[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 52 - Enloquecido
Capítulo 52 – Enlouquecido
A
morte.
A
morte é capaz de apavorar o mais corajoso, é capaz de assustar o pior dos
assassinos, faz o futuro parecer uma incógnita, um sonho que jamais será
realizado. A vida é um sopro, disso sabemos, mas quando o sopro será dado
ninguém pode dizer.
Artur,
sentado no chão da caverna, já há horas observando seu cruel inimigo, desejava
matá-lo, desejava arruiná-lo, não acreditava que um sujeito tão vil como aquele
merecesse a dádiva do estar vivo. Mas como faria aquilo? Seria um assassino
depois de tanto lutar contra aqueles que se achavam no direito de ditar até
onde a vida de alguém deveria ir? Sujaria as próprias mãos?
Sebastião,
por sua vez, observando o rapaz a sua frente, embora incomodado com a ideia de
estar nas mãos daquele que considerava um subalterno, soube interpretar o olhar
apreensivo do escravo, o que alguém que se arrisca por amor faria contra ele?
Precisava aproveitar tal fragilidade.
—
Sabe que tem que me matar, não sabe? — quebrou o silêncio —. Quero dizer, estou
sendo humilhado por um inútil, tão logo saia daqui lhe darei o tratamento que
merece!
O
jovem rapaz não respondeu.
Manteve
o olhar sobre o capanga.
—
Você está sozinho, não percebe? Ninguém aceitaria fazer parte nessa louca
conspiração. Deu a sentença, mas quem a aplicará? — sorriu convencido —. Tem
certeza de que terá as forças necessárias para tirar a vida de um homem? Para
em suas mãos possuir o sangue de um semelhante? Será que dormiria à noite?
—
Você não sabe do que eu sou capaz! — Artur resmungou.
—
Sim, eu sei sim — Sebastião protestou —. Você se deitou com a filha do barão,
seu olhar confirma que a ama, acha mesmo que seria capaz de pegar uma faca e cortar
o meu pescoço vendo meus olhos se desesperarem à procura de fôlego e meu sangue
jorrar na sua cara?!
Como
se dominado pela ira que só aumentava, Artur avançou contra o falante, pegou-o
pelo colarinho, encarou profundamente os olhos que adoraria arrancar.
—
Você. Não. Sabe. Do que. Sou. Capaz! — cedeu uma pancada contra a face do
opositor, fez a cadeira tombar —. Aproveite as próximas horas — afastou-se
contendo o suor da testa —. Serão as últimas!
Com
a queda, Sebastião ficou estendido no chão, não conseguia se levantar, as mãos
e os pés permaneciam fortemente amarrados contra o assento que dificultava seus
movimentos, mas era esperto, sempre usou de alarde, lembrou-se de que naquele
lugar muitos perderam a vida a partir de torturas impiedosas.
O
som do atrito entre a cadeira e o chão soava pela caverna enquanto o capanga se
arrastava em direção à gargalheira jogada num canto, o objeto de tortura era
uma espécie de coleira com espinhos metálicos utilizada, principalmente, como
castigo aos escravos fugidos, os espinhos dificultavam, por exemplo, quando os
escravizados queriam se deitar, qualquer posição era em extremo incômodo e
sufocante.
Levou
o pulso que estava amarrado contra o encosto da cadeira ao espinho,
esforçava-se por causar a luta entre a corda que o prendia e a ponta metálica,
precisou ser forte e persistente, em muitos momentos o espinho escapava e
fisgava sua pele.
Quando
libertou uma das mãos a tarefa ficou mais fácil.
Só
precisava esperar que Artur voltasse para, então, surpreendê-lo.
¤
Quando
Ana voltou à fazenda já entardecia, a brisa se tornava mais fria e o sol seguia
a rota costumeira em direção às costas dos montes. Ela trazia boas novas.
Notícias que alegrariam um abatido coração. Palavras que ofertariam júbilo à
alma que por um momento pensou que tudo estava perdido.
Mas
não.
Talvez
as coisas estivessem se encaminhando para um agradável e oportuno recomeço.
Querida Laís, a mulher dos meus
sonhos, a única que pode me alegrar na realidade.
Eu entendo se ficou cheia de
revolta, eu compreendo se a decepção despertou em seu coração, nem que seja por
um segundo, o ódio contra mim e o arrependimento pelo que fizemos. Fui covarde,
confesso que agi como um garoto assustado, um menino apavorado, esqueci que sou
o homem que lhe prometeu amor eterno, que lhe assegurou realizar os seus sonhos
e ofertar felicidade. Ao invés de acolhê-la, causei o afastamento, ao invés de
abraçá-la, encarei-a com um desprazer que não existe, um desafeto que jamais
compactuaria a mais bela das rosas. Fui insolente.
O mais triste é que agi como um
fraco por medo, sim, valorizei mais o medo que sentia do que o amor que recebo,
mas precisa saber que não foi medo pela minha vida, pelas dores que poderiam
assolar minha carne, eu morreria por você! Foi medo de perdê-la. Pode parecer
confuso que eu diga temer essa perda já que tentei afastá-la, mas eu seria
feliz se mesmo que longe dos meus braços, continuasse viva, respirando no mundo
que também vivo. Jamais suportaria tê-la morta em meus braços porque não pude
conter meus próprios desejos.
Frederico conhece o nosso segredo,
sabe do nosso amor e me fez uma proposta irrecusável: se quisesse mantê-la viva
deveria encerrar esse amor. Eu tentei. Juro que, por muito amá-la e na intenção
de protegê-la, eu tentei. Mas o que ninguém sabe, o que nem mesmo eu sabia, é
que a eternidade não pode ser encerrada, o infinito não tem fim, o nosso amor
existirá para sempre.
Eu te amo.
Se disse que não te amava, menti.
Se falei para que me esquecesse, na verdade queria dizer para que jamais se esquecesse
de mim, que nunca me deixasse dos seus sonhos, que me permitisse fazer parte de
cada plano que constrói. Eu não posso viver sem a fonte da minha vida!
Espero que me perdoe e, se estiver
disposta a lutar, eu estarei disposto a defendê-la.
Com amor
Heitor.
Com
os olhos marejados, regozijando pelo prazer de sentir o amor, a baronesa levou
o perfumado papel até o peito, estava sim disposta a lutar, mas entraria
naquela luta com um único propósito: vencer.
Contemplando
a felicidade da mãe, Ana se encheu de esperança: o amor sempre dá um jeito de
sobreviver.
¤
—
Eu sei de tudo — ignorando as regras, pouco se preocupando se o barão estava ou
não em suas propriedades, desprezando a ordem para que não se aproximasse de
Ana, Artur adentrou a cozinha da casa grande, abordou Adelaide, encarou-a com
os olhos lacrimejantes, o mesmo olhar de quando criança recorria à proteção da
mãe nos momentos de rebeliões.
—
O que está fazendo aqui? — a mulher se desesperou, olhou à sua volta temendo
que olhos perigosos os flagrassem.
—
Eu sei de tudo, sei que a culpa é minha, mas já estou procurando reconciliação
com o passado! — disse como se precisasse de absolvição.
—
Do que está falando?
—
Aquele monstro a humilhou muitas outras vezes, fê-la de vítima, usou meu
relacionamento para intimidá-la, para que o servisse em seus nojentos
interesses, mas não se preocupe — falava com convicção —, ele nunca mais
colocará as mãos em alguém que amo, vou matá-lo! — parecia enlouquecido.
Continua...
##
No próximo capítulo:
— Tem certeza de que é o que
fará? — antes que Artur partisse, Bruno o indagou —. Há maneiras melhores de
fazer justiça, não precisamos nos igualar aos ordinários para isso.
— Acha que devo ter misericórdia
por alguém que arranca sangue das costas do meu povo?
— Acho que precisa se proteger do
que não conseguirá evitar.
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