[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 58 - Virar a Página


Capítulo 58 – Virar a Página

As estações vêm e vão de modo que as flores nunca são as mesmas, os frutos sempre mudam, a natureza apresenta variadas facetas em um só ano. A vida flui. Histórias vêm e vão de modo que os capítulos no livro da vida nunca são os mesmos, sempre há novidades, reviravoltas, inesperadas surpresas, cobiçadas conquistas, basta que ousemos virar a página.
Sim, é necessário que saibamos virar a página a fim de não ficarmos estagnados em um mesmo capítulo lendo-o incansáveis vezes, temendo reviver as tristes experiências ali inscritas sem nos darmos conta de que o fazemos por não conseguirmos avançar na história. É necessário coragem.
Em frente ao fogão à lenha, preparando com as próprias mãos algo que levaria para Victor, Rute admitiu que lhe faltava coragem, faltavam forças para prosseguir ao futuro deixando o passado em seu lugar e em razão dessa fraqueza perdera de viver dias incríveis, perdera de sorrir sem motivos, perdera de ser contagiada pela felicidade que apenas quem de fato vive consegue sentir. Quase perdera o vizinho galanteador, primeiro em nome da insegurança que a paralisara no caminho e depois por forças obscuras que um dia levaram seus pais e que agora o perseguia. Quantos sustos mais teria que levar até perceber as boas oportunidades que deixaria passar? Estava na hora de interromper o desperdício de algo tão sagrado e singular quanto a vida, estava na hora de voltar a respirar sem as opressivas mazelas de uma história que até aquele ponto garantiu tantas densas lágrimas, mas que prosseguiria rumo ao anseio do coração disposto a sentir o refrigério do amor, a transformação da valentia.
— Há quanto tempo não a via cozinhando? — Sara, entrando na cozinha, foi agraciada por grande surpresa.
— Enquanto algumas coisas precisam ser esquecidas, outras devem ser resgatadas, não acha? — lançou o animado sorriso àquela que possuía o seu sangue, que era sua filha, mas que jamais saberia —. O cheiro está bom?
— Não imagina o quanto fico feliz por vê-la reagindo dessa maneira! — aproximando-se da ama, a adolescente a abraçou e farejou a sopa que esfumaçava —. Se depender do cheiro, está saborosíssima! — elogiou.
— Não precisa ser tão educada.
— Nunca falei tão sério.
— Será que Victor vai gostar? — aquele era o motivo para que estivesse cozinhando: cuidaria do homem que no primeiro encontro incitou bons desejos em sua alma, o homem que durante a convivência se mostrou diferente dos demais, o homem que desprezou quando lhe ofereceu o coração, o homem do qual agora cobiçava o perdão.
— E eu achando que era para mim — Sara falou divertida.
— Mas é claro que também poderá saborear, você e seu amigo.
— Eles adorarão o mimo. Mas cuidado para não acostumá-los mau — brincou.
— Eles merecem todos os agrados do mundo.
— É... Eles merecem... — reconheceram que pessoas incríveis cruzaram o seu caminho, pessoas que mudariam suas histórias para sempre.

Ao anoitecer, quando as famílias se preparam para o descanso de um dia trabalhoso, Rute retornou à casa de Victor levando consigo o que havia preparado. Pediu para que Felipe organizasse a mesa e jantasse com Sara enquanto ela mesma levaria o prato do Protetor.
Entrando no quarto de Victor, iluminando o ambiente com o lampião que levara, a boa mulher descansou o prato sobre o criado-mudo, pensou em despertar o homem que a conquistara apesar da relutância, mas preferiu observá-lo rendido à proteção do sono. Sentou-se na cadeira ao lado as cama. Estaria ali tão logo os olhos se abrissem.
E esteve. Em poucos instantes as íris castanhas foram expostas.
Ao acordar e notar a presença de Rute, Victor não escondeu o singelo sorriso que tomou conta de sua feição, a companhia era mais do que agradável, era desejada, como se fosse a realização de um sonho.
— Você voltou... — disse com a voz ainda sonolenta.
— Disse que voltaria — retribuiu o sorriso —. Como se sente?
— Melhor — farejou no ar o gostoso cheiro de comida temperada.
— E ficará completamente bem em pouco tempo! Consegue se sentar? — levantou-se.
O Protetor atendeu à recomendação descobrindo de onde vinha o cheiro que aumentara seu apetite.
— Fiz uma sopa — usando uma mesinha de cama, Rute posicionou o prato para que Victor pudesse se alimentar —. Aproveite antes que esfrie — deu-lhe a colher —. Qualquer coisa estarei com os pombinhos — divertiu com a fala.
— Por que não fica? Quero dizer, se não for nenhum incômodo.
Em outras ocasiões, quando o medo de perder o que ainda era possível de abraçar não abrira sua visão, Rute teria recusado a ideia, nem estaria li, mas vestida de coragem pelo temor de não ter novas chances a mascarada não negou o pedido.
— Não gosto de comer sozinho — encheu a colher —. Se tiver a oportunidade da companhia de alguém eu não a dispenso! — deu a primeira colherada.
— Experiente na solidão, consigo entender sua preferência. Nada como estar acompanhado.
Saboreando a sopa preparada com tanto carinho, Victor fechou os olhos enquanto resmungava demonstrando aprovação.
— Suas mãos fazem mágica! — não resistiu à outra colherada —. Está uma delícia!
— Tem certeza?
— Não me lembro de ter experimentado uma sopa tão saborosa! — somado ao bom sabor, as mãos que haviam preparado o prato contribuíram para que o Protetor não economizasse nos elogios, ao contrário, exaltava o talento de sua visitante com inteira sinceridade.
— Fico feliz que tenha gostado. Não sabia exatamente como me desculpar por aquele dia. Acho que oferecendo os meus cuidados é um bom modo.
— Desculpar-se?
— Não faça isso apenas para que me sinta melhor, sei que fui ignorante, não devia ter reagido tão mau ao carinho de alguém que não é como os outros, que não dá motivos para desconfianças... Gostaria que me desculpasse.
— Rute, nunca guardaria rancores, não precisa pedir desculpas, sempre teria condições de compreendê-la, sei que o passado feriu seu coração, sei que chegar até aqui não foi fácil, sei que o meu tempo não é como o seu, entendo que precise de mais calma para que se sinta segura e possa se entregar a alguém, sempre a entenderia...
— E se eu disser que já me sinto segura? E se eu disser que adorei conhecê-lo? Até hoje me lembro daquele beijo, tenho a certeza de que eles quis dizer alguma coisa, tenho plena convicção de que quero viver o que me oferece.
— Sabe o que aquele beijo quis dizer? Que eu me apaixonei por você, que quero passar bons momentos ao seu lado, que quero proporcionar a experiência que nunca teve, que quero amá-la como não souberam fazer, que quero estar ao seu lado mostrando que a vida é bela, que viver é uma dádiva, ainda mais quando temos a companhia de quem amamos...
— Fui equivocada ao rejeitá-lo, quem me ofertaria tais coisas? — seus olhos marejaram, o coração foi aquecido depois de anos cercado de gelo —. Também quero estar ao seu lado, sempre, vivendo contigo!
— Dê-me sua mão.
A fim de atender ao pedido, Rute se aproximou do homem acamado, encarou os olhos que brilhavam contentes, a face que esbanjava alegria, que deixava de lado as dores que mais cedo arrancaram gritos.
— Eu prometo que não se arrependerá, eu prometo...

Apaixonada, Rute tomou a iniciativa, encurtou as distâncias e uniu os lábios em um beijo transformador, redentor, que trouxe de volta à sua vida a crença no amor, os encantos da paixão, o prazer de amar, a satisfação de ser amada e a vitória de quando se é capaz de virar a página.


##
No próximo capítulo:

— Ao conhecê-lo me senti atraída, primeiro pela sua história, por considerá-lo forte e corajoso ao ponto de se rebelar contra uma realidade que poderia esmagá-lo e lutar pela liberdade que tantos desejam. Achei que o considerei amigo pela admiração, mas logo percebi que não era apenas isso, seu jeito me encanta, a forma como me trata é sutil, de admirada passei a ficar encantada para então entender que me apaixonei...

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