[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 63 - Compreensão
Capítulo 63 – Compreensão
O amor, quando puro e verdadeiro, atrai inúmeros
bons valores como companheirismo, carinho, lealdade, mas o que talvez se
destaque dentre todos é o que chamamos de compreensão. Quem ama entende, mais
que entender, quem ama compreende as razões, os motivos, a singularidade da
pessoa amada. Ainda que não se renda completamente ao modo de ser do outro,
quem ama ao menos o escuta e presta sua preciosa compreensão.
De roupas trocadas, Egídio adentrou o escritório
onde aguardavam pela sua presença, sentou-se na cadeira atrás da mesa e dirigiu
o olhar atencioso ao filho que, esperando por sermões de condenação, não
conseguia encará-lo.
— Estava mesmo de partida? — dando um trago no
charuto que esfumaçava, o fazendeiro dissipou a quietude.
— Que opção me resta? — Pedro respondeu
questionando, ergueu os olhos, encontrou o olhar do homem que sempre admirou, o
homem que nos últimos meses despertara receios —. Mas já que estamos aqui,
quero que saiba que não lançarei o seu nome por entre os porcos, como deve
pensar. Estarei longe o bastante para que jamais se sinta envergonhado. Poderá
até mesmo se esquecer de que tem um filho — as palavras doeram em seu próprio
peito, imaginar que estaria solitário no mundo o angustiava, mas qual caminho
poderia seguir se não aquele? Viver uma mentira? Passar o resto da vida infeliz
e escondido? Não era aquela vida que queria, precisava respirar os ares da
liberdade.
Egídio, ouvindo com cautela o discurso, soltou mais
uma baforada. Repousou o charuto sobre a mesa, passou as mãos sobre os olhos
como se as vistas estivessem cansadas e tornou a encarar o rapaz.
— Desde muito cedo você se mostrou corajoso e
solidário. Lembro-me de quando era ainda menino e com seus discursos
convincentes evitou que eu fizesse novas vítimas em um dia de caça, depois
disso nunca mais me comportei como um caçador. Conforme crescia sua mente se
mostrava distante da perversão, era diferente das demais, de mentalidades que
percebem na dor do outro o sórdido prazer de suas almas. Eu tive essa mente e
me envergonhei dela quando adolescente me fez entender que entre negros e
brancos a única diferença é o tom de pele. Você me transformou — enquanto
falava, rememorava os eventos passados, a mudança a qual se submetera,
confessava a nobreza que existia no coração de seu atencioso ouvinte —. Eu
deveria saber que nunca aceitaria esse casamento, eu deveria saber que não
seria capaz de se juntar a alguém que não ama e eu deveria saber que em nome de
seus próprios anseios faria qualquer coisa, daria às costas ao universo de
regalias que o circunda, pouco se importaria com os prestígios do meu nome e se
arriscaria com as próprias pernas — naquele momento, sentindo orgulho pelo
filho que tinha, admirado pelas atitudes valentes daquele que carregava o seu
sangue, Egídio não conteve a emoção e a manifestou através das lágrimas. Por
sobre a mesa, fez as mãos se tocarem, manteve os olhares conectados —. Por
algum momento me rendi à prepotência e voltei a ser o homem miserável de anos
atrás, voltei a me portar de formas mesquinhas e egoístas e corri o risco de
perder o meu único filho, aquele que mantém viva a memória de uma história que
vivi ao lado da pessoa que mais amei. Perdoe-me por vacilar, por quebrar uma
promessa. Você é o meu filho, não importa qual caminho queira seguir, contanto
que se mantenha nesse intento justo e solidário, nunca terei motivos para me
envergonhar de quem é.
Esperando por discussão acalorada, esperando por
argumentos que tentassem mudar os seus pensamentos e minguar seus desejos,
Pedro se espantou com o diálogo que se desenrolara, com as palavras de
compreensão que ouvira, com a postura amigável daquele que parecia a cada dia
mais inflexível.
— Tem certeza do que está falando? Tem noção dos
riscos que está correndo?
— Quando foi que o enganei, meu filho? Sei que
ventos fortes se levantarão, mas não me importo com essa sociedade hipócrita,
como você a chama, não mais...
— Como eu chamo?
— Sei que é o autor daqueles textos, conheço os seus
argumentos e a maneira como usa as palavras. Quer saber de uma coisa? Alguém
precisa falar a verdade! — levantou-se sorridente, colocou-se ao lado do jovem
rapaz com os braços abertos —. Quem ama de verdade é capaz de compreender o
amado!
Aliviado, confortado por receber de volta o apoio
daquele que tento respeitava, Pedro também se levantou, rendeu-se ao abraço do
pai, permitiu que o choro fosse derramado, choro de felicidade por alcançar a
desejosa compreensão.
¤
Por outro lado, aqueles que não possuem o amor como
elemento primordial da vida e se alimentam de um ódio interminável, não
conseguem compreender as razões do outro, não conseguem ver no outro a
humanidade que nele existe, não conseguem olhar outra coisa se não os próprios
interesses, seus sórdidos pensamentos.
Frederico não teve a resposta que queria.
Não imediatamente.
— Eu fiz uma pergunta! — vociferou puxando Laís pelo
braço, levantando-se para que se encarassem face a face —. E por que esse
imprestável não está trabalhando?
— As pessoas ficam doentes, principalmente aquelas
que precisam colocar em xeque a própria saúde para que no dia seguinte consigam
abrir os olhos, mas nem sempre elas resistem e adoecem! Você está matando essas
pessoas com a sua arrogância, com essa avareza desprezível que o atormenta até
em sonhos! — a baronesa, não se deixando intimidar pela presença oponente,
articulou sua resposta.
— Se estão morrendo, deixe que morram! — o barão
bradou, sua fala causou arrepios naqueles que o serviam, suas palavras soaram
tão frias quanto o inverno que esbanjava rigor —. Vão para casa! — ordenou à
esposa e à filha —. Nunca mais ousem pisar nesse muquifo!
— Mas ele precisa de ajuda! — era o seu amor, era o
rapaz pelo qual se apaixonara sem a chance de escolher, era o personagem
principal das histórias que imaginava para o futuro, Ana não o deixaria para
morrer, intercederia pela sua vida enquanto fosse viva.
Irritado com a insistência, Frederico se aproximou
do escravo que resmungava largado no chão, encarou sua face, dirigiu os olhos a
Adelaide.
— É o seu filho?
A pobre mulher, preocupada com o estado daquele que
com tanto apreço cuidara, curvou-se perante a figura autoritária, clamaria por
compaixão.
— Eu suplico... — falava com humildade, as lágrimas
denunciavam a dor de um coração materno, dor contagiante, dor que Ana e Laís
também sentiam —. Eu imploro para que faça alguma coisa!
— Droga! — como se irado, o barão chutou as pernas
de Artur para a raiva e indignação daqueles que eram possuídos pelo amor e não
davam lugar a atitudes obscuras —. Ele tem muita sorte de render tão alto! —
dirigiu-se aos capatazes —. Tragam um médico. Não posso arriscar a perder um
dos poucos que valem o mínimo!
Dada a ordem, como se nada mais estivesse ao seu
alcance, Frederico deu às costas aos escravos ordenando que voltassem aos
afazeres e arrastando Ana e Laís pelo braço sem a menor das sutilezas.
— Sabem o que fizeram hoje? — lançou-as ao chão da
sala enquanto alçava a voz estridentemente —. Cometeram um grave erro! Fizeram
por menos a minha autoridade, pisaram sobre a minha palavra! Faça isso outra
vez, Laís, seus olhos contemplarão o horror! Repita seu ato irracional, Ana,
seu desejo será atendido, casamento não haverá porque a cova será seu destino!
— feitas as covardes ameaças, o barão se retirou deixando medo, desespero e
ardente desejo por virar a página daquela repudiável história.
##
No próximo capítulo:
— De que
adiantará não nos vermos mais se continuarei acordando antes do sol nascer faça
frio ou calor? Não quero que tenha essas preocupações, eu estou bem, asseguro
que sou forte, isso foi apenas uma falta de sorte — envolveu as mãos delicadas,
trouxe-as para seu peito a fim de aquecê-las, a fim de confortar uma alma
inquieta —. Enquanto puder contar com o seu amor não perderei minhas forças,
estarei em pé, pronto para qualquer luta!
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