[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 54 - Vingativa Justiça - Parte 2


Capítulo 54 – Vingativa Justiça (Parte 2)

Em constante repúdio à opressão, sempre do lado contrário ao do inimigo, Artur se encontrou em delicada posição: era quem oprimia, era quem sentenciaria ou vida ou morte, era quem tinha nas mãos o poder da continuidade ou do fim. Pensou que se sentiria aliviado, que nunca se culparia por retribuir o inimigo com a mesma agressividade, com a mesma maldade, mas o sentimento era outro, não gostava da ideia de ser um assassino em potencial, seu coração era puro, sua humanidade era nobre, precisou reconhecer que jamais venceria a própria natureza.
— Não, Artur, nós sabemos que você não fará, não consegue, não tem estômago! — após andarem por metros, Sebastião se cansou do medo que experimentava, precisava arriscar, precisava intimidar o rapaz tocando em sua integridade —. Seu coração é bom — mantendo as mãos sobre a cabeça, virou-se ao escravo, encarou-o fixamente —. Aposto que não pensou em como será depois, o que fará com o meu corpo, como explicará o meu sumiço, como esclarecerá sua falta de paz e sossego — o sol já perdia as forças, a mata era tomada por sombras, em poucos instantes a noite chegaria —. Você não fará nada porque é um babaca romântico que acredita em histórias de amor, mas não se iluda, Ana despertará de seus devaneios, perceberá que estava a ponto de cometer uma loucura e o dispensará como se fosse um cachorro!
— Cala a boca! — Artur disparou, viu a bala passar próximo à face do rival, não pôde mais esconder as lágrimas de revolta, ira e medo —. Vocês nos subestimam, pensam que duas pessoas tão jovens não podem ter uma certeza grandiosa quanto ao que querem para a própria vida. Ana me ama! — vociferou como se precisasse convencer a si mesmo daquela fala, como se falasse consigo mesmo —. Ela me ama! — disparou outra vez. Sebastião fechou os olhos, suspirou aliviado ao perceber que fora outro tipo aleatório.
“Olhe só para você, um moço bondoso, admirado, respeitado pelo que representa àqueles que o rodeiam, não vale a pena jogar tudo isso fora, não quero que acabe com a sua vida”. As palavras de Adelaide soaram aos ouvidos de Artur que, vendo as mãos suarem e tremerem, fazia esforço a fim de manter o domínio sobre o armamento apontado ao alvo, a fim de se manter como o dono da sentença. Sim, ele era bom, procurava andar pelo caminho da bondade, e por ser assim, benigno, queria fazer justiça, queria punir os castigadores.
“E mesmo que ninguém veja, sua consciência para sempre o acusará...”. Na verdade, confessou o rapaz, já era condenado pelos princípios que seguia, já era sentenciado pela filosofia que procurava cumprir: não podia se igualar aos desumanos, não devia se juntar aos impiedosos.
“Acho que precisa se proteger do que não conseguirá evitar”. O conselho de Bruno abriu os olhos de Artur, a culpa duraria para sempre, a condenação seria eterna, mancharia suas vestes por um corrupto miserável, alguém que mesmo sendo terrível ele não poderia matar, não era seu destino arrancar a vida de alguém, precisava confiar na verdadeira justiça, a que talvez tarde, mas inevitavelmente chega.
Atento ao jovem escravo, Sebastião reconheceu no olhar distante a preocupação que assolava o nobre e valente espírito, compreendendo que não seria morto, arriscar-se-ia a fuga.
Correu.
Artur voltou em si quando o capanga se usou de esperteza, avançou atrás dele, estava certo de que não o mataria, mas ao menos uma surra concederia, algo que o assustasse e fizesse pensar muito antes de voltar às terras de Frederico narrando os últimos acontecimentos e exercendo sua perversidade.
Sebastião, por sua vez, esforçando-se por enxergar o caminho que trilhava, sentia o peito disparar tendo aos ouvidos o som da perseguição, precisava escapar, arranjar uma forma de se esquivar do perseguidor, voltar para casa e garantir ao sujeito que odiava um castigo que nunca seria esquecido.
O problema era que não conhecia a estrada na qual pisava.
À sua frente, um abismo.
— Pare! — Artur esbravejou, conhecia o caminho, conhecia o precipício, tentou poupar o opressor de uma tragédia.
Sebastião interrompeu os passos, virou-se ao rapaz que lhe apontava a arma, vestiu um insano sorriso na face.
— No inferno você me paga! — pulou.
Horrorizado, Artur correu à beira do despenhadeiro, não conseguiu ver nada, a noite chegara e com ela a escuridão que cega os olhos. Lamentou-se, disse a si mesmo que tentou, que procurou poupar a vida daquele monstro, mas não foi o bastante, não conseguiu êxito, ele mesmo se lançou ao caos deixando uma dúvida: por quê?

De volta à caverna, temendo que pelo caminho cercado de sombras fosse atacado por alguma víbora, Artur posicionou as velas que levara caso precisasse passar a noite com Sebastião e esperar o amanhecer para concluir o plano. Ajudou Bruno a se sentar, despertou-o do desmaio motivado pelo choque entre a parede e sua cabeça, certificou-se de que estava tudo bem.
— Onde ele está? — sentindo as dores da pancada, percebendo as vistas turvas e enxergando apenas luzes distantes, o soldado perguntou arrastando as palavras.
— Morto — a resposta de Artur causou arrepio no ouvinte —. Não, não fui eu, ele tentou escapar, correu por essa mata feito um desesperado, só parou quando ordenei, logo à sua frente havia um precipício. Ele me olhou, sorriu como um doente e se jogou. Lançou-se à própria morte.
Aquilo soou estranho aos ouvidos de Bruno que tão bem conhecia o homem que vigiava a fazenda na incansável busca por delinquentes que pudesse punir. Ele era ambicioso, servia fielmente ao barão na expectativa de ascensões, não seria capaz de ferir a si mesmo, muito menos de se matar.
— Talvez a culpa seja minha... — o jovem escravo rendeu-se ao choro —. Nos últimos instantes desisti dessa loucura, fiquei paralisado refletindo sobre as coisas que ouvi. Foi quando ele correu. Eu precisava assustá-lo, convencê-lo de que não daria uma segunda chance, que da próxima vez que cruzasse meu caminho era para ter certeza da morte... Não deveria persegui-lo... — lamentava-se.
— A culpa não é sua... — Bruno se esforçou por encarar o amigo que ganhara em uma realidade tão desagradável —. Se ele morreu a culpa não é sua.
— O que quer dizer?
— Quando Sebastião se mostrou disposto a sofrer?
— Eu o vi se jogar!
— Você o viu morto lá embaixo?
— Estava escuro...
— Se ele morreu a culpa não é sua — reafirmou alimentando suspeitas.

Ao se jogar, Sebastião sabia o que estava fazendo, só não sabia se a sorte estava ao seu lado, mas não poderia perder a oportunidade valiosa que lhe era apresentada. Existiam raízes expostas pelas paredes do precipício, apenas precisava agarrar-se a elas para que sua encenação causasse assombro.
Foi o que aconteceu.
As raízes lá estavam, expostas pela erosão.
Agarrou-se a elas usando de força.
Viu a face de Artur horrorizada, a luz do luar permitiu que as lágrimas de tensão fossem notadas. Implorou para que o rapaz fosse embora, não aguentaria por muito tempo ficar a um fio da morte.
A partir do silêncio teve certeza de que o inimigo partira.
Escalou pelas raízes acima da que segurava.
Agradeceu pelas árvores robustas ali existirem quando sobre a superfície colocou os pés ouvindo a queda da terra.

Pensou em correr rumo à casa grande, não perderia tempo e contemplaria com prazer Artur ser colocado no tronco e ficar a um passo da morte e, claro, não esqueceria de buscar no sofrimento de Bruno a satisfação pelos momentos de humilhação. Mas não, pensou melhor, o inimigo precisava acreditar que fora vencedor, precisava comemorar a vitória, embebedar-se com o prazer de ser vitorioso. E, então, quando menos esperassem, ele ressurgiria mais forte do que nunca, sedento por vingança.


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No próximo capítulo:

— Desde muito cedo a certeza pulsou aqui dentro, desde muito cedo percebi que não queria apenas a sua amizade, meu desejo ia além disso, eu queria o seu amor. E fui atendido. Tenho o seu amor, o seu apreço, recebo afetos que nenhuma outra pessoa no mundo poderia doar, afetos que apenas você com sua graciosidade pode conceder. Quero para sempre ser agraciado por esses afetos. Quero acordar de manhã e continuar com a certeza de que tenho nos braços o amor da minha vida. Quero que seja a minha esposa. Você me aceita?

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