[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 62 - Intermpérie
Capítulo 62 –
Intempérie
Durante a noite a chuva perdeu sua castigadora
intensidade, pela madrugada não caiu mais nem uma gota d’água, mas como era de
se esperar, o dia amanheceu nublado e congelante, sair da cama se assemelhou a
impossíveis tarefas, colocar-se na rua parecia uma maneira de tortura. Contudo,
o frio imobilizador não impediu que logo cedo Ana vestisse seus agasalhos e
fosse à margem do rio que tão frequentemente visitava. Além de agitadas, as
águas estavam mais avolumadas que o normal, consequência das horas
ininterruptas de tempestade.
Mas aquela manhã não seria como as outras.
Traria amargas preocupações.
Cambaleando, apalpando as árvores a fim de
equilibrar o próprio corpo e não se render ao chão, Artur surgiu para a alegria
daquela que o amava, mas seu sorriso estava forçado, seus olhos se afadigavam
por se manterem abertos, ao ver Ana não resistiu ao enfado, sentou-se ofegante
sobre as folhas molhadas.
Estranhando o modo como o namorado caminhava,
intrigada pelo semblante apático que sempre reluzia emoções, a jovem mulher
teve certeza de que não estava nada bem com Artur ao contemplá-lo perder as
forças sobre as pernas e se entregar ao solo. A passos ligeiros, encurtou os
poucos metros que os distanciavam, seu coração acelerou.
— Artur, o que está sentindo? — percebeu que o
escravo estava molhado, não poderia ser da chuva que tomara, já deveria ter
trocado de roupa.
— Eu estou bem... — em meio a dificuldade para
respirar, o rapaz se esforçou por dizer o que não era verdade, por esconder a
fraqueza que sentia, a turves que dominava suas vistas.
— Isso é o que, com toda certeza, não está! — Ana
colocou a mão sobre a testa molhada de suor, sentiu a temperatura alta, não
teve dúvidas de que o amado era acometido por febre —. Só pode ser a chuva que
tomou! Eu sabia que não acabaria bem!
— Não se preocupe com bobagens — Artur tentou
encarar os olhos da moça, mas não conseguiu, tinha a sensação de ter levado uma
surra, mal conseguia fixar o olhar em algum ponto, estava nauseado pela
vertigem.
— Você precisa de ajuda! — Ana se levantou
angustiada —. Não saia daqui!
Como se corresse contra a morte, a jovem mulher
voltou à fazenda, procurou por Bruno e explicou o que estava acontecendo, pediu
para que levasse Artur de volta à senzala, daria um jeito de levar medicamentos
para o enfermo. Desesperada por não encontrar solução, Ana se lembrou de quando
era mais nova e sofria com as gripes esporádicas que a derrubavam, graças aos
singelos e atenciosos cuidados da mãe sempre passou por maravilhosas recuperações,
era a quem recorreria.
Ainda sonolenta, sendo despertada pela moça aflita,
Laís pediu alguns instantes para que se vestisse, pegou a caixa onde guardava
inúmeros frascos de medicamentos e pouco se importou em saber onde Frederico se
metera, colocou-se no meio dos escravos, adentrou a senzala, condoeu-se por ver
a amiga angustiada pelo filho, lamentou por encontrar Artur em condição
fragilizada.
— Não se preocupem, vai ficar tudo bem — aos que
estimavam o nobre rapaz e se puseram ao seu redor, Laís concedeu as palavras de
esperança e tranquilidade enquanto examinava o doente, agradeceu por ter sido
tão curiosa quando mais nova e observado como os médicos cuidavam de sua mãe
enferma —. Ana disse que ele tomou a chuva de ontem, acredito que esteja prestes
a enfrentar uma gripe — sem transmitir receios, procurou o remédio para
combater a febre, aprendera que era papel do médico conceder segurança ao
paciente —. Mas se agirmos rápido seus efeitos serão menores.
Ver aquele que era tão forte e animado enfraquecido
por uma intempérie, abalou o coração de Ana, a moça apaixonada, a jovem que
sofria todas as vezes que via o motivo de seus sorrisos emotivos sendo alvo de
dores que gostaria de extinguir. Todos os dias se perguntava sobre até quando
aquilo seria a realidade, todos os dias se convencia de que chegara o momento
para se rebelar e combater as forças opressoras.
Palmas puderam ser ouvidas.
Uma presença desagradável se manifestou no ambiente.
— Alguém pode me explicar que palhaçada é essa? —
Frederico queria respostas.
¤
Egídio, com tantos pensamentos sobrevoando sua
mente, não conseguiu adormecer durante a noite, acompanhou as horas se passarem
enquanto fazia a si mesmo inúmeros questionamentos, indagava o que de errado
fizera para merecer um filho que lhe trazia imenso desgosto. Jamais aceitaria aquela
decisão. Jamais daria a mão a um impuro, a alguém que a sociedade teria por
aberração, que rejeitaria sem pestanejar e, aos seus olhos escamados, com toda
a razão. Embora se julgasse certo em seu comportamento sabia que quebrava uma
promessa, uma importante promessa.
Assegurando ao
filho que teria um grande amigo, inseparável companheiro, a mulher que se
preparava para partir levou os olhos apagados ao homem que, com o tempo,
aprendera a amar, ao homem que precisaria ser forte para prosseguir na
caminhada sem a sua companhia.
— Olhe para o
nosso filho, o fruto do que tivemos a sorte de germinar entre nós, a conquista
dos puros sentimentos que compactuamos um pelo outro — a mão fria pousou sobre
o rosto encharcado de lágrimas, lágrimas de dor por precisar se afastar de quem
se ama —. Ele é um jovem de valor, transformar-se-á em alguém de princípios
humanos, de índole honesta, de atitudes admiráveis que farão do mundo um lugar
melhor. Prometa a mim que o compreenderá, que o auxiliará na sua luta, prometa
a mim que o protegerá contra o seu próprio ódio, contra a sua própria
intolerância. Chegará o dia em que tudo o que ele precisará será de um amigo
verdadeiro, de um apoiador incondicional, eu não poderei satisfazer tal
necessidade. Promete que por amor ao fruto do nosso amor se permitirá à
reflexão e à compreensão?
Confuso,
almejando entender o que a esposa intencionava transmitir com aquele discurso,
Egídio cobriu a mão que tocava seu rosto, acariciou o rosto pálido que há dias
perdera a cor.
— Eu prometo. Eu
prometo que tentarei.
— Precisa me
prometer que conseguirá.
Teria que ser
forte se aquele dia chegasse, se de fato precisasse ignorar o próprio orgulho e
ser compreensivo, desvestir-se do homem intolerante que era. Teria que ser
forte para amar.
— Eu prometo...
Aliviada,
sentindo que deixava a família mais unida do que nunca, a boa mulher se rendeu
ao enfado da luta que travara por dias, entregou-se ao descanso merecido
deixando saudade.
Egídio, remoendo o passado, perguntou-se se era
sobre aquilo que a esposa quis se referir. Quis se justificar, se livrar da
promessa, convencer-se de que a mulher nunca exigira que fosse compreensivo com
subversivos. Quanto mais tentava se esquivar, mais sentia o remorso de quebrar
uma promessa feita a quem dizia amar.
Pela manhã, ainda deitado, o fazendeiro ouviu Pedro
se despedindo dos escravos da casa. Sentiu o peito arder, apertar-se. Correu a
tempo de impedir que o rapaz partisse, pediu para que o aguardasse no escritório.
Atendendo ao pedido do pai, observando o cômodo que
tão bem conhecia, Pedro se lembrou dos anos passados quando a mãe, com toda a
sua graciosidade, caminhava por ali ajeitando ao seu gosto cada objeto de
ornamento, cada móvel. Tudo estava como ela havia deixado, ninguém teve coragem
de alterar a ordem, ninguém ousou mexer no que tão bem ela arrumara. Lamentou o
fato de não tê-la ali naquele momento, de não contar com o seu apoio e
compreensão, lamentou não ser forte o bastante para se esconder da verdade,
lamentou por ter acreditado que teria no pai um amigo verdadeiro.
Continua...
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No próximo capítulo:
— Sabem o que
fizeram hoje? — lançou-as ao chão da sala enquanto alçava a voz estridentemente
—. Cometeram um grave erro! Fizeram por menos a minha autoridade, pisaram sobre
a minha palavra! Faça isso outra vez, Laís, seus olhos contemplarão o horror!
Repita seu ato irracional, Ana, seu desejo será atendido, casamento não haverá
porque a cova será seu destino! — feitas as covardes ameaças, o barão se
retirou deixando medo, desespero e ardente desejo por virar a página daquela
repudiável história.
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