos do soldado —. De você eu cuido depois! — chocou a cabeça do rapaz contra a parede, causou seu desmaio.
Estendendo Bruno sobre o chão, preocupado que a qualquer momento Artur aparecesse, Sebastião vasculhou no corpo da vítima por algum armamento, algo que pudesse usar na luta que teria.
— Desgraçado! — vociferou frustrado, nada encontrou.
— O que pensa estar fazendo?! — a potente voz de Artur ecoou dentro da caverna, em suas mãos estava a cobiçada arma, bastava um disparo para que tudo fosse consumado —. Acha mesmo que escaparia facilmente? Acha mesmo que cairia em minhas mãos e teria alguma chance? — falava com fúria, fagulhas de saliva saltavam de sua boca —. Babaca idiota!
Admitindo que o mais sensato fosse mostrar apreensão, Sebastião levou lentamente as mãos à cabeça, vagaroso levantou-se do chão, não sabia o que um sujeito como Artur seria capaz de fazer ao colocar as mãos sobre alguém que tanto sofrimento causou.
— Para fora! — o jovem escravo ordenou.
Imediatamente, o capataz obedeceu, caminhava tranquilo, na verdade estava arisco, temendo que o gatilho fosse pressionado.
— Anda! — estando às costas do inimigo, Artur rendeu mais ordens, mantinha o objeto fatal apontado para Sebastião, as duas mãos seguravam o armamento, trêmulas —. Se pensar em agir de modo contrário ao que estou falando não pensarei antes de mandá-lo ao inferno! — assegurou.
Continua...


##
No próximo capítulo:

Sebastião, por sua vez, esforçando-se por enxergar o caminho que trilhava, sentia o peito disparar tendo aos ouvidos o som da perseguição, precisava escapar, arranjar uma forma de se esquivar do perseguidor, voltar para casa e garantir ao sujeito que odiava um castigo que nunca seria esquecido.
O problema era que não conhecia a estrada na qual pisava.
À sua frente, um abismo.


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