[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 60 - Verdadeiramente


Capítulo 60 – Verdadeiramente

Contra aquilo que é verdadeiro nada, muito menos alguém, prevalece. Lutar contra aquilo que é verdadeiro não passa de inútil. Aquilo que é verdadeiro o tempo não corrói, o vento não carrega, as adversidades não enfraquece.  Aquilo que é verdadeiro pode sofrer abalos, enfrentar turbulências, mas ao findar a tempestade torna a ficar em pé, ainda mais forte, ainda mais preparado.
O amor de Laís e Heitor, sentimento nutrido desde que eram dois sonhadores adolescentes, sentimento antigo, era sincero, era cheio de honestidade, era verdadeiro. Tal amor vencera tantos desafios, até mesmo o perigo enfrentou, não seriam as ameaçadoras ordens de Frederico que o minguaria, que o diminuiria, não seria a hostilidade de um homem miserável maior do que a nobreza de tão íntegro afeto.
Dentro da igreja, cercados por bancos vazios e observados pelo bondoso padre Miguel, o casal se abraçou, encarou-se a plenos sorrisos, radiante de felicidade, repleto de alívio por mais uma vez ter a chance de romper a distância, sentir o toque um do outro, ouvir as inconfundíveis vozes.
Beijaram-se.
Depois de tantos dias afastados, coibidos, apreensivos pela insanidade do sujeito cruel, homem e mulher renderam-se à irresistível atração que os seduzia, entregaram-se à terna demonstração da assídua paixão que nunca diminuía.
O religioso pigarreou.
Ambos os amantes afastaram-se constrangidos, por alguns poucos instantes se esqueceram de onde estavam, diante de quem estavam e dos riscos que os cercavam.
— Perdoe-nos — tímida, a baronesa se dirigiu ao padre, a mesma timidez que Heitor contemplara tantas vezes, a que o fascinara por aquela que chamaria de mulher da sua vida.
— Não se incomodem comigo, apenas não se esqueçam de que estamos na casa de Deus — foi compreensivo —. Fiquem à vontade para irem ao escritório, terão mais segurança para conversar, seus olhos demonstram a imensa saudade que assola seus corações.
Mais do que depressa, agradecendo a ajuda que recebiam, homem e mulher, destinados a se amarem, condenados a juntos viverem, aceitaram a sugestão, precisaram esperar muito por aquele dia, momento no qual esclareceriam todas as coisas e reergueriam os planos para o futuro.

— Por algum momento achei que estava tudo acabado, que precisaria esquecer as muitas promessas, que deveria abandonar meus próprios desejos e me conformar... — sentada no sofá, sendo observada pelos atentos olhos daquele ao qual verdadeiramente se afeiçoara, a baronesa interrompeu o próprio discurso, não prosseguiu, não quis continuar.
— Conformar-se com o quê? — o comerciante teve a certeza de que o desabafo não se encerrara ali, conhecia muito bem a detentora de seus mais sublimes sentimentos, sabia que algo a agonizou, algo que ele faria questão de desviar dos seus intentos.
— Conformar-me que fui usada — confessou em voz baixa, como se não quisesse declarar o fato que por dias e noites a assombrou —. Durante todos esses anos Frederico apenas me usou, não sente carinho por mim, não tem a menor demonstração de respeito, perante os seus olhos de luxúria sou apenas fonte de satisfação para desejos mesquinhos, necessidades carnais... Pensei...
Cheio de compreensão, Heitor pousou o indicador sobre os lábios de Laís evitando, assim, que a fala fosse concluída. Com a mesma sutileza de anos, colheu as mãos da amada mulher, encarou-a com toda a sinceridade que possuía, de uma vez por todas confessaria a imensidão de seus afetos, asseguraria total fidelidade.
— Jamais seria como um homem que para se sentir forte precisa humilhar, que para se sentir valente precisa machucar, que para se sentir alguém precisa agir covardemente. Ao contrário dele, para me sentir importante, para sentir que minha existência possui algum propósito, preciso de apenas uma coisa — acariciou o rosto sereno, a face que já recebera agressões, mas que dele recebia apenas carinho —, preciso que me ame para sempre! — colheu a fina lágrima que escorreu do olho de Laís, sentiu o coração balançar quando ela exibiu o doce e envergonhado sorriso, o mesmo da juventude, o que passassem quantos anos fossem, nunca deixaria de ter significado para ele —. Tentei me afastar por medo de perdê-la, Frederico me prometeu que matá-la-ia, jamais me perdoaria por saber que tive a sua vida em minhas mãos e não fui capaz de salvá-la. Mas é exatamente por nunca me perdoar que faço minha maior e mais inviolável promessa: salvarei a mim e salvarei a você para que vivamos o nosso amor!
— Heitor... — emocionada, sentindo o imenso amor ser fortalecido, a baronesa abraçou o único que verdadeiramente amava, o único pelo qual valeria a pena lutar —. Não se esqueça de que nessa luta terá minha parceria! — começavam a se preparar para a batalha cujo prêmio era a tão sonhada, respeitada e cobiçada liberdade.

¤

A verdade, por mais que seja acorrentada e encoberta, uma hora rompe as barreiras e, como o sol de todos os dias, atravessa cada pequena fresta para que seu brilho a todos toque. É inútil tentar escondê-la, em algum momento o confronto é perdido.
Pedro, contagiado pela coragem de Ana, desejoso por mudar a sociedade na qual vivia e tentado a não desistir da própria liberdade, sentia que a cada dia ficava mais difícil encobrir sua própria verdade, tal esforço oferecia angústias, embaçava a visão sobre o porvir, apavorava-o a ideia de um futuro infeliz, um futuro de mentiras.

A mãe, há dias muito enferma, a cada amanhecer decaindo em seu estado de saúde, não conseguia mais sair da cama, a respiração se tornava pesada e cansativa, o desânimo travou suas pernas e as dores que não findavam faziam a certeza sobre o fim ser incontestável. Foi em seu último dia, nos últimos minutos daquele sofrimento terrível, que ela pediu para que as duas pessoas que mais amava se colocassem ao seu lado, que ouvissem suas derradeiras palavras, que lhe dessem a chance de se despedir.
— Vocês sabem o quanto os amo, o quanto são importantes para mim, o quanto desejo pelo melhor em suas vidas, mas infelizmente já não poderei estar torcendo por vocês, não em vida, porém não importa o que aconteça, olharei pelo meu amado esposo, atentar-me-ei ao meu estimado filho, não terão minha presença em suas vidas, mas nunca os abandonarei — enquanto a voz trêmula enfrentava a respiração ofegante, lágrimas eram derramadas pelos ouvintes que, embora ainda não atingidos pelo pior, já eram oprimidos pelo sentimento de saudade, a saudade que nunca pode ser saciada —. Pedro... — levou os olhos apagados ao ainda adolescente, repousou a mão fria sobre seu rosto, tocou as lágrimas que o molhavam —. Você é um moço valioso, seu futuro será grandioso e sua história admirada, mas não permita que forças opositoras o sufoquem e apaguem o sorriso de seu rosto, não deixe que o medo pelas ameaças espantem os seus sonhos, você precisa ser forte por mim, mas principalmente por você. Confie em seu pai, ele será seu maior companheiro, seu melhor amigo, conte com ele nas horas dos mais formidáveis assombros.

Recordando-se das últimas palavras que ouvira de sua amada mãe, do derradeiro conselho que dela recebera, Pedro se vestiu de valentia, confiaria no pai, revelaria a ele o seu segredo, o motivo de seu medo, a razão de sua vida.

O tempo estava fechado.
A chuva era violenta.
Com ela, o rigoroso frio do inverno cercava a província de São Pedro.

Naquela marcante tarde, Pedro adentrou o escritório de seu pai, pediu para que lhe desse atenção, alarmou para o fato de ter um importante desabafo a fazer.
— Em seus últimos suspiros minha mãe disse para que confiasse no senhor, para que o tivesse como melhor amigo, como um ajudador, acha que seria possível?
— Mas é claro — como sempre, Egídio se recordou saudoso da mulher que aprendera a amar, mas que não conseguira aprender a esquecer —. Apesar de nossas divergências em alguns pontos sempre fomos próximos, demo-nos bem, acredito que sempre fomos amigos.
— O motivo para que eu insista na ideia de que reconsidere o casamento com Ana é muito simples: eu não quero ser infeliz e nem quero fazer alguém infeliz vivendo mentiras, vivendo apenas de aparência, vivendo uma ilusão bem encenada. Sempre quis saber por que eu não me aproximava das garotas da região, sempre estranhou o fato de eu não galanteá-las como se gabava contando suas aventuras juvenis, mas não poderia ser diferente, eu não conseguiria ser diferente. Como meu amigo precisa saber que nunca me aproximei das moças porque não é por elas que me sinto atraído. Já tenho a quem amar...


Continua...


##
No próximo capítulo:

— Se quiser continuar nessa casa, se quiser permanecer como meu filho, repense suas decisões, repense quais pecados quer ter. Se escolher permanecer nesse pensamento doentio é bom que desapareça antes que o mate!
Ser ameaçado de morte por alguém que amava fez o mundo cair sobre as costas do rapaz que sentiu como se a tempestade que ruía lá fora passasse a balançar as estruturas de sua alma. Com lágrimas rolando pelo rosto caminhou até o pai, encarou-o em uma última tentativa.

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