[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 66 - Amores Proibidos


Capítulo 66 – Amores Proibidos

Quando somos compreendidos e acolhidos a partir de nossos desabafos carregados de tantas incertezas e ameaças, alcançamos paz no espírito, alívio na alma, conforto na mente antes conturbada por agora sermos livres de máscaras e camuflagens, livres para assumirmos a nossa melhor versão.
O casal arranjado participava junto de Frederico de uma festa luxuosa promovida por um influente amigo do barão, Pedro estava sorridente, esbanjava uma simpatia que atiçou a curiosidade em Ana.
— Posso saber qual é o motivo para esse semblante alegre?
— Eu estava enganado e foi maravilhoso perceber o quanto me enganei — falava baixo, não queria que suas palavras fossem ouvidas por pessoas astutas, sentia-se pronto para revelar à amiga quem ele de fato era —. Pensei que estava tudo acabado, que precisaria deixar para trás os muitos sonhos que alimentei, mas esses achismos não passam de verdadeiros enganos, a vida sempre arruma uma forma de nos impressionar.
— Descobrir que se enganara me parece ter sido a melhor coisa que aconteceu nos últimos tempos — a moça se alegrou pelo contentamento do rapaz, nunca o vira tão radiante, aquela novidade aumentava suas próprias esperanças.
— Pode ter certeza que sim — observou ao redor, notou que as pessoas se distraíam em seus diálogos, poderia se abrir —. Temos semelhanças que você talvez não tenha imaginado, mas nossas histórias se cruzam em um ponto em comum, também amo alguém que a sociedade nunca aceitaria, convivo com a ânsia de um amor proibido e saber que terei o apoio da pessoa que mais importa foi em muito revigorante.

Enquanto há alguns quilômetros da casa grande os fazendeiros mais ricos da região se deleitavam com farturas, na senzala os escravos se organizavam para descansar os corpos exauridos, relaxar as mentes abafadas. Artur, porém, encarando o céu estrelado, ignorando o frio que imperava sobre a noite de inverno, avistou a poucos metros o amigo que fizera, percebeu que estava pensativo, distante, aproximou-se a fim de oferecer tudo o que poderia, o que de mais valioso alguém pode receber: atenção.
— Sou incalculavelmente grato por ter sido o escolhido para substituir Sebastião, nossos dias têm sido um pouco mais tranquilos — o escravo se sentou ao lado do guarda, tirou-o dos devaneios, trouxe-o de volta à realidade.
— Confesso que senti contentamento ao receber tal ordem, vi uma valiosa oportunidade para aliviar um pouco do sofrimento de seu povo que, na verdade, considero como sendo meu, somos humanos! — forçou o sorriso de esperança, não conseguiu esconder o semblante abatido.
— Está acontecendo algo que queira compartilhar? — Artur sempre soube reconhecer um espírito cansado e sempre se dispôs a conceder um pouco de descanso.
— Não se preocupe, já tem problemas demais... — queria desabafar, confiar a alguém segredos que causavam sofrimento, mas não queria colocar mais peso sobre alguém enfastiado deles.
— Isso é bobagem. Você se mostrou um amigo que nunca esperei conquistar, arriscou-se querendo me ajudar em meus problemas, o mínimo que posso fazer é retribuir o apoio... — mostrou-se disposto a ouvir.
— E é por essa amizade que temo falar a verdade, temo que não consiga mais encarar o meu rosto, temo que faça como tantos fizeram... — os olhos se encharcaram, seu segredo era doloroso de carregar, causava feridas que custavam cicatrizar.
— Se você se revestiu de humanidade para me abraçar por que não faria o mesmo? — Artur colocou a mão sobre o ombro de Bruno —. Se quiser ser ouvido, eu estou aqui.
— Não sou como deveria ser, ao menos não sou como o mundo espera que eu seja, sou visto como um ser terrível, uma aberração, talvez até mesmo você me tenha por abominação — levou os olhos para baixo querendo esconder o choro, assistiu os dedos agitados se tocarem, sentiu o nó sufocar sua garganta —. Esperam que eu me comporte como um homem, case-me com uma mulher e construa uma família que possa ser admirada, mas esse não sou eu, nunca serei eu, sinto um amor proibido — levou os olhos desesperados ao atento amigo —, é com um rapaz que quero construir a minha vida e por essa simples razão sou condenado a uma infelicidade, sou marcado como escória... — as lágrimas ganharam intensidade.

Ana, conhecendo um lado que Pedro tanto lutou por esconder e manter em oculto, admirou-se pela semelhança que suas vidas possuíam, pela ironia do destino que fizera seus caminhos se conectarem.
— Um amor proibido... — a moça suspirou —. Desde nova soube que amava Artur de uma maneira diferente, não o queria apenas como amigo, em nossas brincadeiras infantis imaginávamos o futuro, planejávamos o nome de nossos filhos, só não esperávamos que muitos obstáculos se colocariam em nosso caminho e por isso sofremos, não nos preparamos para os espinhos.
— O que se passa em nossas cabeças para optarmos pelo caminho mais difícil? — o rapaz questionou pensativo, querendo entender as razões que o colocaram em uma posição na qual necessitaria de grandes esforços por sobreviver —. Queria entender como escolhemos um amor proibido...
— Não acho que consigamos escolher quem vamos amar, meu amor por Artur simplesmente nasceu, simplesmente existe, confesso que em algum momento quis extinguir esse amor por vê-lo sofrer, mas fui incapaz, como poderia renunciar algo que não escolhi? Assim como você, aposto que não escolheu a quem entregaria o coração — falou cheia de curiosidade, não confessaria, mas adoraria saber quem era a pessoa que garantia ao bom amigo o sorriso estampado em sua face.
Nunca pensara a partir de tal perspectiva, nunca se dera conta de que o sentimento simplesmente nascera sem que ele precisasse intervir, precisou concordar sobre tentar sufocar aquele amor inesperado, mas nunca conseguiu, jamais conseguiria.
— Você tem razão, se pudesse escolher teria optado por alternativas menos perigosas, mas quando compreendi o que sentia não pude evitar, nem me conter — encarou a moça que o ouvia, aproximou-se de seus ouvidos, confiaria a ela o seu maior segredo —. Espero que possa me entender, que como o meu pai consiga me aceitar, as pessoas nunca compreenderiam, talvez me condenem, mas não há nada que eu possa ou consiga fazer para tirar das mãos de Bruno o meu coração.
Ana nada disse.
Apenas abraçou o querido amigo desprezando o que pudessem falar.
Sabia que o rapaz necessitava daquele acolhimento como ela precisava.

Tornando a encarar as estrelas, mantendo-se emudecido por alguns segundos, Artur analisou o que acabara de ouvir, a descoberta que fazia. Comparou aquela história com a sua própria condição. Era capaz de compreender a dor do amigo, sentia a mesma dor.
— Suspeito que não se sinta humano... — quebrou o silêncio, levou o olhar compreensivo àquele que lhe confiara um importante desabafo.
— Diante do pensamento da sociedade me sinto como um verme, um doente do qual as pessoas precisam fugir. Só conseguia me sentir humano quando estava ao lado de quem amo...
— Conheço esse sentimento, sei o quanto é terrível se sentir assim, perceber que as pessoas o consideram um parasita. Mas também compreendo quando diz que o amor aliviava esses sentimentos, que o amor lhe devolvia a sensação de ser gente, é como me sinto quando estou com Ana. Por que disse que apenas quando estava, no presente as coisas mudaram?
— Ele precisou se afastar, talvez querendo me proteger, se defender, não sei qual rumo nossas vidas tomarão, apenas sei que a culpa dessa distância que ao menos a mim aflige é de uma sociedade ignorante e hipócrita — desfez o rosto ofuscado, vestiu o suave sorriso —. Pelo menos alguém que me ouviu, não me condenou, foi capaz de me entender e sou grato por isso, por me considerar humano...

— Condenar as pessoas porque elas amam de um jeito diferente do meu? — abraçou o estimado amigo —. Os verdadeiros abomináveis são aqueles que causam dores e não se cansam de chicotear a quem quer que seja, quanto aos que amam, que mal fazem?


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No próximo capítulo:

— Foi avisado — o capanga de chapéu interrompeu os próprios passos —, uma pena ter sido tão ingênuo.
Lançaram o amante de Laís ao chão.
Deram início às covardes agressões.

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